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Delinquente, Inconsequente & Demente


Arquivos da Demência Ontológica Arquivos Mande o autor ao inferno!!

Mande os autores ao inferno

Segunda-feira, Junho 30, 2003 :::
 
Este que vos escreve agora pode ser chamado de palhaço mesmo, pelo menos está com o nariz vermelho tal qual um palhaço.

::: posted by ARI ALMEIDA at 1:02 PM


Mande os autores ao inferno

 
Com EXCLUSIVIDADE para o Blog Delinquente, a narração do novo ataque da Juventude Doente em Curitiba, neste fim de semana. Leia Djá!!!!

::: posted by ARI ALMEIDA at 12:19 PM


Mande os autores ao inferno

 
A Foto do Tijolo na Vidraça Todo Mundo Acha Bonito (mas o tijolo na virdraça mesmo...)
(ataque três)

Uma vez li em algum lugar, acho que no site da Fraude: "sempre se envergonhe daquilo que você escreve". É assim que funciona comigo quanto à poesia. Passa um ano, um ano e meio e são raros os poemas que eu leie e não me envergonhe. Já faz um tempão que não escrevo poesia e o primeiro sujeito que me aparece dizendo que a poesia está morta já vou aplaudindo.

Outro dia eu estava andando no calçadão da Quinze e apareceu um cabeludo ofereçendo livrinhos de poesias por dois reais. Soltei meu chavão preferido:

- A poesia está morta! E só curto necrofilia quanto tô bêbado.

O que anda me desanimando na poesia é justamente isso: a gaiola onde ela anda aprisionada. Você escreve lindos versos e, ou os deixa na gaveta, dando-lhes vida apenas nos momentos em que lhes dá atenção, ou então você os explora feito o cabeludo do calçadão, imitando aquelas senhoras pobres que levam seus filhos pra esmolarem no centro da cidade e ficam cuidando escondidas na esquina, recolhendo as moedas dos filhos a cada meia hora.

Andei pensando muito nisso porque depois da invasão da casa da Ju, o Fábio ficou meio traumatizado devido ao estresse e à overdose de adrenalina e andava escrevendo feito um aluscinado. O poeta oficial da turma sempre foi o Sergio, com seus arroubos de paixão, só que ultimamente andava se ocupando demais com as telas.

- Ari, a gente podia fazer alguma coisa com as poesias...
- Fazer o quê, Fábio?
- Sei lá, tipo alguma coisa parecida com o que a gente fez com as telas do Sergio.
- Que tal a gente xerocar uma porrada de poemas e colocar cada um dentro de um livro na Biblioteca pública, O Tiba trabalha lá e dá pra gente fazer.
-Não, nada a ver, isso é idéia de gerico.
- O quê então?
- Sei lá... Vamos pensando, porra.

O Sergio torçeu o tornozelo de verdade naquela noite. Na hora da correria não sentiu nada, mas no outro dia o negócio amanheceu inchado, teve até que ir no postinho de saúde enfaixar. A semana passou então com todos meio que recolocando as idéias no lugar. A invasão porém, foi um sucesso e ninguém estava a fim de parar. Foi na quinta-feira, quando o Sergio tirou as faixas do pé que saimos pra beber e comemorar que o Fábio veio com mais uma Fantástica Idéia & um Plano Perfeito.

- Galera! Já sei o que fazer com as poesias!

O Jean deu sua coçadinha de barba típica:
- Ih! Já tá viajando de novo!

O Vinicius sempre foi mais ácido:
- O Fábio tendo idéias? Dessa vez a gente cai com os hôme!

- Vão se fuder! O Plano é perfeito. Ouçam crianças: a gente escreve cada poema, no caso eu escrevo, à mão, em papeizinhos pequenos. Depois a gente amarra os poemas com linha de costura em bolinhas de gude e, com um estilingue e... (fez uma pausa para o suspense)... fizemos a distribuição nas vidraças da classe média. Perfeito! O terrorismo poético que o Hakim Bey falou.

- Olha a do cara, meu! Tava todo cagado de medo por ter arriscado o pescoço domingo e agora já quer sair quebrando vidraças por aí!
- Se é pra fuder, vamos fuder com tudo de uma vez, porra!

Curti a idéia pra caralho. O Fábio é o tipo do cara que fica na dele a maior parte do tempo e de repente surpreende a gente.

- Eu consigo façinho umas cinco bicicletas lá em Colombo, depois a gente compra aquelas tocas pretas que os Zapatistas usam, vamos todos vestidos de preto e com luvas pra dificultar a identificação e pronto!

Gostei da idéia mesmo e nos dias seguintes ficamos tratando de conseguir o material, algumas roupas pretas emprestadas e tocas e luvas a cinco reais nos camelôs da Praça Osório.

Vinicius escolheu o bairro: Jardim Social e fez um mapinha esquematizado com rotas & fugas. Eu e o Sergio iríamos pela BR 116 com três poemas e pixaríamos cada um deles em algum ponto do trajeto. O Jean e o Vinicius iriam pela Av. Nossa Senhora da Luz com outros três poemas e a mesma tarefa com o spray. Idéia de quebrar o orçamento do Sergio: cada poema pixado com uma cor diferente, idéia besta de artista plástico besta, azar o dele, teve que pagar os sprays.

Fabio ficou com o último poema pra fechar o número sete, pois anda pirando com o Calendário Maia e umas paradas de numerologia. O cara tem umas piras com o número 23 que ninguém bota fé. Ele iria sozinho, à deriva, sem rota planejada e iria nos esperar às quatro da manhã na Praça Villa Lobos, de onde fujiríamos feito uns loucos novamente.

Logo depois da meia-noite eu e o Sergio partimos com nosso material terrorista. As bicicletas que o Fabio conseguiu pra nós eram umas belas bostas. A minha escapava a correia a cada duas quadras e a do Sergio era cor-de-rosa, altamente gay. Mas tudo bem, lá fomos nós BR à fora escolhendo lugares pra pixar os poemas.

Não posso dizer que fizemos um trabalho bem feito. Nossas bikes eram uma merda e meu colega, basicamente um inexperiente em vandalismos & delinquências. O primeiro poema ficou num muro de um terreno baldio meio nada a ver. O segundo foi melhor, foi numa daquelas passarelas pra pedestres que atravessam as rodovias. Foda foi escrever de cabeça pra baixo.

O terçeiro foi mais massa. Pulamos um muro e pixamos do lado de dentro. Vandalismo exclusivo. Não é pra qualquer um. E o poema era bom, pixado de vermelho vivo. Muito louco.

Fiz uma gambiarra pra correia parar de escapar e tivemos que pedalar às ganhas pra chegar no Jardim Social às três da matina. O Sergio carregava os "Cartuchinhos Líricos" como eu chamava os poemas amarrados em bolinhas de gude e o estilingue. Eu iria atirar, já que ele nunca tinha caçado passarinho na vida. Se o Sergio fosse atirar acho que precisaria de uns 49 poemas pra acertar uma vidraça de 10 metros de largura a quatro passos de distância.

A primeira casa foi fácil: a vidraça era grande e o muro era perto. Um facilidade traiçoeira, pois fizemos a coisa rápido demais, sem pensar na fuga e a filha da puta da rua tinha uns duzentos metros até a próxima esquina. Correria dos diabos. Foi ouvir o som da vidraça quebrando e parece que o peso da realidade se abateu sobre nós, sobre mim principalmente.

Corremos umas cinco ou seis quadras, aí parei e joguei o segundo poema de qualquer jeito, quase de olhos fechados e quase sem pensar. Eu parecia o Fábio na casa da Ju, cego & paranóico de cagaço. Nem lembro da casa direito, ouvimos os estilhaços e saímos correndo alucinados de novo.

Dessa vez corremos bem mais até eu achar um muro que desse num terreno baldio.
- Rápido cara, joga a bike pro outro lado!!
- O que foi? - Sergio parecia irritantemente calmo.
-Joga, cara! Joga!!!

Jogamos as bicletas e sentei ofegante no meio de um mato de ervas daninhas. Estava exausto e apavorado. Na casa da Ju era um lugar fechado que o Jean conhecia bem. Agora era diferenre, estávamos na rua, onde qualquer insone podia enchergar da janela do quarto e não conhecíamos o bairro direito. Acendi um cigarro. Minhas mãos tremiam.

- Temos que apurar, Ari, senão a gente se atrasa.
- Calma!
- Já são dez pras quatro e você acha que a polícia vai demorar muito mais de cinco minutos pra aparecer?

Aí parece que a realidade desabou novamente sobre mim. Era verdade, a mais pura verdade. Então parece que um raríssimo senso de heroísmo se abateu sobre mim. Corri uns cinquenta metro pelo matagal e pulei um muro altíssimo (sinceramente, não sei como consegui) que dava numa casa nos fundos do terreno. Caí no pátio e fiz tudo automaticamente sem raciocinar, o tipo de coisa que se você pensa, você não faz. Na janela que dava naquilo que eu achava ser o quarto dos donos da casa estiquei o estilingue e, a menos de dois metros de distância, soltei o projétil. Deu pra sentir os cacos de vidro no rosto. E deu pra ouvir gritos dentro da casa. Parei o mundo deles, rêrêrê.

Juro que nunca corri tanto na vida. Tinha uns espinhos no matagal e me arranhei todo sem nada sentir na hora. Magicamente o Sergio já estava esperando com as bicicletas do outro lado do muro. Mirei o olhar numa placa de trânsito no fim da rua e pedalei com todas as minhas forças. Nem olhei pra onde o Sergio estava e nem olhei pra nada. Foi então que a porra da correia escapou de novo e no pau que eu estava me estoporei no chão. Mesmo com a tocas de lâ meu rosto arrastou no asfalto e ralei o nariz e machuquei o cotovelo.

- Você tá bem cara? Se machucou?
- Foi nada, bora, bora, bora!!!!
- Tem certeza?

A adrenalina era tanta que eu não estava sentindo nada. Chegamos na praça já estavam todos esperando impacientes.
- Porra cara, vocês demoraram pra caralho!
- Pensamos que vocês tinha sido pegos.
- Que diabos vocês estavam fazendo?
- O Fabio ainda tem que jogar o dele!
- Que foi isso no teu nariz, Ari?

Nisso ouvimos as sirenes da polícia. Puta que o pariu, a hora do Amargedom. O Fábio saiu correndo em direção a uma mansão do outro lado da praça. O meu coração parecia que ia sair pela boca. O Jean olhava para os lados nervosamente. O Fabio correu, subiu num muro alto, esticou o estilingue, fechou um olho, deitou a cabeça pro lado acertando a pontaria e gritou:

- Bota pra fudêêeeeer!!!!!

Ouvimos o som da vidraça partindo e já saímos no pau. O som das sirenes já estavam bem alto e o alarme da mansão disparou, apoclíptica a cena. O Fábio tava ficando pra trás, mas ainda deu pra ouvir ele gritando:

- Fujam que eu dou um jeito!!

Se a gente tivesse um cronômetro na hora acho que teríamos batido altos recordes de velocidade.
- Iaba daba dúúúú, me alcançem seus paunocúúúú! - Gritou o Vinicius se cagando de dar risada.
- Corra, Forrest, corra! - Respondeu o Jean.

Em menos de dez mintuos estávamos todos sentados no escuro, ofegantes, na frente do Jardim botânico. Quer dizer, todos menos o dono da bicicleta da correia podre, eu, que levei outros dez minutos pra chegar. Dessa vez não ríamos tanto quanto na semana passado porque o Fábio tinha ficado pra trás. Quase ninguém falava nada, até que o Jean foi num posto de gasolina próximo buscar umas cervejas e voltou com o Fabio no bagajeiro. O desgraçado escapou!

- Seus boiolas! Eu tava brincando quando falei pra fujirem sem mim.
- E a bicicleta?

O cara, emocionado com sua aventura, disse que tava tão feliz que deixou ela num viaduto de presente pro primeiro que a encontrasse, com uma sacolinha plástica cheia de panfletinhos com a frase: "Seja realista: exija o impossível" e veio andando até que o Jean o encontrou.

O Fabio realmente ficou em êxtase. Fomos andando a pé até a kitinete do Jean e do Vinicius bebendo uma cerveja de cada boteco que encontramos pelo caminho. Chegamos em casa oito e meia da manhã, selvagemente bêbados & feliz. Êita mundinho estranho, sô!


::: posted by ARI ALMEIDA at 12:15 PM


Mande os autores ao inferno

Sexta-feira, Junho 27, 2003 :::
 
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::: posted by ARI ALMEIDA at 3:05 PM


Mande os autores ao inferno

 
Postei no CMI três textos interessantes (pelo menos no meu ponto de vista).

O primeiro é Mundo de Pontas ("World of Ends"), um texto atualíssimos que derrba muitos tabus & mitos da Internet, o cara não tem medo de expor suas opinião polêmicas e acerta em cheio no "X" da questão

Outro é um Manual Prático para Teoria da Conspiração, um divertido passo-a-passo para iniciantes no tema. Aliás eu curto conspirologia pra caralho e tô afim de fazer um blog exclusivo sobre o assunto. O problema é que são tantos blogs "exclusivos" que quero fazer que acaba não saindo nenhum. : )

O último post no CMI é um texto muito muito muito louco que surrupiei do site do Alexandre Matias (ex-editor da Play, saiu da revista após a publicação de uma ousada matéria sobre cyberativismo). O texto é animal, lembro que me emocionei o li (boiolagens à parte).

Agora a sessão Jabá/Puxação se saco
O Holistic Conection tá com uma entrevista com o Hakim Bey e o Hilukus disse que vai deixar a matéria um tempão por lá para que o pessoal discuta & debate. Todos já pra lá galeraaaaaa.

Preparem seus corações & suas paciências
A Juventude Doente do Apartamento 204 já está com o próximo Ataque ao Cotidiano com o planejamento concluido. A coisa todas vai envolver bicicletas e aquelas tocas pretas usadas pelos zapatistas e cara de pau, é claro, muita cara de pau.

Por último descobri que eu morri. Só não sabia que ia ter que trabalhar no outro dia. Puta saco!

Um tiro na boca de todos com Muito Amor & Muito Carinho.



::: posted by ARI ALMEIDA at 12:58 PM


Mande os autores ao inferno

 
A invasão da casa para substituição das pinturas no final de semanda passado deixou todo mundo em êxtase & cabreiro. O Sergio Augusto, autor das obras que ficaram clandestinamente expostas, torçeu o tornozelo de verdade e só na segunda-feira que o negócio começou a doer mesmo. O cara teve que enfaixar o pé e só voltou ao normal na quinta. Precisa ver o coitado na segunda, gemendo de dor e reclamando de saudade da tela da "Pequena Sol", que não era sua preferida, mas era em homenagem à Laurinha, que sempre admirara.

O Vinicius estava se cagando de orgulho, nunca tinha feita nada tão radical e decididamente pirou com a parada dos Distúrbios Cotidianos & Arte Sabotagem, agora é quem mais dá idéias de novas intervenções e já queria que entrássemos em ação durante a semana mesmo, impaciente que estava.

Por mim agiríamos durante a semana mesmo, não se pode perder tempo. A questão é que o Fábio ficou traumatizado. Foi o que mais se cagou de medo e até agora não acredita que foi capaz de fazer aquilo. Toda hora fica perguntando se a próxima tarefa será ilegal ou não. O que acontece é que ele tem um primo na cadeia e morre de medo de ser preso também.

Já o Jean foi o que levou a coisa mais na esportiva. Sua única preocupação é que a Juliane desconfie de alguma coisa, pois uma vez ele deu a ela um cartão confeccionado pelo Sergio. É um risco, mas pra se fazer as coisas sempre é necessária uma dose salutar de riscos. O Jean está animado com nosso projeto. Levei um tempão para convencer o pessoal a fazer esse tipo de delinquência e fora o Fábio, parace que nosso time de Vândalos está embalado.

O mais importante é que estão todos felizes, posso te garantir, muito felizes. Já estamos nos detalhes finais do próximo ataque. Mal consigo esperar. Adrenalina causa dependência, cada vez mais me convenço disso. A namorada do Fábio mais uma vez insistiu que tirássemos fotos, mas o pessoal é unânime em negar o pedido, pois todos sabem que eu iria colocá-las aqui no blog e ninguém quer se expor por não saber onde isso tudo vai dar.

Eu também não sei onde isso tudo vai dar, desconfio que não vai acabar bem, o que é bom!


::: posted by ARI ALMEIDA at 12:30 PM


Mande os autores ao inferno

Quinta-feira, Junho 26, 2003 :::
 
A respeito da Panfletagem Sublinar & dos Distúrbios Cotidianos.

Ontem postei um texto no CMI com algumas idéias sobre como aperfeiçoarmos nossas táticas de ativismo. Quase ninguém levou a sério.

Vamos pensar um pouco mais a respeito. Imaginem uma passeata de dez mil pessoas no centro de Curitiba, na Boca Maldita, por exemplo, que é o local onde costumam se realizar esses protestos. Todos protestando contra o capitalismo numa tentativa de demonstrar para o maior numero de pessoas que as coisas estão erradas. Pense agora no efeito real que essa manifestação fará na cosciêcias das pessoas e de quantas pessoas vão se preocuopar com o fato.

Agora pense numa forma diferente de protestos, pense em termos de Distúrbio Cotidiano. Divida essas dez mil pessoas dividas em células de cinco, que o número de pessoas que costumamos usar em nossas intervenções aqui em Curitibaa. Serão duas mil céluas. Imagine agora cada uma célula dessas fazendo Disturbios e propaganda subliminar, seria perfeito. Teria um efeito milhares de vezes maior que a passeata. Cada célula seria responsável por cobrir mil pessoas numa cidade de 2 milhões de habitantes. As pessoas veriam que as coisas podem ser diferentes, que elas podem revolucinar seu cotidiano, seria a revoluçaõ do dia a dia.

Acredito de fé que esse é o caminho, claro que não é asolução perfeita ainda, mas é o caminho.


::: posted by ARI ALMEIDA at 11:31 AM


Mande os autores ao inferno

Terça-feira, Junho 24, 2003 :::
 
Temperamento Explosivo - a juventude doente fazendo a história


::: posted by ARI ALMEIDA at 2:28 PM


Mande os autores ao inferno

Segunda-feira, Junho 23, 2003 :::
 

"Se alguém disser ou escrever que a verdadeira atitude pra mudar as coisas deve ser feita no seu dia-a-dia, este nega sua própria proposição se não toma atitudes práticas para salvar o SEU próprio cotidiano e nem incita ao mesmo tempo seu leitor ou ouvinte a prová-la ser verdadeira por si próprio."
Raoul Vaneigen deturnado por Ari Almeida


::: posted by ARI ALMEIDA at 11:19 AM


Mande os autores ao inferno

 
O Crime Não Compensa
(ataque dois)

Ainda não tínhamos analizado a arte sob a ótica do Distúrbio Cotidiano até que Sergio Augusto, nosso amigo das antigas, metido a artista plástico, chegasse do interior com dezenas de colagens, frutos de seus trabalhos mais recentes. Digo que ele é metido a artista por considerar que chamar alguém de artista plástico hoje em dia equivale a xingar os parentes do sujeito até a oitava geração ascendente. Me chame de filho da puta, mas não me chame de artista. A arte escontra-se mercantilizada, afetada, eletizada, enfim, totalmente corrompida de sua original função transgressora.

Os trabalhos do Sergio estavam bons demais para serem vendidos a um advogado ou a algum empresário do ramo das seguradoras. Todos nós éramos unânimes quanto a isso, mas o consenso sumia quando pensávamos em qual destino adequado a uma autêntica obra de arte. O Vinicius queria queimá-los em praça pública por considerar que a arte autêntica deveria soar como uma heresia. E o destino dos hereges é a fogueira. O Fábio considerava que o ideal era solenemente esquece-los no Terminal de Ônibus do Boqueirão. Eu cogitava a hipótese de enviá-los pelo correio a destinatários escolhidos ao acaso na lista telefônica. Após horas e horas de papo intelectual besta foi o Jean quem veio com a idéia definitiva: o crime, a ilegalidade, o impacto de um Terrorismo Poético ou de uma Arte-Sabotagem.

Invadir uma casa e pregar os quadros na parede, substituindo os eventuais quadros que já estejam lá.

Ótimo. Perfeito. Explêndido. Só tinha um problema, uma questão crucial: nenhum de nós jamais tinham invadido uma casa e a possibilidade de sermos pegos ou dispararmos o alarme era altíssima.

- Seria se eu não tivesse uma carta na manga, não teria tido essa idéia se já não pensasse numa solução.
- E qual é? Você conhece algum ladrão?
- Não! Mas você lembra da Juliane, que eu agarrei a uns tempos atrás?
- Aquela patricinha que fazia direito na PUC?
- Exato! Faz uns quatro meses que a gente não se vê, mas... Bingo! Tenho cópias das chaves da casa dos pais delas!
- Não acredito!
- Não boto fé!!
- De onde vocês acham que eu tirei aquele candelabro de prata que a gente vendeu pra poder acampar na Serra dos Órgãos?

Genial. Um plano perfeito (e sempre fomos viciados em planos perfeitos). Analisando friamente, não era um plano difícil de levar a cabo. Era só escolher o dia e a hora certa e ter muita cara-de-pau, o que, modéstia à parte, nunca nos faltou.

O mais difícil foi convencer o cagão do Sergio a ir junto, já que consideráva-mos sua presença fundamental. Deveria ser ele o Maravilhoso Vândalo a pregar o primeiro prego na "parede da burguesia". Alguma pesquisa e alguns telefonemas depois e pronto: domingo à noite a família inteira da Jú estaria num jantar no Clube Sírio-Libanês de Curitiba.

O pior é que o sergio demorou mesmo a se convencer, ainda tava naquelas de sonhar com vernissages e resenhas em cadernos culturais.

- Sergio, isso é só um brinquedo, um exercício para depois sonhar mais alto. Se nada der certo, valeu a diversão e a sensação de fazer algo.

Ontem, domingo, lá pelas nove e meia da noite estávamos todos prontos. Mais ou menos prontos, pois nossas mãos suavam de cagaço. Podíamos muito bem ser presos. Minha mãe diria que DEVERÍAMOS ser presos. O Jean já conhecia bem o bairro e a casa, tinha namorado a Ju por uns três meses. Isso me tranquilizava um pouco. Mas não tranquilizava o Fábio. O Cara tava cagado de medo.

- Não tem alarme lá não, cara?
- Tem, só que fazia um ano que o vô da Ju não trocava a senha, o velho é meio supersticioso, se trocou agora é muito azar, tá ligado?
- Puta que o pariu!
- Não dá nada, cara, não dá nada.

O cara que falou que o crime não compensa é um puta de um mentiroso. Compensa pela adrenalina. A Juliane morava no bairro do batel e fomos de ônibus. Não conversamos nada a viagem toda, tamanho era o clima de tensão no Interbairros I. Grandes invasores! Grandes Terroristas Artíticos. Um bando de cagões, isso sim.

Descemos e contornamos a quadra até a rua paralela que daria nos fundos da casa. Escalamos um muro que dava em um estacionamento para funcionários de uma loja de sapatos que estava fechada.

- Não tem vigilante aqui?
- Cala a boca!

Escalamos a "Churrasqueira de Confraternizações" da loja de sapatos e encaramos a parte mais difícil do plano do Jean, que era a cerca eletrônica da casa da Ju.
- Esse troço dá um choque de uns 100 volts.

Um de cada vez, nos agarramos num galho de uma mangueira e pulamos, quase nos estoporando no chão do pátio. Salto mortal mesmo. Eu pulei na boa. Pulou o Fábio numa boa também. Depois o o Vinícius eo Jean. Mas o cara mais sem jeito do mundo chamado Sergio Augusto caiu todo errado e torçeu o tornozelo.

- Aaaaaaiiii!!!!!!!
- Cala a boca seu paunocuú!!!! - susurramos todos.
- Quer foder com tudo?
- Mas tá doendo, porra!!
- Te fode cara, aguenta as pontas!

O Jean estava realmente com pressa e nem nos deixou discutir.

- Vamos correndo por esse corredor que tem um trinco maneiro na janela do banheiro do quarto da Ju.
- E as chaves?
- As chaves são pra nós saírmos, é muito bandeira um bando de malucos entrar numa mansão dessas pela porta da frente.

Realmente era muito fácil. Com um simples pauzinho o Jean empurrou alguma coisa e a jenelinha do banheiro se abriu.

- Agora vocês ficam aqui que eu tenho quinze segundos pra desligar o alarme!

Ficamos. E olha que o cara demorou pra caralho. a cada segundo parecia que o alarme ia disparara. Todo mundo se olhava nervosamente. O Fábio estava prestes a sofrer um ataque cardáco. O Sérgio só gemia com seu tornozelo torçido.

- Ou torçeu o tornozelo ou quebrou mesmo.
- Cala a boca, sua bixa!

Devem ter passado uns trocentos minutos até que o Jean apareceu na janelinha do banheiro com a cara mais safada do lado de cá da Galáxia.

- Beleza galeraaa!!!! O alarme tá desligado.
- Urrúúúú!!!!!
- Calem a boca seus paunocús!!!!

A casa era de burguês mesmo. A Juliane tinha mais dois irmãos e cada um lá, com seu quarto individual, com banheiro e tudo em cima, som, TV, micro. Filhos da puta. tinha tudo: sala de leitura, sala de home teatcher. Bem que podiam fazer uma sala para peidar, uma sala para se masturbar. Deu vontade de quebrar tudo ou pelo menos roubar um monte de coisas, mas o objetivo não era esse.

Trocar os quadros que já estavam na parede era fácil: o Fábio e o Vinícius já estavam fazendo isso. Pregar novos pregos e modificar o lay out de tudo é que era o desafio. Pra isso dar certo só faltava o último ítem do plno do Jean: a empregada. O quarto da Rosicleide ficava lá nos fundos, as chances dela ouvir nossos cochichos eram baixas, mas pregar coisas nas paredes era bem mais foda.

A esperança do Jean era que, conhecendo ela do jeito que ele conhecia, ela tivesse dormindo ouvindo seu sonzinho. Ela quase sempre fazia isso. Fim de semana sozinha em casa então: era batata. Jean voltou correndo feliz:
- Massa! Ela tá ouvindo Bruno & Marroni!!

Foi então que o Sergio solenemente, com todo o senso de gradiloquêcia que a situação exigia, pregou o primeiro prego. No lado esquerdo da lareira. No lugar exato que ele cuidadosamente escolheu. Ali, no seu ponto escolhido, pregou sua obra preferida. Nós pregamos todos os outros pregos enquanto ele ficou ali, vivendo seu momento único com a obra que mais admirava.

Não demoramos muito. O sucesso do trabalho dependia da velocidade, mas posso te garantir que o Sergio viveu seus três minutos de perfeição. Por três minutos viveu sua própria arte e a arte, exaltada em sua essência, viveria ali por ele, quando todos nós fugíssemos do lugar.

O que não demorou. era o Jean quem dava as ordens.
- Toque de recolher, povooooo!!!!!

Começamos todos instintivamente correr pra janelinha do quarto da Ju quando o Jean nos lembrou: "O alarme tá desligado e eu tô com as chaves seus manés". Saída triunfal pela porta da frente. Tomando o cuidado para deixar tudo fechado, é claro. Saímos todos em silêncio com os respectivos peitos estufados.

Foi só chegar na rua que o cagaço bateu de novo, saímos correndo feito uns loucos. Corremos umas trÊs quadras e começamos a correr e rir feito uns loucos. Foi só um começar a rir que ninguém mais conseguiu parar. O Sergio até curou o tornozelo e garagalhava demencialmente. A adrenalina e o cagaço eram tantos que corremos por umas duas horas. Foi massa.

Hoje é segunda feira e estou aqui no trampo com as pernas todas doídas da correria. Ninguém consegui dormir à noite. Sono do caraaaalho e ainda não sei explicar direito o significado do que fizemos, mas me sinto feliz. Muito feliz. O cara que falou que o crime não compensa é um puta de um mentiroso.


::: posted by ARI ALMEIDA at 11:11 AM


Mande os autores ao inferno

 
Após a segunda tentativa, finalmente rolou em Curitiba o Encontro Municipal de Masturbação Coletiva. O evento foi longe daquilo que em geral se considera um sucesso, afinal reuniram-se apenas oito pessoas para a celebração do prazer. Em parte, a galera perdeu um pouco da motivação devido a ausência das Crianças Selvagens de Curitiba que a estas alturas estão no Conselho Tutelar. Este evento, como tudo que novo surge no campo da transgressão precisa ser aperfeiçoado, como por exemplo, um meio das pessoas masturbarem-se sem precisarem escrotamente enfiarem as mãos dentro das calças. Um solução foi apresentada pelo Tiba, que participou do bacanal, o cara levou um lençol cor de vinho e fez todo o trabalho dentro dele. É apenas uma idéia, mas espera-se que no próximo encontro, planejado para daqui a quinze dias, novas idéias surgem, assim como uma maior participação coletiva. Maiores detalhes em breve aqui no delinquente.blogger

Também em breve aqui, o relato de nosso passeio pela ilegalidade. Se a arte não é considerada crime, que os crimes sejam considerados arte.

::: posted by ARI ALMEIDA at 9:34 AM


Mande os autores ao inferno

Sexta-feira, Junho 20, 2003 :::
 
As Crianças Selvagens de Curitiba
A descoberta de um acampamento infantil clandestino choca as autoridades da cidade de Curitiba, ou mehor, chocaria, caso o ocorrido não houvesse sido ocultado da mídia. Assim que foi descoberto e delatado às autoridades municipais a imprensa e os curiosos foram afastados. No entando uma ocorrência desta magnitude não tem como ficar obscura e acabou sendo relatada em dois ou três programas sensasionalistas das rádios AM da cidade. A prefeitura municipal nega veemente o fato.

O local do escândalo foi no bairro do Juvevê, numa obra inacabada desde os tempos da Encol, onde uma média de 30 a 50 crianças de rua dormiam e perambulavam sob os cuidados de um estranho e depravado mendigo. De identidade desconhecida (o sujeito não tinha nenhuma documentação e afirmava não ter nome) o elemento foi detido na 34.a Delegacia do Menor e do Adolescente e aguarda julgamento. Uns poucos moradores do Juvevê que tiveram conhecimento do fato tentaram organizar um linchamento, mas foram imediatamente dispersados pela polícia.

O que chocou as autoridades que descobriram o acapamento foi que os menores abandonados praticavam masturbação e fornicação sem o menor pudor. No saguão maior do prédio abandonado tinha um tablado onde meninas de 11 e 12 anos praticavam nudismo e estranhas danças enquanto os meninos se masturbavam diante de todos. Pelo chão haviam coleções de sapos, lesmas, cartões telefônicas, brinquedos quebrados, desenhos de OVNIs feitos com giz, livros escolares e Biblias rasgados. Nas paredes várias fotos de meninos se masturbando e cruzes com galinhas crucificadas.

Quando questionadas, todas as crianças, sem exceção afirmaram que ali não era permitido transarem propriamente, apenas a masturbação e que sim, eles sarravam muito uns com outros. Todoas as crianças afirmaram também que haviam abandonado suas famílias por mal tratos e que não queriam voltar em hipótese alguma. Nenhuma delas sabia nada a respeito do mendigo depravado que havia organizado aquele bacanal.

Eu soube do fato pela pura coincidência de ter um amigo que morava a uma quadra do prédio abandonado e que costumava trocar umas idéias com o mendigo. O sujeito sabia alemão e já tinha lido sobre William Reich, Hakim Bey e Deleuze/Gatari. No ato de sua prisão ele afirmou que o que fazia não era nenhuma depravação pior do que a praticada pela publicidade atual que desperta a libido das crianças com o único objetivo de criar uma nova fatia de mercado (seres sensuais consome mais) e que nenhuma daquelas crianças se tornaria no futuro um adulto sexualmente reprimido e atormentado por pudores opressivos. Disse também que não estava indo contra nenhuma lei, pois a natureza não possui leis, apenas hábitos.

As crianças se encontram sob custódia da Prefeitura Municipal de Curitiba e estão recebendo apoio psicológico de assistentes sociais do Conselho Tutelar da Cidade.


::: posted by ARI ALMEIDA at 11:53 AM


Mande os autores ao inferno

 

Bancos - Lugares do Mal


Quarta-feira que passou sobrou pra mim fazer serviço, pois o boy da firma estava com a agenda lotadíssima e absolutamente sem tempo de correr em todas as agências.
Fila de banco é um troço demente mas revela muito a respeito da doença que na qual a humanidade está afundada. Quase ninguém gostaria de estar ali. É um dos lugares em que as pessoas mais olham para o relógio e mais demonstram gestos de impaciência. Além do quê, banco é um lugar do mal, o certo é que tivesse um padre exorcizando uma vez por semana.
Foi pensando nisso que tive mais uma excelênte/demente idéia de mais um fantástico Distúrbio Cotidiano, peguei o troco que sobrou do pagamento da conta telefônica da firma e fui num brechó que ficava maravilhosamente perto do banco. Comprei um vestido preto que com um pouco de imaginação até que lembrava uma roupa de padre, não sei o nome daqueles vestidões que os padre usam.
Depois fui na lanchonete ao lado do banco, tomei uma coca-cola e roubei a garrafa vazia. Genial, eu me amo (pelo menos eu), pedi pra gorçonete encher a garrafa com água e entrei no banco de volta.
Fui jogando umas gotinhas de água no chão, nos clientes e funcionários murmurando trechos de um painosso improvisado (não sei a porra do painosso de cabeça). A diversão durou extatos 45 segundos (45 segundos de perfeição) até que o segurança me pôs pra fora me esculhambando por completo e me ameaçando dar uma surra. Muito massa, voltei pra cativeiro/trabalho rindo sozinho no ônibus.
A grana que gastei na roupa de padre será descontada de meu mísero salário no final do mês. Que se dane, pelo menos salvei um banco e vários mortais das chamas do inferno. Bancos são um lugar do mal.
Faça um bem à humanidade doentia, exorcise um banco por dia.


::: posted by ARI ALMEIDA at 10:51 AM


Mande os autores ao inferno

Quarta-feira, Junho 18, 2003 :::
 
Em breve neste blog:
Relatório de Apresentação das Crianças Selvagens de Curitiba
você não vai botar fé nestes guris

::: posted by ARI ALMEIDA at 4:24 PM


Mande os autores ao inferno

 
Se você mora em Curitiba e região, não perca este evento libertário.
Não perca!

Neste sábado, 21 de junho na praça Zacarias o Primeiro Encontro Curitibano de Masturbação Coletiva (ECMC)com ampla divulgação de panfletos,zines e manifestos sobre a libertação total do prazer como ato artístico e político.

Todas as tendências sexuais estarão presentes: zoofilia, necrofilia, etc.
O evento contará também com a presença das Crianças Selvagens mostrando sua libido infantil.
Não esqueça, o evento é 21 de junho e começa às 09:30


::: posted by ARI ALMEIDA at 2:46 PM


Mande os autores ao inferno

 
Seja realista, exija o impossível!!!

::: posted by ARI ALMEIDA at 2:18 PM


Mande os autores ao inferno

Segunda-feira, Junho 16, 2003 :::
 
O Macarrão da mamãe é mais gostoso
(ataque um)

Foi logo depois de começar a falar em Vandalismo & Barbárie mais seriamente que um amigo apareceu com a idéia dos pique-niques em supermercados. A princípio achei pouco prática: os seguranças logo nos colocariam para fora com chutes e pontapés. Eu estava equivocado, é preciso ser esperto para subverter a ordem cotidiana. Quando se fala em pique-nique logo vem à memória aquela imagem da toalha estendida ao chão, cheia de frutas, doces e salgados.

Quem disse que pique-niques tem de ser assim? Essa foi a primeira pergunta que me ocorreu. Depois foi o seguinte: o que, realmente é um lugar público? Supermercados são lugares públicos? É proibido comer dentro de uma supermercado? Pra mim, estas são perguntas inspiradoras. Por exemplo, é perfeitamente normal sentar em banco de praça, tirar da bolsa um sanduíche e comê-lo em paz. Mas fazer o mesmo em uma loja de departamentos pode ser diferente.

De repente lá estava eu imaginando estas coisas acontecerem. De repente lá estava eu entrando em contado com amigos Delinquentes & Doentes e pronto: uma inconsequente ação dos Novos Bárbaros estava sendo arquitetada, descobrimos que sim, podámos criar situações que subvertessem a rotina cotidiana e turbinasse a realidade banal com um pouco mais de arte. O material utilizado foi o mais básico e prosaico possível: marmitas de alumínio e a sobra da comida do fim de semana. O mundo moderno e seu tabus ocultos permite ótimas diversões pra quem curte criar situações.

Domingo à tarde já estávamos com tudo pronto: quarto marmitas cheias macarronada. O alvo: a C&A na segunda à tardinha, assim que todos tivessem abandonado seus trabalhos forçados. Faríamos uma operação sicronizada. Cada um levaria uma marmita e estaria com um relógio marcando a hora corretamente. Cada um abriria sua marmita em um setor diferente da loja com uma diferença estratégica de cinco minutos, o suficiente pra deixar os funcionários doidos em sua correria.

Seis e meia eu sento no setor de calçados, logo depois de dizer à atendente que estava apenas olhando os modelos e puxo minha marmita de macarrão. A funcionária fica visivelmente constrangida sem saber se fala algo ou não. De canto de olho vejo que ela se dirige ao segurança e pergunta algo. O segurança fala ao walk-talk e cochixa ao ouvido. Foi mais rápido do que eu esperava.

- Moço, eu sinto muito, mas aqui não é o lugar adequado pra fazer uma refeição.
- Porquê?
- Sabe como é, tem os outros clientes e pode ser que alguém não se sinta muito à vontade.
- Sentir-se muito à vontade? Quem não está se sentindo muito à vontade aqui sou eu.
- Senhor, procure entender...
- Moça, preste bem atenção, se o filho daquela mulher de vestido vermelho que está experimentando as sandalhas, quiser comer as batatinhas fritas que a mãe dele tem na bolsa, não vai poder?
- Mas senhor, é diferente...
- O que é diferente? Pelo que me consta aquelas batinhas tem muito mais cancerígenos que esse belo macarrão feito com todo amor e carinho por minha mãe.

A discussão estava se prolongando por mais tempo que a pobre funcionária planejara e o segurança logo se deu por conta disso e veio em seu auxílio.
- Algum problema?

Nem deixei a moça responder.
- Claro que estamos com um problema, um problemão! Parece que o filho daquela mulher ali de vermelho não está podendo comer seus salgadinhos.
- Não é isso, o problema não é com o menino... (a funcionaria começou a ficar realmente nervosa)... esse senhor aqui não quer entender que isso aqui é uma loja de departamentos e não um restaurante!
- É claro que isso não é um restaurante, não comprei essa macarronada aqui, não roubei ela de lugar algum e não vejo porque não comê-la.

O segurança era um daqueles típicos grandalhões seguros de si e sem medo algum que as discussões descambem pra violência.
- É o seguinte seu panaca, acho bom você levantar daí meio logo antes que as coisas se compliquem de verdade pro teu lado.
- As coisas não podem se complicar muito, comer macarronada é uma tarefa extremamente simples.
- Rapaz, eu não tô aqui pra conversa fiada não, tenho mais o que fazer.

Nisso começou a me puxar violentamente pelo cangote; pelos meus cálculos o Jean já estaria abrindo sua marmita no setor das calçinhas e sutiãs. Hora de chamar pelo gerente, sem esquecer da salutar dose de escândalos, para que não só o gerente deixe de vir e ainda leve umas porradas na saída de serviço ou no depósito.

- Ô seu macacão, eu quero falar com o gerente!
- Cala a boca rapaz!
- Calo a boca o cacete!! (eu já estava começando a gritar) Compro nessa loja à anos, nunca atrasei um pagamento e exijo a presença do gerente!!!

Nisso alguém chamou ele pelo rádio e me tranquilizei sabendo que o Jean tinha se manifestado. O grandalhão me soltou pra falar no rádio e pude me recompôr. O gerente já estava vindo. Finalmente eu veria como se saem os gerentes quando os problemas saem da rotina.

- Com licença, posso saber o que está acontecendo aqui?

Nessas horas um bom arruaçeiro deve saber se comportar dignamente e utilizar aquela cartinha bem educada que estava guardada na manga.

- Senhor, está ocorrendo um grande equívoco.

Nisso uma pequena multidão de curiosos já começava a se formar ao nosso redor.

- Essa funcionária, que me atendeu muito bem, diga-se de passagem, confundiu tudo e não permitiu que eu desse uma leve enganada no estômago antes que escolhesse um par de tênis, estava realmente me interressando por aquele Nike de 349 Reais.
- Mas senhor, tudo bem que você esteja um pouco faminto, nesse caso era só comunicar algum de nossos funcionários que prontamente conseguiríamos um lugar mais resevado para fazer sua refeição, o senhor concorda?
- Não! Não concordo não! Quer dizer que o menino vai ter de sair da loja pra comer seu salgadinho?
- Creio que o senhor não está entendendo.
- Do meu lado eu creio que alguma coisa muito errada está acontecendo aqui, este não é um ambiente em que eu, como cliente em potencial, não deveria estar me sentindo em casa?
- Mas senhor...

E aí começou toda uma ladainha gerencial cheia de palavras bem colocadas & chavões de bom atendimento & aquele velho papo furado de que "o direito de um acaba onde começa o direito de outro". O Jean devia estar se saindo bem, pois uma funcionária veio falar ao ouvido do gerente e os seguranças (agora eram três) desciam apressadamente as escadas em direção ao setor de moda masculina. Era o Vinicius e olha que o Vinicius é muito mais sarcástico e panfletário que eu.

O gerente gaguejou pela primeira vez, pediu pra funcionária que tinha me atendido que ficasse um pouco comigo e pediu licença prometendo voltar em poucos minutos. A menina ficou comigo sem dizer uma palavra, totalmente indignada pela situação. E eu contendo a vontade de rir; bem que alguém podia chamar a polícia para as coisas começarem a realmente ficarem grandes. Grande dia! Grande dia!

O combinado era que assim que a quarta marmita fosse aberta pelo Fábio no térreo, quinze pra sete, todos fossem para lá e daríamos abraços e beijos em todos. Foi um plano perfeito, diga-se de passagem, devíamos ter filmado a coisa toda, mas tudo bem, essas coisas vão ficar fotograficamente registradas em nossas memórias para o resto de nossas vidas.

O gerente estava demorando e a funcionária estava muito inquieta.

- Querida, pode dar uma volta pra relaxar que não tem perigo de eu voltar a comer, quer um pouco?
- Não, obrigada, respondeu ela, com a melhor cara de nojo que conseguira.
- De nada, baby.

Nisso bateu as sete e quinze e levantei-me de onde estava sentado. A funcionária deu um salto assustada de onde estava e logo voltou a sentar-se, reconhecendo o ridículo da situação. Triunfantemente dirigo-me ao térreo onde o Fábio estaria sem enxergar um segurança sequer, deviam estar todos ocupados. Encontrei a galera toda reunida com o Vinicius ainda discutindo com o gerente sobre o conceito de lugar públicos e privados e uma considerável multidão em volta. Eu tinha panfletos no bolso. Gosto de carregar certos panfletos no bolso. Jamais esquecerei a cara de tacho que o gerente fez quando o Vinícius fez uma cara de bravo, falou que não discutiria mais e catou nossas marmitas e jogou no lixo mais próximo.

- Realmente vocês tem razão! Este é um sagrado lugar de comprar onde não se deve nunca, jamais, cometer a heresia de não gastar. Senhor gerente! Estes três delinquetes juvenis são meus irmãos e o senhor pode ter ser certeza que contarei tudo, tim-tim por tim-tim para nossa mãe e esses três marginaizinhos ficarão pelo menos um mês sem comer macarrão.


Então começamos a nos dirigir para a saída da dando tchaus e beijinhos em todos os curiosos que estavam com algum sorriso no rosto. Disturbios Cotidianos são aquilo que eu considero mais divertido ultimamente. Antes de sair, virei-me para trás e joguei todos os panfletos com a frase "Seja realista, exija o impossível" que tinha no bolso, falando em alto e bom tom:

- Um forte abraço para todos vocês!!!!


::: posted by ARI ALMEIDA at 2:15 PM


Mande os autores ao inferno

Sexta-feira, Junho 13, 2003 :::
 
Um trecho de uma conversa no ônibus
Certa vez um amigo me disse que para escrever era preciso ter tempo. Imdiatamente soltei a pergunta: - Mas que porra afinal é "ter" tempo? Tempo livre, respondeu, tempo livre! Falou isso sem sentir um pingo de remorso. Nosso tempo original, mata virgem, campo aberto, foi medido, demarcado e repartido em fatias devidadente separadas por arame farpado. Pular a cerca pode custar o emprego, a esposa ou a diversão. Não bastasse o espaço, encontrou-se um jeito de fragmentar o tempo.
Falei ao amigo:
---- Minha criatividade não reconhece fronteiras! Para realizar-se, minha criatividade deve ser irremediavelmente indigente, deve abraçar a mendicância.

::: posted by ARI ALMEIDA at 12:45 PM


Mande os autores ao inferno

 

Assim não dá, assim não dá



Não dá pra jogar com sinseridade um jogo desses. A inconsequência é uma questão de responsabilidade pessoal. A consequência da consciência da escravidão ao tempo estuprado gera a inconsequência.

Sou o terrível invasor bárbaro, rindo, babando e causando espanto aos inocentes seres consequentes. Rimbaud! Guarde uma cerveja para mim!!

O estupro do tempo me leva à Inconsequência.
O estupro do espaço me leva a Delinquência.
O estupro da linguagem me leva à Demência.

"ele ia andando pela rua meio apressado
ele sabia que estava sendo controlado
chegou pra mim e pediu um cigarro
eu disse eu dou, mas fume aqui desse lado
dois homens fumando longe deixa tudo muito separado"


::: posted by ARI ALMEIDA at 12:38 PM


Mande os autores ao inferno

 

Sejamos inconsequentes.



Nosso tempo foi estuprado. Seríssimas seqüelas podem ser verificadas. Nosso tempo está impotente e inseguro. Para termos a impressão de dominá-lo temos que fragmentá-lo, esquadrinha-lo e utilizá-lo racinalmente tendo em vista sua mais alta eficiência. O atual estado clínico do tempo nos induz a sermos criaturas consequentes.
Nosso tempo tem fronteiras. Muito rígidas por sinal. A ousadia de ultrapassar essas fronteiras pode trazer sérias consequencias para os pobres seres consequentes. Qualquer um que queira viver seu tempo sem fronteiras, sem limitações, estará condenado sob o argumento duvidoso da produtividade.
O tempo é medido e calculado e nossa vida dura ¿tantos¿ anos. As infinitas possibilidades de uma vida, a estupenda magnitude desta ocorrência é limitada a ¿tantos¿ anos e o que se produziu em duvidosíssimos termos materiais.
O tempo nospreocupa. O tempo reclama e grita em nossos ouvidos. Ele está preso e está sendo violentado. O tempo não urge: o tempo urra e se debate na jaula.
O tempo acuado esmaga e estrassalha os pobre seres consequentes.
Vamos acordar e reagir: vamos ser inconsequentes (e ainda assim e cada vez mais, amar).


::: posted by ARI ALMEIDA at 12:30 PM


Mande os autores ao inferno

Quinta-feira, Junho 12, 2003 :::
 


::: posted by ARI ALMEIDA at 1:39 PM


Mande os autores ao inferno

 
Aqui em Curitiba tem uns ônibus que tem bancos que ficam de frente uns para os outros e o usuário fica de costas pra janela. As pessoas são praticamente obrigadas a ficaram olhando-se umas para as outras. Adoro esses ônibus. Sentei com Marcelo em um desses bancos e imediatamente começei a encarar a velhinha cheia de pacotes do outro lado do corredor. Assim que notou que estava sendo observada disfarçou e olhou pro lado. Continuei encarando. Mais uns segundos e ela começou a se sentir inquieta pois eu não tirava os olhos da nobre figura. Mexia no cabelo, nos óculos, nas sacolas, conferia se não tinha nenhuma chamada não atendida no celular, enfim, estava visivelmente incomodada com a situação, tanto que nem me olhava diretamente pra conferir se eu ainda estava encarando, apenas de canto de olho, com a visão periférica. Adoro fazer isso! Porque será que as pessoas odeiam tanto serem observadas? Continuei encarando só que com uma expressão cada vez mais safada, sabe, aquele sorrisinho de canto de boca e aquelas leves mordidinhas nos lábios. A senhora começou a bufar e ficar vermelha, realmente eu estava deixando a coitada nervosa. O Marcelo se ligou e pediu pra mim para, mandei à merda e continuou. Não demorou muito e a velhinha começou a chorar, a moça que estava do lado perguntou se estava não sentindo algo e ela mentiu que não. Claro que sentia, se não sentisse não choraria. Provavelmente ela tinha seus motivos, não fiz nada de mais além de ser umja catalisador, talvez. Levantou-se e desceu no próximo ponto. Muito divertido, damos boas garagalhadas diante dos olhares desaprovadores do resto dos passageiros.

::: posted by ARI ALMEIDA at 11:01 AM


Mande os autores ao inferno

 
Bom dia pobres diabos!!!

::: posted by ARI ALMEIDA at 10:53 AM


Mande os autores ao inferno

 
Começo essa porra de diário para tornar público o meu tédio com a civilização ocidental.

Não esperem de mim nenhuma crítica construtiva, a destruição sempre me seduziu melhor.

A civilização está doente e eu sou a favor da eutanásia. Em algum ponto obscuro da história (coisa que não me preocupo em descobrir) tomou-se a direção errada e a maioneze desandou. Consumiram mundos e fundos e querem que minha geração pague a conta. Nós não vamos pagar nada, é tudo FREE! Meu nome é Ari almeida e isso não significa porra nenhuma. Nosso planeta já foi devidamente estuprado e carrega seríssimas sequelas físicas e psicológica. Qualquer um que analise seu quadro clínico com imparcialidade e honestidade admitirá que o diagnóstico é grave. O caso da civilização é gritantemente mais grave: além de fisicamente em plena decadência devido a sucessivas intoxicações alimentares, está psicologicamente arruinada com a loucura institucionalisada no seu cotidiano.



Creio que o caso não tem solução. Quando uma casa está danificada demais é muito mais viável destruí-la e construir outra.

Não sou um bom construtor, mas sei manejar muito bem uma picareta. Conheço bons explosivos.

Aida existe compaixão em meu coração: compaixão para comigo. Afinal, se não conseguir resolver o meu cotiano, de que adiantaria resolver qualquer outra coisa nesse mundo?

::: posted by ARI ALMEIDA at 10:16 AM


Mande os autores ao inferno

 
O começo do fim: tirem as crianças da sala!!!!!!!!!

::: posted by ARI ALMEIDA at 9:54 AM




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