Mande os autores ao inferno
Sexta-feira, Agosto 29, 2003 :::
Ali Babá e as Dez Mil Baratas
(ataque dezoito)
Se você odeia shopping center, ir ao cinema tornou-se um programa incômodo. Se você não dispõe de muita grana, ir ao cinema tornou-se um programa caro. Todos os cinemas do centro da cidade fecharam, Curitiba ainda tem alguns, mas em cidades como São Paulo eles simplesmente desapareceram. Restaram apenas os pornôs, que provam seu valor de contestação de tabus sobrevivendo como marginais.
Essa introdução foi pra contar de um ataque que a horas já tínhamos planejado. Desde o dia em que Jean surpreendeu a todos deixando uma caixa de baratas no salão de beleza, queríamos repensar esta idéia.
- Cara! Soltar uma porrada de baratas num shopping center num dia que tiver lotado é do caralho!
- Pode crer!
Jean tinha conseguido todas aquelas baratas naquela vez porque tinha ajudado na faxina do depósito onde trampa. Na hora teve a idéia brilhante e catou todas que conseguiu, respondendo que era comida pra iguana da namorada a todos que perguntavam intrigados porque ele estava juntando tantas baratas.
Conseguir baratas na quantidade suficiente revelou ser o primeiro grande problema. Como soltá-las no shopping sem ser flagrado pelas câmeras de segurança foi o segundo. Jean estava perigosamente otimista.
- A gente pode ir na Shopping Curitiba, que tem aqueles canteiros com flores que o povo fica sentado e soltar as baratinhas no meio das flores.
- É, até dá, mas analisando as imagens das câmeras os caras vão se ligar em quem fez.
- Tens razão...
Fui eu quem teve a idéia do cinema, resolvendo antes o segundo problema.
- Podemos soltar as baratas dentro de um cinema.
- Dentro de um cinema?
- Porra Ari, aí já é terrorismo puro e simples.
- Nada véio, a gente pode deixar umas mensagens pra galera ver quando acenderem as luzes.
- Que mensagens?
- Vocês fecharam os cinemas do centro da cidade! Vocês me obrigam a vir aqui! voces racham comigo o caríssimo aluguel e por aí vai.
- Não é uma má idéia...
A gurizada começou a se empolgar com a idéia. Fábio foi o primeiro a se animar.
- E é limpo, no escuro ninguém vê nada, todos concentrados no filme.
- Rapaz, - Vinícius começou a rir. - Imagine só, quando se ligarem será tarde demais, as baratas já invadiram toda a sala de cinema!
- Genial!
- Mas tem que ter barata pra caralho.
Restou então resolver o primeiro grande problema. Como conseguir baratas pra caralho? Pensamos em mil e uma soluções, cada uma mais estrambólica e furada que a outra.
- Se formos na lanchonete ali da esquina acho que conseguimos umas quinhentas.
- Vai tomar no teu cú, fala sério.
A solução acabou vindo através de um e-mail do Antonio Silvino, do grupo dos cangaceiros de São Paulo que tinham feito um ataque sincronizado com a gente. Contei pros piás.
- Ele falou que existe uma lenda de que se deixarmos umas baratas dentro de uma caixa de papelão lacrada, após alguns dias eleas se multiplicam e enchem a caixa.
- Sério?
- Não sei, a gente tinha que checar.
Vinícius lembrou então de uma mina que faz biologia na federal. Procurou o número na agenda e saiu pra ligar de um orelhão, pois o telefone da kit está cortado de novo.
Voltou em estado de graça.
- A mina falou que dá certo! Olha como ela explicou: se você colocar dez baratas na caixa hoje, ainda hoje elas colocarão ovinhos. No segundo dia estes ovinhos já terão se transformado em dezenas de baratinhas. No terceiro dia essas baratinhas já estarão botando seus próprios ovinhos. Sacaram?
- Que massa, lôco!!!
- Em dez dias já vai ter mais de mil baratas. Se fizermos dez caixas teremos dez mil baratas!
A idéia teve o efeito de uma bomba entre nós. Cada um abraçou com vontade sua tarefa. enquanto Sérgio, Jean e Fábio ficaram montando as cixas, fui com Vinícius e Marilia no lixão catar baratas. foi divertida pra caralho nossa aventura no lixão. Munidos de sacos plásticos e luvas de borracha reviramos tudo em busca das bichinhas.
Acabamos achando e levando pra casa um monte de coisas legais. E acabamos conhecendo um monte de catadores de lixo legais também. Ser a escória e viver de achar coisas faz deles pessoas com uma visão de mundo maravilhosa. O Palestinos do Cotidiano que o Sérgio falou. Voltamos pra casa impressionados e com umas trezentas baratas.
As caixas que os guris montaram ficaram fora de série. Sérgio apresentou o resultado orgulhoso.
- Cada uma delas é uma cidadela.
Montaram só sete.
- São as Sete Cidades .
- Olha o que eu fiz. - Fábio apontou pra uns buracos na lateral das caixas. - Aqui é a entrada de serviço, você puxa esse cordãozinho e tem acesso a um buraco pra jogarmos comida pras nossas procriadoras.
Jean mostrou um papel com a "planta" das cidades, colocaram pranchas de papelão e assim construíram vários ambientes. A maior viagem. distribuímos as baratas nas caixas e nos cobrimos de toda a paciência do mundo pra esperar pelo resultado.
Depois de uma semana já dava pra ver que a parada estava funcionando. Sacudindo as cidadelas dava pra notar que já tinha barata pra cacete lá dentro. Nessa semana chegamos à conclusão que já tinha quantidade suficiente pra montarmos nossas "bombas de baratas", marcamos pra quinta-feira à noite a ação. Escrevemos vários panfletos pra jogar no chão e colar nas poltronas.
Entramos no cinema todos separados carregando mochilas nas costas como se estivéssemos voltando da aula. Só Vini e Marília que entraram juntos como namorados.
Estávamos ansiosos, todos com um sorrisinho no rosto e meio que olhando pros lados e analisando a laje das vítimas. Coitados.
O combinado era que na hora em que apagassem as luzes sincronizássemos nossos relógios. Após meia hora de filme soltaríamos nossas bombas. Acabamos adquirindo uma verdadeira paixão por aqueles bichos, eram como se fossem nossas tão estimadas filhinhas.
Aguardamos impacientes a primeira meia hora, nem conseguimos prestar atenção no filme. Só pensávamos em soltar as bombas, soltar as bombas, soltar as bombas. Quando venceu o prazo abri minha mochila, tirei a bomba (as baratas estavam em sacos plásticos, era só furá-los com o dedo para acionar), coloquei cuidadosamente no chão e abri um salgadinho pra disfarçar. Levantei e pedi licença fingindo estar indo ao banheiro e fui me encontrar com o resto da turma pra aguardarmos o desfecho. Fui ao banheiro e encontrei Vini e Marília, os dois se espremendo de vontade de rir.
Quando todos chegaram confirmando que tinham soltado as bombas voltamos ao cinema. No ambiente escuro o clima era de total expectativa entre nós. Meu coração acelerava cada vez mais a cada minuto que se arrastava pra passar.
Foram dois longos minutos até que ouvíssemos o primeiro gritinho de susto vindo lá da frente.
- Tem barata aqui!
- O que foi? Onde?
- Aqui, aqui, aqui!!
- Pssssiu!!!
Era um casal de namorados. O cara tava tentando disfarçar e acalmar a mina. ficaram murmurando não sei o que baixinho até que deram um outro grito no outro lado da sala.
Assistíamos a tudo extasiados.
- Tem uma barata na minha perna!!
O casal de antes, ao ouvir isso, acho que se ligou que alguma coisa muito estanha estava aconteceu e saiu fora em direção à saída. Mais pessoas começaram a ficar desconfiada. Vinícius se partia de dar risada. Mais gritos.
- Isso é um absurdo!
- Onde está a higiene disso aqui?
Algumas pessoas começaram a sair e se dirigir à bilheteria exigindo seu dinheiro de volta. Liberou umas poltronas e sentamos todos juntos, longe de onde tínhamos deixado as baratas, é claro, pra curtir a cena e dar risadas. O bafafá já era grande dentro da sala e podíamos rir bastante sem despertar suspeitas.
Gritos de "ai que nojo" para todos os lados, pessoas se dirigindo à saída, o bicho estava pegando quando acenderam as luzes. Os que saíram antes não viram nada, mas quem esperou as luzes acenderem viu nossos panfletos, tínhamos deixado um monte esparramado pelos corredores.
A mensagem, afinal de contas, foi passada. A direção do shopping foi rápida no gatinho pra evitar o escândalo. não sei qual foi o genial gerente a ter a idéia, mas devolveram rapidinho dinheiro pro povo e ainda deram mais um ingresso de brinde.
Lutar contra o capitalismo é mesmo foda, os caras são muito ensaboados e o dinheiro compra tudo. De nossa parte recusamos o presente e saímos fora realizados. Orgulhosos de nossas filhinhas. Orgulhosos de nossa prole.
Saímos do Shopping com a adrenalina a mil, foi um de nossos ataques mais arriscado, diferentemente de invadir casas estávamos expostos a uma multidão de pessoas e sem dúvidas seríamos presos se fossemos pegos. Fomos até um botequinho nas proximidades e tomamos A cervejada pra comerar. Menos Sérgio, o Vegan, que não bebe.
O São Gulik da religião dos Discordianos é uma barata. Dedicamos esse nosso ataque a ele.
...........................
PS1.: Este era pra ser mais um ataque sincronizado com o grupo dos Cangaçeiros de São Paulo. Só que hoje Antonio Silvino me mandou um e-mail com o seguinte título: Trajédia! Ele também tinha feito ninhos pras bartatas procriaram. Ao chegar em casa ontem descobriu que o pior acontecera. A umidade do chão amoleceu o papelão é as bartas fizeram um furinho e figiram todas. Tinha barata pra caraaaaaaaaaaaaaaaalho dentro do apê dele e não ficou nenhuma na caixa.
Foda isso, muito foda.
Não dá nda, meu amigo antonio Silvino, na próxima rola!!!!
PS2.: Não revisei o texto, quaisquer erros de digitação ou de português, podem me ofender.
PS3.:Entrem na lista de discussão dos delinquentes. Vocês não vão se arrepender ou vão se arrepender, depende do grau da doença que se abate sobre vós.
Abraços do Ari, o delinquente.
::: posted by ARI ALMEIDA at 3:34 PM
Mande os autores ao inferno
Prezado Delinquente Juvenil que está lendo este post, tenho o imenso prazer de apresentá-los o endereço da lista de discussão especializada em Delinquencia, Demencia & Inconsequencia (DDI).
Clique no link ou digite o seguinte endereço em seu browser:
http://br.groups.yahoo.com/group/delinquentes/
e saiba que não estás sozinho neste Universo sem fim.
ATENÇÃO GALERAAAA!!!! Rolou ontem nosso mais novo ataque, não consegui dormir direiro por causa da adrena na veia, logo, estou com um sono dos diabos. Mas ainda hoje quero ver se posto o relato. Alguém tem pó de guaraná aí, café não tá mais fazendo efeito.
Ari
::: posted by ARI ALMEIDA at 10:08 AM
Mande os autores ao inferno
Quarta-feira, Agosto 27, 2003 :::
Torçam pela gente que hoje faremos um arriscadíssimo ataque. Um ataque que faz horas que estamos planejando. Amanhã, se tudo correr bem eu posto aqui a narração (tomara, tomara, tomara...)
E também amanhã, TALVEZ role o Segundo Flash Mob de Curitiba, esse não precisa torcer, esse só depende do pessoal da lista de discussão entrar num acordo.
Té manhana!!!
Ari
Aqui em baixo vou colar um texto que publiquei no CMI sobre os caras que "hackear" aquela Flash Mob de São Paulo em artistas bestas tentaram se promover.
Eis o texto em questão:
Um Flash Mob dentro de um Flash Mob
Por Ari Almeida 14/08/2003 às 09:37
E não é que o Swing & a Malandragem brasileira deram um show de bola nos aproveitadores de uma idéia gringa metida a vanguarda?
Um Flash Mob dentro de um Flash Mob. O cúmulo da sacanagem!!
Analisem o que o correu:
Um bando de artistas sedentos por quinze minutos de fama.
A imprensa atrás de um movimento novo, niilista e inofensivo.
Todos avisados, tudo pronto pra um espetáculo armado.
Então surge um bando de Delinqüentes com cartazes do tipo:
¿Eu já sabia!¿
¿Contra burguês, baixe MP3¿
Um bando de Moleques Abusados desafinando o coro dos contentes. Vandalizando o circo alheio.
Quem foram eles, que conseguiram chamar mais atenção que os ¿organizadores¿ do evento? Não interessa, não vem ao caso, como não interessa e nem vem ao caso que são de verdade os Delinqüentes de Curitiba.
Eles foram & são autenticamente aquilo que chamamos de Vírus. Fizeram um autêntico ato de sabotagem cultural.
O que era pra ser uma manifestação non sense e vazia de propósitos foi invadida por impertinentes em guerra com um inimigo invisível.
Quem diria que seria por estas bandas tropicais e abandonadas que surgiriam soluções inteligentes pra cuspirmos na cara do status quo?
Um tiro na boca desses Delinqüentes que ¿salvaram¿ o flash mob brasileiro com Muito Amor & Muito Carinho
Ari Almeida
O link pra matéria original é este
::: posted by ARI ALMEIDA at 9:39 AM
Mande os autores ao inferno
Terça-feira, Agosto 26, 2003 :::
Uma Análise dos Flash Mob´s
Ao ver pseudoartistas tirando proveito do movimento ou as performances totalmente sem sentido que os mober´s fazem, muitos logo se adiantam e criticam impiedosamente o movimento.
Tudo bem que exista um monte de coisas contestáveis nesse movimento, só que devemos sempre lembrar que o papel de atacar e criticar tal movimento a gente tem de deixar para a grande mídia e a política, que certamente vão querer bem longe uma juventude mais pensante e organizada.
Acredito que existem pontos altamente positivos nessas movimentações.
Um deles é o desenvolvimento de uma capacidade de rápida articulação de pessoas anonimamente, não foi o caso de São Paulo, mas pode ser o caso dos próximos, que espero que aconteçam.
Outro ponto positivo é o fato de mobilizarem as pessoas a fazerem algo, saírem da frente de seus computadores e participarem ativamente de uma intervenção, atualmente sem sentido nenhum, mas repito, futuramente pode ser diferente. Pode ser que a moda passe e a vontade de participar seja direcionada a coisas mais importantes. Essa possibilidade é real, perigosamente real.
O que ocorreu com os caras que fizeram um Flash Mob dentro do Flash Mob em São Paulo já é um sinal de que algo que nasce igênuo e inofensivo pode adquirir outros tons, outras finalidades.
Antes de criticar, pensem nas possibilidades abertas por esse fenômeno. Como farão os militares, os políticos, os empresários, a polícia, se a própria tecnologia que eles alimentaram até hoje e estimularam seu consumo, vir a servir de ferramenta para agrupar jovens em minutos, através justamente da Internet e celular? Já pensou se a idéia se tornar grande e enquanto policiais reprimem um Flash Mob engajado aqui, outro estoura na quadra debaixo?
Nossos Distúrbio Cotidianos,que praticamos aqui em Curitiba, sozinhos, realmente não passam de uma excentricidade de jovens delinqüentes, já como movimento generalizado, pode vir a ser uma poderosa tática de subversão. Estamos entrando numa era de fascismo eletrônico e ao nos fragmentarmos desse jeito, seremos um sério inimigo do sistema estabelecido.
Essa pode não ser a mais perfeita análise do fenômeno e de suas possibilidades potenciais, mas é uma iniciativa a partir da tolerância com o novo, pois coisas facilmente compreensíveis e rotuláveis é algo do século XX, e hoje quem não está confuso ou está mal informado ou está sendo desonesto consigo mesmo.
::: posted by ARI ALMEIDA at 1:02 PM
Mande os autores ao inferno
Segunda-feira, Agosto 25, 2003 :::
Aí pessoal! Preparei um índice dos ataques em ordem cronológica, que ficará sempre abaixo do ataque mais recente. É pra facilitar a navegação, já que este Antro de Delinquencia está ficando quilométrico.
::: posted by ARI ALMEIDA at 4:11 PM
Mande os autores ao inferno
Aqui está, nosso mais novo ato de Terrorismo Poético ou Arte Sabotagem. Vou ver se consigo atualizar o índice hoje, pra facilitar a navegação no blog. E também apagar umas imagens pra não demorar tanto pra carregar. Espero que gostem da nossa intervenção, pois confesso que fiquei muito orgulhoso dela.
Salte Fora e Puxe a Descarga
(ataque dezessete)
Nesse século que se inicia estamos vivendo uma época de profunda confusão. Quem não está confuso ou está mal informado ou está sendo desonesto consigo mesmo. Ninguém sabe o que está acontecendo e ninguém sabe pra onde estamos indo.
Ficamos muito impressionados com o manifesto que Jean escreveu sobre o bebê que não queria nascer. Ficou um enorme sentimento de desesperança no ar. Não dá vontade de correr atrás das coisas quando se sabe que é impossível alcançá-las.
Era esse o clima na kitnete dos Delinqüentes na sexta-feira à noite, depois do aborto no shopping center. Cada um acabou fazendo um breve perfil de sua condição neste mundo de bosta.
Saquem nosso perfil.
Vinícius estuda e batalha pra passar num vestibular enquanto faz bicos como músico. Jean trabalha de moto num serviço de tele-entrega e todo começo de ano volta a estudar e todo meio de ano desiste de estudar. Eu, trampo num escritoriozinho sem futuro. Fábio mora com os velhos, tenta sair de casa e vive fazendo planos de vida mirabolantes sem nunca levar nenhum a sério e Sérgio é uma dessas almas de artista, que nunca se encaixam na normalidade da sociedade.
Enfim, temos tudo pra dar errado, somos um caco de vidro esquecido na areia da praia, esperando alguém pisar em cima.
- Ás vezes dá vontade desaparecer. - Vinícius, o pessimista.
- Esqueça o futuro, te contenta com o teu presente e te consola com o teu passado.
- Besta isso.
Jean foi o único que não ficou pessimista depois do ataque.
- O canal não é se contentar com o presente e sim potencializá-lo, fazê-lo valer a pena.
Sérgio então se inspirou.
- Temos que valorizar os instantes.
A noite prosseguiu com mais uma daquelas nossas longas discussões filosóficas que não muito raro, dão em merda. Merda no sentido de que sempre acabam surgindo inspirações pra delinqüências diversas.
Sérgio queria empreender mais uma obra de Terrorismo Poético.
- Queria criar alguma coisa que simbolizasse essa vontade de sumir, esse desejo de desaparecimento.
Fábio, ainda com o orgulho abalado pelo ataque dos travecos, queria viver emoções mais fortes.
- Tô com saudade da ilegalidade, de cutucar a cobra com vara curta.
- Você é lóki.
- Podíamos invadir uma casa. - Interrompeu Sérgio.
- Pra fazer o quê?
- Uma performance de desaparecimento.
- Como assim?
- Se liguem na idéia que eu tive. Altos atos de Terrorismo Poético, só não sei como invadir a casa, isso não é comigo, mas a idéia eu tenho.
- Então fala que estamos curiosos.
- Entramos na casa, vamos até o banheiro e no lado do vaso deixamos todas as roupas de alguém. Como se o cara tivesse se despido ali dentro. Tudo; sapato, meia, cueca, tudo. E no vaso a gente deixa uma meia, simbolizando que o dono das roupas sumiu pela descarga. E com as roupas, talvez no bolso, uma carta de despedida.
- Que louco isso... - Vini curtiu.
- Muito louco mesmo!
Cada um então bolou um jeito de aperfeiçoar a idéia. Cada um mexeu na panela acrescentando seu tempero particular. Concordamos todos que podia ser uma casa da periferia, que a burguesia não merece tão poderosa obra de arte. Pelo menos em uma família, plantaríamos uma sementinha.
Jean e Fábio se encarregaram dos planos de invasão. Deram uma banda de moto pela cidade e escolheram um bairro. Deram uma banda, diga-se de passagem, em pleno horário de serviço do Jean. Fizeram aquilo que costumamos chamar de Subversão de Baixa Intensidade, SBI (Vini costuma dizer que andar sujo em ambientes chiques, também é SBI).
Sérgio, Vinícius e eu nos encarregamos da obra de arte em si. Enquanto Sérgio se internou sozinho na kit pra escrever os textos, eu e Fabio fomos até a casa de Társis, que já é quase um delinqüente, scanear imagens e preparar os documentos do desaparecido.
Tive uma idéia do mal. O cara iria se chamar Jesus Cristo e em todos os documentos colocamos uma imagem padrão do "filho do homem" como fotografia. Fizemos tudo direitinho. Data de nascimento: 25 de Dezembro de 0000. Filiação: Maria de Nazaré (não sei se esse é o sobrenome correto, mas ficou esse mesmo) e José/Deus (a parceria com deus dispensa sobrenomes). Órgão Expedidor: SSP-Belém.
As roupas cada um doou alguma coisa e no sábado à tardinha já estávamos com tudo pronto. Os guris escolheram o bairro Cidade industrial e três casas como alvo.
- Pelo menos numa das três a gente tem que conseguir entrar.
- Escolhemos umas que tem moral de a gente entrar pelos fundos.
- E aparentemente não possuem cachorros.
Os dois, principalmente Fábio, estão ficando especialistas em campanar bairros. Sábado à meia noite juntamos nossos apetrechos, pegamos o biarticulado Santa Cândida-Capão Raso e descemos no terminal Capão Raso, depois pegamos o Rondon. Marília não quis ir, estava se recuperando do estresse do último ataque e ainda não tinha nem aparecido na kit. Já estávamos ficando preocupados que ela fosse desistir do Maravilhoso Mundo da Delinqüência Juvenil.
Descemos e chegamos num boteco pra bebermos algo e nos concentrarmos um pouco.
- O que você acha Ari, é melhor começar pela casa mais fácil ou pela mais difícil?
- A mais fácil, contar com a sorte é o primeiro passo para conquistá-la.
Saímos do boteco e nos embrenhamos numa rua pouco iluminada. Andamos umas seis ou sete quadras até que Jean fez sinal pra que parássemos. Olhou pra todos os lados, prestou bem atenção nos ruídos e pulou o muro em que estávamos ao lado.
- Venham! - Cochichou.
Fábio tinha pulado quase ao mesmo tempo que ele e pulamos todos juntos logo depois. Era um desses terrenos vagos esperando por uma construção, especulação imobiliária. Fábio apontou para o fim do terreno, mostrando qual era a casa.
- Mas fiquem espertos porque a casa da esquerda, não a primeira, mas a segunda, tem cachorro e esses porras tem um fudido de um ouvido sensível!
Fomos até o muro da casa devagar, agachados em silêncio, brincando de hobbits carregando o um anel. Pulamos o muro um por um, menos Sérgio, o desajeitado, que precisou de três ajudando para conseguir. O quintal da casa era grande, tinha até uma horta. O Vegan Sérgio não se segurou e chutou umas verduras, enchendo os bolsos.
- Vamos fazer altos cremes de verdura com suco de couve quando voltarmos!
- Blarghh!!
- Psssiu!!
Atravessamos o quintal pé por pé até uma janela que guris falaram ser a do banheiro-alvo. Era uma janela fácil de abrir, dessas inteiras, que se empurra pra fora. Como sou o mais magro da turma fui o escalado para entrar. Se o vaso ficasse perto da janela era só jogar as coisas, mas também seria muita sorte ter as duas facilidades, janela fácil e vaso perto.
Enquanto entrei, Jean e Fabio ficaram cuidando em baixo da janela enquanto Sérgio e Vinícius montaram sentinela no resto das janelas da casa pra tentar ouvir se alguém acordasse. Coloquei tudo direitinho, as roupas ao lado do vaso, os sapatos, uma meia jogada num canto e a outra dentro do vaso. Quanto estava terminando minha tarefa pensei ter ouvido algo e me assustei. Estava sugestionado.
Com o susto levantei-me rápido, escorreguei no piso molhado e caí sentado. Foi um puta de um pacote. Doeu pra caralho. Fora o som do baque no chão, que assustou os dois que estavam no lado de fora.
- O que foi isso Ari? O que houve?
- Nada...nada.
Mas que estava doendo a bunda, isso estava. Escalei a janela pra voltar todo errado por causa da dor e me esforçando pra não gemer. Os guris me puxaram pelo braço e eu tomando todo o cuidado do mundo. Só que na hora que meu pés puf!, caíram no chão, a porra da janela se fechou de uma vez só, fazendo um tremendo de um barulhão. Sérgio e Vinícius, que não estavam ligados do que estava acontecendo ficaram indignados.
- Caralho! O que foi isso? O que vocês fizeram?
- Merda!
O cachorro que tinham falado começou a latir furiosamente e entramos todos em pânico. Corremos feito uns loucos em direção ao muro dos fundos. Não era a intenção, mas na correria acabamos pisoteando a horta toda. Eu corria que nem um manco por causa da dor no traseiro. Acabou que eu também precisei da ajuda de três pra poder pular o muro. Sérgio, obviamente, tirou sarro de mim.
- Viu como deus castiga?
- Vai te fuder, seu panocú!
Dessa vez atravessamos o terreno baldio correndo. "Os Cavaleiros Negros estão atrás de nós, corram hobbits, corram!" Saímos na rua de trás e corremos as seis ou sete quadras até o boteco em que tínhamos estado antes.
Ainda estava aberto. Era um bar boêmio, de madrugada e de cachaceiros mesmo. Resolvemos curtir a noite ali mesmo e ficamos até quase amanhecer o dia, nos vangloriando pra nós mesmos das virtudes de nossa obra de Terrorismo Poético.
Esse ataque acabou servindo pra recuperar nossos ânimos, pois se somos a ralé dessa sociedade porca, pelo menos temos a arte em nossos corações e o que é melhor: arte não corrompida.
::: posted by ARI ALMEIDA at 8:50 AM
Mande os autores ao inferno
Sexta-feira, Agosto 22, 2003 :::
Pra facilitar a vida de quem tem a paciência de ler nossos relatos, apresentamos, em ordem cronológica, com links de navegação e tudo, a sensacional:
ENCICLOPÉDIA DA DELINQUÊNCIA APLICADA AO COTIDIANO CURITIBANO:
ATAQUE UM: O Macarrão da Mamãe é Mais Gostoso
Um refeição feita dentro de uma loja de departamentos pode causar um transtorno incrível a que não está acostumado a sair da rotina.
ATAQUE DOIS: O Crime Não Compensa
Qual o fim mais adequado a uma bela obra de arte? Um museu para ser transformada em mercadoria? Achamos que não e preferimos invadir uma casa para presenteá-la a um surpreso morador.
ATAQUE TRÊS: A Foto do Tijolo Na Vidraça Todos Acham Bonito (Mas o Tijolo Mesmo...)
A poesia está morta. Os canais de distribuição estão todos obsoletos. Optamos por algo mais radical. Distribuir belas poesias com um estilingue e uma bolinha de gude através das vidraças da classe média.
ATAQUE QUATRO: Quarenta e Dois Decibéis de Exorcismo
Uma cerimônia religiosa feita num banco para que os frequentadores destes lugares do mal possam se livrar das chamas do inferno.
ATAQUE CINCO: Umas Surpresinhas Para Uns CD-Players
Fraude postal consiste em mandar coisas pelo correio para pessoas escolhidas ao acaso. Achamos muito tedioso. Preferimos invadir casas e deixar Cds estratégicos dentro do CD player. O cara acorda e vai ouvir um som e: SURPRESA.
ATAQUE SEIS: O Discreto Charme de Uma Briga de Boteco
Num teatro encenado em um boteco no centro de Curitiba a propriedade privada é discutida e muitas interessantes questões são levantadas.
ATAQUE SETE: Os Don Juans do Interbairros 1
A ditadura da beleza quase ninguém comenta. Ninguém exceto os Delinquentes de Curitiba numa divertida viagem dentro do Interbairros 1, o ônibus verde.
ATAQUE OITO: Gurizada Big Mac Feliz
O que vc faria com se achasse 150 Reais na rua? Um monte de coisas legais, né? Mas a Juventude Delinquente optou por levar uma porrada de meninos de rua pra um Shoping, pra que os bem vestidos frequentadores soubessem do custo social daquele consumismo.
ATAQUE NOVE: A televisão me deichou burro muito burro demais
Revoltado com a qualidade da programação televisiva? Jogue sua TV pela janela.
ATAQUE DEZ: O Dia em que a Churrascaria Parou
Vegetarianismo Radical, Vegan e ativismos pelos Direitos dos Animais. Nesse ataque, um belo exemplo de ação direta em prol destas causas citadas.
ATAQUE ONZE: A Arte de Sacanear Bancos Para as Novas Gerações
Sacanear bancos é bom. Por mais que você seja escroto, jamais será anti-ético que eles. Os Delinquentes jamais perdem uma oportunidade de sacanear essa instituição do mal.
ATAQUE DOZE: Os Pobres Que Me Desculpem, Mas Beleza Custa Caro
quando se tem dinheiro é fácil ser bonito e andar na moda. O que aconteceria se uma catadora de papelão fosse a um salão de beleza de luxo? Delírio utópico? Seja realista, exija o impossível.
ATAQUE TREZE: As Andorinhas Tem Duas Casas (e não alugam a que está vaga)
Abaixo a Propriedade Privada! Abaixo a Especulação Imobiliária! Abaixo a exploração de quem não tem onde cair morto!! Tome uma atitude & Viva a anarquitetura!!!
ATAQUE QUATORZE: A Radioatividade do Ar Leva até Vocês: Mais Um Programa da Série Delinquência
A mais bela homenagem que o Filho Da Puta do roberto marinho poderia receber. Nada mais a dizer, só isso, leia e tirem suas próprias conclusões.
ATAQUE QUINZE: Uma Missa Para o Lado Selvagem
O Papa resolveu colocar chumbo grosso no seus tiros contra os relacionamentos homosexuais. Azar o dele, vai ter que aguentar as consequencias e os Delinquentes de Curitiba podem ser uma boa dor de cabeça pra Igreja Católica.
ATAQUE DESESSEIS: Eu Não Pedi Pra Nascer, Nem Vou Nascer Pra Perder
Se houvesse essa opção, será que todos iriam querem nascer neste mundo ordinário? Não sei, mas que essa questão é interessante ser levantada, isso é.
Não deixem de apreciar esta leitura educativa.
Um tiro na boca de todos com Muito Amor & Muito Carinho.
Ari Almeida
Ainda temos a campanha JOGUE SUA TV PELA JANELA!!!!!! Acesse o link Djá!!!
E em breve, muito em breve, este blog, digo, esse antro de Delinquentes Juvenis, estará organizando uma espécie de Flash Mob Radical, não será a
primeira tentativa, mas desta vez é pra sair. Chega de enrolar, vem aí o Primeiro Encontro Municipal de Masturbação Coletiva. Preparem suas libidos e podem mandar idéias para cá.
Um Tiro nos cérebros de todos com Muito Amor & Muito Carinho.
::: posted by ARI ALMEIDA at 5:12 PM
Mande os autores ao inferno
Eu Não Pedi Pra Nascer, Nem Vou Nascer Pra Perder ........Volta ao índice
(ataque dezesseis)
Dinheiro é como droga e estamos quase todos viciados. As crises de abstinência são terríveis. Cada vez mais se faz cada vez menos sem ele. Sérgio está desempregado e tá foda de arrumar alguma coisa. Se dar bem hoje em dia é como tirar a sorte grande, ser uma criatura iluminada pelo Deus Mercado. Até os que tem trampo fixo, como eu e Jean, estão pela bola oito, com sérios riscos de perdê-los.
Somos uma autêntica geração de Fudidos & Mal Pagos. Na segunda-feira à noite estávamos chorando as mágoas e brincando de rotular nossa geração.
- Desistam, vocês só vão conseguir isso quando ficarem velhos e a geração da vez já for outra. - Vinícius é um pessimista apocalíptico incurável.
Sérgio é enfático, esse seu chavão até que já é meio antigo, mas ele sempre solta essa.
- Somos os Palestinos do cotidiano, expulsos dos nossos sonhos e das nossas aspirações e refugiados numa realidade que nos exclui.
- Pô, que foda isso...
Eu e Fábio somos do palpite de que somos múltiplos em rótulos, dá pra chamar de uma porrada de maneiras, a Geração Queda-livre, a Geração "O Atrasado Que Paga a Conta" ou então mais perfeito: somos a Geração "O Que é Um Peido pra Quem Tá Todo Cagado?".
- Vocês estão viajando. - Falou Jean calmamente, fumando um Charuto que arrumou não sei onde. - Na verdade somos mesmo a "Geração Espermatozóide".
- É...
- O prêmio é bom, se você fecundar, fica nove meses curtindo e desenvolvendo o corpinho, depois nasce pros prazeres da vida. Mas o vestiba é fudido, são bilhões de candidatos por vaga. Mas tem gente que consegue...
Ficamos naquela, pensando na viagem dele, até que ele deu uma baforada em seu charuto e quebrou o silêncio.
- Inclusive eu tenho um plano de uma ação nesse sentido, não curti a dos travecos, queria fazer algo diferente.
- Que ação?
- Um autêntico ataque.
- Ataque?
- Uma grande palhaçada, pra dizer a verdade.
- Fala logo, porraaa!
O cara falou só isso e ficamos todos nos olhando e pensando: "Olha a do cara!". Nem falamos nada, simplesmente ficamos esperando por maiores explicações.
- Fácil! A gente consegue um feto falso, um feto de uns três meses, um pouco de sangue de animal e deixa no banheiro de algum shopping.
- Rapaz, não boto fé nessa tua mente macabra!
- Mas calma aí, não é só, não pode ser só.
- O quê?
- A gente deixa um manifesto, como se o bebê mesmo não quisesse nascer. Tipo um feto suicida.
- Feto suicida?
- Eu não quero nascer nesse mundo de merda!
Pronto. A idéia estava lá. Uma daquelas típicas idéias monstruosas que se agigantam e te dominam. Operacionalizar a idéia já foi mais difícil, pois precisávamos de uma mina, Jean não se encontrou com Alana Alice e essa mina teria de ser a Marilia.
Foi foda convencê-la. Nós somos uns malacos, mas ela tá apenas iniciando nos caminhos da delinqüência. Somente depois de bolar um bom disfarce que ela acabou topando.
- Vou sair loira, com uns óculos grandes e um casacão de frio.
- É limpo, no banheiro tem várias portinhas, vão demorar pra entrar na que você usou, dá tempo de sumir. - Jean foi o arquiteto da ação.
Fez um mistério lazarento, disse que comprou curtiça e que ele mesmo daria um jeito de esculpir o feto. O manifesto seria com ele também. Aceitamos o mistério porque desde a surpresa do ataque ao salão de beleza do shopping ele, digamos assim, ganhou uma certa moral no grupo.
Eu e os guris cuidamos então do resto.
E o resto era o sangue e os outros apetrechos realísticos. Fábio veio com uma de que víçeras de porco são muito parecidas com as humanas e acabou usando seu humor negro pra dar uns toques aterrorizantes ao resultado. Conseguimos umas paradas parecidas com cérebro, muito horrível. Fomos até Campo Comprido pra conseguir o material na casa de um tio, amigo do pai dele.
Vinícius ficou com Marilia e seus disfarces e o Sérgio participou do mistério do Jean. Jean queria dar um acabamento artístico no ataque e convocou o monstro.
O sangue colocamos numa garrafa de Tubaína vazia de dois litros e as víceras numa sacola de lixo preta. Antes de sairmos de casa Jean nos chamou num canto e mostrou seu "precioso". Era um feto com dois braçinhos recém formados, sendo que o lado esquerdo estava pra baixo e o braço direito inclinado em direção à cabeça.
- Tá, mas todo esse segredo pra isso? É um feto comum.
Então tirou do bolso uma seringa e colocou na mão do feto.
- Com vocês, o feto suicida!!
Ficou perfeito, hilário, o feto apontava a seringa na têmpora direita, igualzinho a um suicida com uma arma apontada pra cabeça. Depois mostrou o manifesto: O Movimento dos Fetos Conscientes, apresentando quinhentos mil motivos pra não nascer nesse mundo de bosta. Jeanzinho acabou fazendo um manifesto altamente hard-core. Revoltado mesmo.
Marcamos a ação pra quarta-feira no início da noite, lá pelas sete horas. O desafortunado alvo da vez foi o Shopping Müller, que ainda não tinha sido vítima de nossas sacanagens delinqüentes. Vinícius entrou com Marília e rapidamente se dirigiram ao banheiro. Marília entrou e ele ficou esperando. Logo chegamos nós, que ficamos nas proximidades observando o desenrolar dos fatos.
Marilia demorou, demorou e demorou. Deve ter ficado uns vinte minutos lá dentro.
- Será que ela não vai mijar pra trás?
- Relaxa, a mina é das nossas.
Até que por fim ela saiu, apressada, nervosa, a passos largos. Vinícius foi atrás pra saber se ela tinha feito tudo conforme o combinado e também para tranquilizá-la um pouco. Ficamos esperando, torcendo pra que rolasse o maior escândalo possível. Nosso real objetivo ao atacar os shopping é que essas igrejas do consumismo deixem de ser a ilha da fantasia que proclamam ser. Lutamos, digamos assim, contra o apartheid social que é fortíssimo em Curitiba.
Vinicius voltou e contou que saiu tudo conforme o planejado. O bebê ficou com o braço desocupado virado pra cima e somente quando fosse erguido que a palhaçada seria revelada. Marília, mesmo contra a vontade e morrendo de nojo, molhou os dedos no sangue já quase coagulado e escreveu na porta do toalete a frase: Movimento dos Fetos Conscientes.
O tempo foi passando e entrou uma pessoa, depois outra e outra e nada. Já estávamos pensando que o shopping fecharia sem ninguém se ligar quando ouvimos o tão esperado grito. Um autêntico grito de quem leva um cagaço.
- Ai meu deus! Tem sangue lá dentro! Tem sangue lá dentro!
Era uma velhinha, quase morremos de pena da coitada, se mijou de susto, ou se cagou, pois caminhava lentamente com as pernas meio abertas, parecia cagada mesmo. A coitadinha tremia toda e não conseguia pronunciar uma frase inteira, só gaguejava.
- O que foi, minha senhora? ¿ Perguntei disfarçadamente.
- Eu, eu, eu, eu não s-sei! T-tem muito sangue lá d-dentro. Eu não sei! Deus que me perdoe, mas parece que abortaram!
- Abortaram? Lá dentro?
- Eu não sei! Eu não sei!
Fiquei com o coração partido, a apavorada senhora começou a chorar. Não demorou até que um segurança do shopping chegasse junto.
- O que está acontecendo aqui?
- Seu moço! Seu moço! Tem muito sangue lá dentro, eu não sei, eu não sei, mas deve ter acontecido alguma coisa horrível lá dentro!
O rapaz pediu licença, falou alguma coisa no rádio e entrou no mictório. Naquela hora eu desejei ter nascido mulher, só pra ver a cena. Sérgio não desperdiçou a chance e tirou onda.
- Se tivéssemos vindo travestidos que nem fomos à missa, poderíamos ver nossa magnífica obra de arte.
- Cala boca, seu animal!
Vinícius saiu com Fábio falando aos quatro ventos que tinha ocorrido um aborto dentro do banheiro. Todos que ouviam levavam a mão à boca e murmuravam deusmelivres e coisas do gênero.
Quando as pessoas começaram a se aglomerar pra ver o que estava acontecendo chegaram mais três seguranças e fecharam o banheiro.
- O que está acontecendo?
- Estamos verificando, mas a princípio não é nada de mais
Vinícius não cansava de repetir:
- Foi um aborto, a senhora que viu me garantiu que foi um aborto.
O segurança parecia seguro de si.
- Calma, parece que não é nada de mais.
De repente, o circuito interno de som do Müller anuncia.
- Informamos nossos clientes que houve um vazamento de água num de nossos mictórios, mas nossos técnicos já estão resolvendo o problema e em breve ele já estará funcional novamente.
Filhos de uma puta! Lacraram a entrada do toalete em questão e não deixaram ninguém mais entrar no banheiro enquanto o ¿problema¿ estava sendo resolvido. Vimos várias faxineiras entrarem com baldes e panos. Bom, pelo menos elas e alguns funcionários viram, melhor que nada.
Marilia voltou sem seu disfarce e ria toda vez que via a cara de deboche das faxineiras que saíam do banheiro. Desta vez foi Marilia quem mais riu, merecidamente, foi o primeiro ataque com ela como protagonista principal. Várias pessoas acompanhavam o entra e sai do banheiro e todos, sem exceção desconfiavam que alguma coisa estava acontecendo.
Mas a direção do shopping no mínimo empatou com a gente, conseguiu, na medida do possível, abafar o caso.
No manifesto do Jean estava escrito mais ou menos assim: ¿Já foi uma concorrência dos diabos pra mim, como espermatozóide, conseguir fecundar o óvulo. Não quero nascer pra ter que concorrer de novo, com outros bilhões, por uma vaga bem sucedida nessa sociedade porca.¿
Voltamos a pé pra casa rindo muito deste e de outros argumentos engraçadíssimos que Jean usou em seu manifesto. Realmente, se houvesse uma opção de escolha, será que todos iriam querer nascer nesse mundo doente?
¿O Mundo tá muito doente. Tem gente que mata. Tem gente que mente.¿
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::: posted by ARI ALMEIDA at 9:53 AM
Mande os autores ao inferno
Quinta-feira, Agosto 21, 2003 :::
Se o que você faz, faz impunemente, é porque é inofensivo.
(Ari Almeida)
::: posted by ARI ALMEIDA at 10:10 AM
Mande os autores ao inferno
Terça-feira, Agosto 19, 2003 :::
Nos comentários do post de nossa última ação algumas pessoas questionaram a veracidade da narração, baseados nos nomes dos locais onde ocorreram. Sobre isso, postei a tempos no CMI a justificativa de porquê não batemos fotos, nem apresentamos provas. Pra não ficar repetindo eternamente os argumentos, o link pro texto é este. Críticas e argumentos são bem-vindos. Um abraço a todos!
::: posted by ARI ALMEIDA at 9:12 AM
Mande os autores ao inferno
Segunda-feira, Agosto 18, 2003 :::
Uma Missa para o Lado Selvagem..........Volta ao índice
(ataque quinze)
Nos últimos tempos o movimento pelos direitos dos homossexuais tem crescido no mundo todo. De um lado gays, de outro homofóbicos e as discussões muitas vezes saem da argumentação pra caírem na violência física pura e simples. Esse é um assunto polêmico em que os preconceitos ocultos mais se manifestam.
Na kitnete dos Delinqüentes o assunto veio à tona quando Jean ligou pra mina que conheceu no Pacatatucutianão depois de nosso ataque dos transmissores. Quem atendeu foi o irmão dela, com um alô totalmente boiola. Jean ficou de cara.
- Porra, o irmão da mina é viado!
- Que é que tem, cara? Você tá agarrando ela ou o irmão dela?
- E ainda falou que o nome dela não é Alana merda nenhuma, é Alice, a mina viajou.
Logo depois entramos num longo bate-boca sobre os gays quando comentei aquelas paradas do Vaticano insistir em condenar o casamento dos homossexuais. Jean e Fabio vieram com um discurso escrotamente homofóbico.
- Tem que matar essas bixas todas!
- Já sapatão eu curto. - Escroteou Jean.
Os dois são mesmo uns palhaços safados, Bukowskis degenerados. Vinícius é o mais cabeça aberta, pra ele que se foda.
- Cara, o que cada um faz com seu rabo não me interessa. O cú é teu, mano, faz dele o que quiseres, estou pouco me fodendo.
Sérgio que me surpreendeu; porra, parece que o cara tá sempre querendo me surpreender.
- Olha, eu penso o seguinte: não tenho nada contra a relação de homem com homem ou mulher com mulher. Não vejo nada de errado nisso, a imagem é que choca.
- Como assim?
- Ah... por exemplo, você olha a foto de um casal heterossexual se beijando e enxerga amor, mas se o casal for do mesmo sexo não se vê o amor, apenas o beijo.
- Deixa de ser ridículo!
- Só porque você não vê o amor, não significa que ele não exista e que mais ninguém vê. À merda você com esse seu raciocínio.
O bate-boca foi longe, com momentos até de agressividade, aquela kitnete acabou transformando-se num microcosmo da questão homossexual. Várias bandeiras foram erguidas, várias foram baixadas e no final das contas, como de costume, chegou-se numa espécie de consenso.
Só que infelizmente o consenso não veio porque ninguém convenceu ninguém. O consenso veio porque Vinícius teve uma idéia genial pra um ataque. Só assim pra chegarmos a um consenso mesmo nesse assunto, o que nos une é a delinqüência, é o desrespeito total às instituições. E a idéia do Vini era atacar a Igreja, instituição que a tempos estávamos afim de sacanear.
- Prestem atenção no que eu estava pensando.
- Lá vem bomba...
- O Papa não quer que eles casem, lançou uma campanha mundial e a homofobia só fez crescer no meio católico. Podíamos fazer um belo protesto contra essa atitude conservadora.
- Sim, mas que ataque?
- Compramos um monte de revistas pornográficas de gays, colamos a cara do Papa em cima de cada um que tiver trepando e colamos os papéis numa igreja.
Ficamos em silêncio, pensando, até que Jean caiu na gargalhada.
- Cara! É muita palhaçada! Que plano do caralho, meu!!!
Sérgio também riu, curtiu a viagem.
- E a gente podia avacalhar ainda mais, nos vestindo de travecos e indo assistir a uma missa.
Aí a galera emudeceu mesmo. De verdade. Opa, peraí caceta. Apoiar o movimento é uma coisa, dar uma de traveco já é outra bem diferente. Fábio logo já tomou a frente.
- Tô fora!
Fiquei indiferente, até que Vini começou a se mijar de rir pensando na puta cena que seria fazermos isso.
- Imaginem galera, o constrangimento causado pela presença espalhafatosa de bixas locas numa missa. Cara, isso pode realmente ser hilário!!
Acabou que bolamos um plano altamente constrangedor pra nossas masculinidades. Uma verdadeira prova de fogo em que nossos preconceitos mais íntimos seriam postos em cheque. Vinícius ligou pra sua namorada Marília pra conseguir as roupas e as maquiagens. Ela simplesmente não botou fé na nossa piração. Não conseguia nem falar direito ao telefone de tanto que ria.
- Você pára de palhaçada, sua tonga! - Vini ria junto.
Chegou na kit com um sacolão de roupas e uma cara de debochada.
- Essa eu quero ver, se cobrarem vinte reais de ingresso nessa missa eu pago mesmo assim, vale, pode ter certeza que vale.
Fábio e Jean se encarregaram das pornografias. Compraram umas revistinhas e foram na casa do Társis, amigo nosso que tem micro com scanner. Társis também achou a idéia engraçada pra cecete e eles acabaram entrando numas e fazendo altas viagens no Photoshop. A carinha do papa em cima dos gays ficou perfeita. Acompanhando cada panfleto colaram um texto dizendo: "O Ministério do Caos adverte, o mais importante é o amor". Procuraram na net outras imagens sadomasôs e avacalharam ainda mais com o Papa e colocaram cada colagem dentro de um envelope branco pra plantarmos na igreja.
Escolhemos a Igreja Padre Agostinho na missa do domingo de manhã. Não era uma igreja nem muito grande, nem pequena e ficava num bairro, mais sossegado. Passamos a madrugada de sábado dando um trato em nossos visuais. Éramos todos cabaços nesse tipo de coisa e Marília foi nossa diretora artística, dando os toques principais na hora das maquiagens.
Sérgio ficou horrível, seria uma bixa assustadora se o negócio fosse sério. A ironia é que os homofóbicos Jean e Fabio foram os mais perfeitos. Se fossem bixas, seriam bixas de sucesso. Claro que tirei onda deles.
- Hummmm!! Vocês tem é medo! Cabreirisse, rárárá!
- Olha a bundinha delas, hummmm!!! - Vini também não desperdiçou a bola na marca do pênalti.
- Vai te fuder Ari!!!
Eu e Vini ficamos meia boca, com uns vestidões compridos até o tornozelo e uns colares breguíssimos. Combinamos que entraríamos todos separados na igreja, pois entrar junto seria muito chamativo e queríamos apenas dar umas alfinetadinhas nos católicos, não porradas. Tolerância religiosa é importante e acreditamos que não estávamos sendo muito intolerantes, apenas estávamos sendo uns palhaços delinqüentes.
Domingo cedo pegamos o Água Verde-Abranches e descemos perto do Bosque do Papa, só pra dar um grau cerimonial a nosso ataque. Estava um frio desumano e a grama ainda tinha uma camada de geada por cima. No meio do bosque tem uma estátua de um papa com uma expressão pra lá de macabra no rosto. Maquiamos o papa e fomos pra Igreja.
Vini foi "a primeira" a entrar e ficou bem na frente, na primeira fileira de bancos. Depois entrei eu e fiquei lá pelo meio, do lado esquerdo. Carregávamos todos nossas colagens nos envelopes na mão. Marília e Társis foram vestidos normalmente pra serem platéia e não perderem o show. Jean e Fábio, as duas "bixas gostosas e enrustidas" entraram quase juntos e ficaram próximos uma do outro, no meio,do lado direito. Sérgio que demorou pra caralho.
A missa já tinha começado e já pensávamos que ele não entraria quando chegou e se mocou no fundão. Ele é o tipo do cara que gosta de dar idéias pra que os outros ponham em prática, fazer ele participar de nossos ataques tem sido nossa maior vitória.
Foi incrível como ninguém nos olhava diretamente nos olhos. Era como se fôssemos invisíveis. E também parecia que estávamos fedendo, ninguém ficava perto. No mínimo um metro e meio de separação física.
O padre foi quem se fudeu bem mais pra disfarçar que não estava enxergando nada. Vinícius estava bem na sua frente, bancando uma autêntica bixa loca. Na hora do sermão ficou descaradamente dando em cima do padre e nos cânticos era totalmente "desafinada e estérica".
Só tinha mulheres na primeira fileira e algumas começaram a se invocar, principalmente quando Vini meio que se emocionava e insinuava que iria dançar no embalo dos hinos. Eu tava olhando pra ele na hora em que levou uma cotovelada de uma delas.
Começou então a dar açenadinhas pro padre, que teve uma hora que chegou até a gaguejar. Nesse momento foi difícil conter o riso. Estávamos sendo o mais escrotos possíveis, cantávamos desafinados, fazíamos comentários bestas sobre trechos do sermão para os vizinhos, que ignoravam solenemente, até que as coisas começaram a se complicar. O padre emendou um sermão contra o casamento homossexual, primeiro insinuando e depois descaradamente. Foi ele quem chutou o pau do barraco primeiro.
A princípio colocaríamos nossas colagens pelos bancos discretamente, mas o sermão improvisado exigiu de nós também um improviso. Era a hora de agirmos diante do inesperado. Um dia isso teria de acontecer, pelo menos foi sob o teto de um deus.
Vinícius tomou uma atitude drástica e interrompeu o sermão.
- Isso é um preconceito absurdo!! Isso contraria completamente a frase de Cristo que diz que o mais importante é o amor.
Falou isso balançando os braços e deixando cair os envelopes com nossas colagens. Caíram vários, próximos ao altar. Sem querer viajar e já viajando, o silêncio dos fiéis chegava a fazer eco. Vini terminou de falar e dirigiu-se à saída a passos largos e resmungando palavrões. Vi muitas almas se benzerem.
Em solidariedade à sua atitude saímos todos juntos, indignados também.
- Isso é uma falta de respeito para com o ser humano!
Fomos pedindo licença pras pessoas e deixando propositadamente os envelopes caírem no chão. Sérgio tava tão escondido que nem vi ele sair. Jean foi o último a sair e quando estava na porta virou-se e falou pra todos:
- Êita coração de pedra!
Saímos da igreja todos correndo e rindo. Não sei porque corremos tanto, mas corremos. Chegamos no Bosque do Papa e nos jogamos no chão extasiados pelas gargalhadas e imaginando como a missa poderia ter prosseguido depois daquela cena. Foi muito engraçado. A geada já tinha desaparecido e a maquiagem da estátua também, algum guarda municipal deve ter se ferrado e lavado tudo, efeitos colaterais de nossa guerra, seu guarda, foi mal. Trocamos nossas roupas enquanto esperávamos Marília e Társis.
- Gurizada! Muita cara de pau a deles, seguiram a missa como se nada tivesse acontecido!
- E os envelopes?
- Fizeram de conta que não estavam lá, mas deixe quieto que depois tenho certeza que irão conferir o que tem dentro, aí sim levarão o verdadeiro susto.
Ainda era de manhã e fomos a um bar na Mateus Leme tomar umas cervejas escuras pra comemorarmos. Não tínhamos dormido à noite nem comido nada antes de sair de casa, de modo que o jejum fez com que as beras pegassem valendo.
Voltamos pra kit meio bêbados e dormimos o resto do dia cada um com um sorriso no rosto imaginando a abertura dos envelopes.
Foi muita palhaçada.
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::: posted by ARI ALMEIDA at 9:05 AM
Mande os autores ao inferno
Sexta-feira, Agosto 15, 2003 :::
Pessoal!
Estamos preparando um blog especial que funcionará como um Manual Prático. Nele divulgaremos todas as instruções para montagens dos transmissores que interferem nas TVs e também as famigeradas "Bombinhas Sonoras" que usamos em nosso ataque à churrascaria. Tudo explicado de forma detalhada para que qualquer um, mesmo sem conhecimentos técnicos, consiga montar. ABAIXO AS ESPECIALIZAÇÕES!!!
E por último, Curitiba que se prepare, faremos nosso novo ataque nesse fim de semana. Vou logo avisando, se vc é católico, vá a missa, pois se tudo sair conforme o planejado, vai ser um sarro, comédia total.
SEJA REALISTA: EXIJA O IMPOSSÍVEL.
"Se o que você faz, faz impunemente, é por que é inofensivo."
::: posted by ARI ALMEIDA at 11:02 AM
Mande os autores ao inferno
Terça-feira, Agosto 12, 2003 :::
A radioatividade do ar leva até vocês: mais um programa da série Delinqüência........Volta ao índice
(ataque quatorze)
Tem dias que a vida parece coca-cola sem gás. Nenhuma música agrada, nenhuma conversa progride e a apatia vence o jogo. Estávamos neste estado deplorável, assistindo São Paulo e Cruzeiro na televisão sem volume, quando a Ana Paula Padrão interrompeu nosso tédio com aquela cara de peito contido que faz na hora de noticiar algo grave. Era a morte do filho da puta dono da Globo.
Foi show a gritaria da galera, urros selvagens e gritos primais celebraram o momento. Sergio Augusto então se emociona e toma a atitude mais inesperada pela qual já passei. Arrancou da tomada o fio da televisãozinha dos piás e jogou a lazarenta pela janela.
- Enfim livres! ¿ berrou para todo vizinho que quisesse ouvir.
Foi um choque. Ficamos todos paralisados. Absolutamente não esperávamos aquilo. Tínhamos jogado uma TV do sétimo andar outro dia, mas, porra, era a TV dos piás. Pequena, preto e branca, mas era a TV que eles tinham. Não falei nada, não sabia o que dizer. Fábio ria que se cagava e Jean, um dos donos do aparelho, ficou atônito. Mas Vinicius explodiu em fúria.
- Puta que o pariu! O que tu fez seu viado?
-Ué? E a campanha ¿Jogue Sua TV Pela Janela¿?
Ele estava coberto de razão. Vinicius resmungou e começou a ficar vermelho de raiva. Sergio tinha em seu favor falácias passadas, é um desses caras que nunca perdem a calma.
- Jogar uma TV que não funciona de um edifício invadido e manter uma funcionando em casa é ridículo.
Vinicius respirou fundo e deve ter contado até mil até que a realidade começasse a bater. Aliás, bater não, socar violentamente o rosto, dele e de todos nós que estávamos lá. O paunocu do Sergio conseguiu fazer com a gente o que provavelmente não conseguimos fazer com ninguém.
O tão aclamado choque na percepção das coisas, na rotina bestial enraizada em nossa psique. Num segundo o Galvão Bueno estava lá, queimando um filme puxando o saco de seu patrão e noutro segundo a televisão estava na calçada. Não era muito alto, só rachou o tubo de imagem, mas o suficiente pro fantasma do Galvão sair pelas rachaduras.
Levamos um tempão pra começar a conversar novamente. Foi Jean quem quebrou o gelo.
- É seu monstro, você tem razão, veio.
- Com certeza! ¿ ria o Fábio.
- Você fala porque mora com os véio em Colombo e não era tua.
- Relaxa, mano! A TV era podre e merecia um descanso, com uns poucos reais você compra outra igual.
- Não! Não vou mais comprar televisão. Nunca mais!
Por fim acabaram se abraçando com desculpas e obrigados que mais pareciam duas bichas locas. Acabamos ficando acordados até altas horas falando merda e profanando a alma do pobre milionário que acabara de morrer. Lá pelas tantas já estávamos normais, viajando em inventar delinqüências. Fabio estava hilário, foi ele quem deu o toque.
- Ari! Lembra daquela tua viagem de montarmos uns transmissorzinhos de FM para interferirmos nas televisões?
- Lembro.
- Pois então, a gente pode aproveitar essa deixa pra fazer a parada.
- Tens razão...
- Pois então, vamos mexer nossas bundas gordas. Depois daquela baia invadida em que quase ninguém viu nossa ação eu tava afim dum esparro.
No outro dia Vinicius tratou de encontrar Marcelo, aquele primo da Marilia que é técnico e que quebrou nosso galho no ataque da churrascaria. Naquela vez ele participou junto, pirou e se dispôs de quebrar outros galhos.
E este era um novo galho.
- Porra gurizada, esse é fácil! Com um transistorzinho besta e vocês montam um transmissor com mais de duzentos metros de alcance.
- Mas é fácil mesmo?
- Claro, numa tarde a gente monta e é baratinho, arrumamos quase tudo que precisa na minha sucata de novo.
Passamos então a considerar os aspectos práticos da operação. Com alcance 300 metros de raio resultaria numa área de abrangência de um circulo de 600 metros de diâmetro, isso sem nenhum prédio ou montanha no meio. Uma barreira de edifícios, por exemplo, atenuaria o sinal. Escolhemos então um bairro residencial. Jean estava interessado em atingir a maior quantidade de casas possível.
- Não tem como aumentar a potência do sinal pra atingir mais casas?
- Até tem, mas vai encarecer e complicar um pouco mais.
- Muito?
-Passa de cem reais. Mas escuta o seguinte, vocês podem montar vários transmissores e se esparramarem, desse jeito dá pra cobrir uma área grande.
- E dá pra transmitir sons ou já é viajar na maionese?
- Dá sim, imagem é mais complicado porque o sinal de vídeo em AM e gerar imagens são um negócio mais foda, mas som dá, um microfonezinho de eletreto e tá feita a cagada.
Perfeito. Passamos o domingo inteiro confeccionando os transmissores, queríamos interromper a transmissão do Fantástico, queríamos ibope. Todos trabalharam juntos, cada um no seu, menos o Sergio.
- Dessa vez quero ficar de camarote, vamos escolher o bairro do Água Verde e eu fico na casa da Marilia assistindo a TV com ela e a família dela fazendo de conta que não sabemos de nada. Quero conferir se a parada vai funcionar mesmo ou não.
Sergio, Vinicius e Marilia foram até a casa dela antes com os transmissores. Eu, Jean e Fábio fomos definir os pontos onde iríamos transmitir de modo a atingir a maior quantidade de lares possível. Fomos criteriosos pra cacete. Escolhemos quatro árvores das quais era possível enchergar as TVs pelas janelas das casas. Uma vez definidos os locais fomos buscar os aparelhos com Sérgio. Porém um teste rápido na casa da Marília revelou o pior, o viado tinha carregado eles na mochila sem o menor cuidado, amassou as bobinas e ferrou com o ajuste de freqüência.
Mas tem males que vem pra bem e enquanto passei a segunda-feira inteira me desviando de minhas funções no trampo reajustando tudo me dei por conta de que poderíamos fazer uma grande palhaçada: esperar pelo dia da missa de sétimo dia e interrompermos o Jornal Nacional. Liguei pros piás imediatamente.
- E aí Jean, o que você acha?
- Acho a idéia boa, mas dá pra melhorar.
- Como assim?
- Lembra do Tiba e do Ribamar, que rachavam o apê com a gente nas antigas?
- Sim, mas e daí?
- Eles são feras em imitar a voz de pessoas famosas. Ele podiam imitar a voz de figuras conhecidas e aí poderíamos tirar onda verdade.
Perfeito. Vini se encarregou de falar com os caras e explicar os detalhes de toda a nossa viagem, pois eles estavam absolutamente por fora de nossas ações. O etílico Tiba pirou com a idéia, mas fez uma exigência.
- Tá certo, a gente faz, mas tá um frio do caralho e eu queria fazer a cabeça antes com uns quentões. Sabe? Aquecer os neurônios.
- Eu falo com minha namorada e a mãe dela faz o quentão.
Terça à noite então tomamos um belo trago e saímos aquecido e levemente chapados de quentão pra nossas atividades. Eu e os outros delinqüentes de sempre ficaríamos cada um em sua árvore ciceroneando a transmissão e Tiba e Riba (bela dupla, não é verdade?) ficariam se revezando nas imitações, teriam que correr de um lado pra outro.
Seria na hora do Jornal Nacional e quando o programa começou Sergio, que novamente estava de plantão na casa da Marilia soltou um rojão quando William Boner deu seu formal boa noite em rede nacional. Liguei meu transmissor e comecei:
- Senhoras e senhores, interrompemos a transmissão da Globo pra homenagearmos esse grande filho da puta chamado Roberto Marinho e sua nefasta Rede Globo de televisão. Transmitiremos uma série de depoimentos emocionados de personalidades conhecidas.
Nesse meio tempo chegou o Tiba.
- Com vocês: Leonel Brizola.
Soltei o microfone que tinha sido previamente adaptado a um fio longo pro Tiba e ele caprichou no seu sotaque de gaúcho.
- O povo brasileiro tem que entender o motivo de minha angústia com essa morte. Minha vida perdeu o sentido, foi-se meu inimigo predileto.
- E agora: George W. Bush, presidente dos Estados Unidos da américa:
Tiba então mandou ver num sotaque de gringo em praias tropicais:
- Lamentamos com profundo pesar a morte desta importantíssimo jornalista argentino.
De repente mais um rojão, era Sergio sinalizando que a bagaça estava funcionando. Tiba correu pra árvore do Fabio e enquanto esperava pelo Riba segui discursando sobre os males que a Globo infligiu na história recente de nosso país. Jean fez uma bela pesquisa na internet sobre as filhadaputiçes globais.
Discursei abençoado por Marte, que brilhava majestoso no céu logo abaixo da lua. O céu das frias noites curitibanas é simplesmente sensacional. Ribamar chegou logo e a palhaçada continuou com Dercy Gonçalves.
- É, seu filhos de uma puta! Vou enterrar vocês todos!
Silvio Santos veio com a nova última piada nacional:
- Hahaê! Ele me ganhou! Ele me ganhou! Ameacei morrer pra melhorar meu ibope, mas ele me ganhou, morreu de verdade! Hahaêê, Lombardi!!
- É patrão! Ele saiu na frente!!
Então Anthony Garotinho se mete na conversa:
- Graças a Deus não foi nenhuma bala perdida!
- E atenção pessoal! Temos aqui a importante presença de um membro da ONG Greenpeace! ¿Primeiro acabaram com o Leão Marinho, depois foi a extinção do Cavalo Marinho, e agora, o Roberto Marinho. Enfim, uma grande perda pra biodiversidade.¿
Ribamar saiu correndo e fiquei esperando pelo Tiba novamente, sem parar a transmissão. Quando Tiba chegou perto e pegou o microfone eis que acontece a tragédia, ou a comédia, o futuro dirá. Um gordão saiu correndo de uma casa no meio da quadra totalmente indignado, se ligou na fita.
- Seus vagabundos! Vocês não tem mais nada o que fazer seus merdas do caralho!!!
Trazia um porrete na mão e me viu em cima da árvore segurando o fio do microfone. Imediatamente gritei:
- Fuja locôôooo!!!!!
Saímos correndo nos mijando de rir do jeito desajeitado que o gordão corria com o porrete batendo no ar e do vastíssimo repertório de palavrões com os quais nos esculhambava. Tivemos que nos esconder e esperar o resto da turma terminar a ação.
Apesar desse percalço foi um sucesso. Sergio nos contou que a mãe da Marilia se torcia rindo no sofá e não deixou o marido trocar de canal. Curtiram a transmissão até o final e isso nos dá uma noção do efeito de nosso ataque nos lares do bairro. Aos poucos fomos nos reunindo de volta na casa e é óbvio que a velha se ligou.
- Foram vocês, né seus desocupados?
Mostramos a ela os aparelhinhos e demos belas gargalhadas. Jantamos todos lá e depois fomos comemorar o sucesso da ação no Pacatatucutianão, um bar muito louco que fica ali no Água Verde mesmo. Os deuses nos premiaram com uma louquíssima noite de festa e Jean tirou a sorte grande: agarrou uma gata fenomenal chamada Alana.
Provavelmente o capeta deve ter dado umas quantas espetadas no jornalista morto em nossa homenagem.
- Obrigado Capetãããoo!!!!
......Volta ao índice
::: posted by ARI ALMEIDA at 11:12 AM
Mande os autores ao inferno
Segunda-feira, Agosto 11, 2003 :::
É o seguinte galera:
Nosso ataque do fim de semana foi um redundante fracasso. Tivemos seríssimos problemas "tecnicos" com os aparelhinhos que seriam utilizados. Não posso revelar aqui do que se trata, pois marcamos uma segunda tentativa pra hoje, isto é, se os malditos aparelhinhos funcionarem. Caso o problema se revele mais cascudo do que aparenta, teremos que fazer outra coisa. Mas não dá nada, não costumamos nos render facilmente.
Vamos ver. Façam figa.
Abraços do Ari
::: posted by ARI ALMEIDA at 5:07 PM
Mande os autores ao inferno
Sexta-feira, Agosto 08, 2003 :::
Confiram logo abaixo nosso delinquente protesto contra a propriedade privada (somos mesmo uns inconsequentes, cada vez mais me convenço disso) que fizemos ontem à noite. Agora já virou rotina, toda quinta-feira à noite e fim de semana tem ataque, estamos ficando metódicos, hehe.
E ATENÇÃO, O NOVO E-MAIL DOS DELINQUENTES DE CURITIBA É:
arialmeida2003@yahoo.com.br
pois aquela josta de zipmail só permite um mega e nunca apago as mensagens devido ao seu valor sentimental (ai, ai, ai).
E POR ÚLTIMO, MAS NÃO MENOS IMPORTANTE:
Estão disponíveis, na coluna da esquerda do blog, mais abaixo, quatro telas de nosso artista delinquente Sergio Augusto. Telas estas que provavelmente acabarão em mais uma casa invadida.
::: posted by ARI ALMEIDA at 6:09 PM
Mande os autores ao inferno
As Andorinhas tem Duas Casas (e não alugam a que está vaga).........Volta ao índice
(ataque treze)
Morar em kitnete é foda. A maioria só tem um cômodo e se bobear até o banheiro é conjugado. Jean e Vinicius já repartiam apertadamente aquele cubículo e desde que Sergio veio do interior está morando junto e olha que o cara é metido a artista plástico e faz uma bagunça do caralho com sua criatividade. Estávamos todos discutindo a possibilidade de alugarmos algo maior quando o neo-revoltadocontraosistema Fabio, começou a discursar.
- Aluguel é o fim do mundo! Já não concordo com propriedade privada, aluguel então, é muito porco.
- Realmente... é uma grana que só sai, que morre.
- E veja bem, é um negócio que não produz, só suga.
- Me diz uma coisa, a maioria das pessoas mora de aluguel, né?
- Em cidade grande pelo menos acho que é assim.
- Tínhamos que fazer alguma intervenção cutucando nessa ferida.
- É, mas o quê?
- Não sei...
É interessante como as inspirações às vezes brotam das coisas mais bestas. Desta vez foi Vinicius que saiu pra ir na Lanchonete da esquina pra comprar refri pra nossa tuba e voltou com um sorriso de orelha a orelha.
- Olha o cara!
- Parece aquele gato rosa e rocho do Alice no País das Maravilhas.
- Tive uma idéia pra fuder com esses caras que alugam casas.
- Ó o cara! Ó o cara!
- Eu tava voltando. Viajando. Olhando pra cima e vi um placa ¿aluga-se¿ na janela de um apê vazio. Todo escuro, absolutamente vazio, completamente limpo pra gente entrar.
- Invadir apartamento?
- E aí a gente pinta as paredes e faz altas obras de terrorismo poético.
- Não é um má idéia. ¿ comentou Fábio coçando sua barbinha rala.
- É, só que não podia ser um apartamento, esqueceram as dificuldades de se entrar num prédio do dia em que jogamos a TV? O que dirá então de entrar num apartamento...
Todos concordaram que apê era a princípio inviável, mas que era preciso fazer algo nesse sentido. Fábio sugeriu uma casa num desses bairros mais burgueses.
- Se der uma banda nos bairros vai ver uma porrada de casa grande, massa, pra alugar.
- E o alarme?
- Já andei pensando nessas paradas noutro dia e me liguei num negócio. Tem uma casas que tem cachorro cuidando. Nessas casas não deve ter alarme, se não, pra que cachorro?
- Tá, mas e os cachorros?
- A gente consegue um negócio pra eles dormirem. Tipo alguma coisa pra misturar num naco de carne.
- É Fabio, parece que você não é tão tongo quanto aparenta.
- E voce não é tão ligado quanto aparenta.
A operação aos poucos acabou sendo definida. Eu e Fabio saímos dar um rolê de buzum lá pelas bandas do Bacacheri numa tediosa tarde de domingo pra definir o alvo. Fabio é mestre nesse tipo de coisa, foi ele que escolheu o prédio pro Jean jogar a TV naquela vez. Marilia se encarregou de conseguir calmantes com sua tia hipocondríaca pros cães dormirem. Acabamos por encontrar uma casa limpeza, bala, no Bairro do Tingüi, com dois São Bernardo e um Pastor Alemão, próxima de uns terrenos baldios. A casa era grande, um sobrado com um quintal arregado. Era o alvo perfeito.
Tratamos então de conseguir o material pro ataque. Sergio batalhou e conseguiu vender umas agendas e uns cartões que ele faz e com a grana comprou uns quantos tubos de tinta a óleo. Jean comprou uns sprays. Eu giz de cera das Casas China, afinal ando duro pra caralho. Fabio imprimiu uma porrada de poemas e comprou umas fitinhas coloridas pra amarrá-los não se sabe onde e Vinicius comprou fósforos e álcool.
- Que merda você vai fazer com isso?
- Só o Jean que pode fazer surpresas agora? Na hora vocês vão ver.
- Tá bom, só não vai fazer merda, não vai foder com tudo.
Perto da meia noite de quinta-feira pegamos um latão até o Terminal do Cabral e o resto do trecho seguimos a pé. Caminhar é bom pra pensar e precisávamos de uns momentos de concentração. A uns quinhentos metros do alvo nos dividimos, Fabio, Vinicius e Jean foram na frente pra sedar as feras e eu fiquei com o Sergio, estava um pouco nervoso com essa coisa de invadir casa com cachorro.
Demoraram pra caraaaalho, mas demoraram mesmo. Umas três horas ou mais, já estávamos preocupados que tivesse acontecido alguma coisa e já estávamos pensando em ¿operação resgate¿, quando chegaram.
- Porra cara, onde é que vocês estavam?
- Os filhos da putas dos cachorros não quiseram comera a carne de jeito nenhum, tivemos que achar outra casa com um Pitbull mané que topou comer. A casa é massa também só que temos que apurar antes que aquele monstro acorde.
Fomos correndo e chegando lá pulamos uma grade alta do lado esquerdo da casa, os piás já estavam ligados das manhas. Difícil mesmo foi entrar dentro da casa. O curso de ¿chaveiros¿ que o Jean tinha conseguido pra gente foi altamente mandrake, não aprendemos a arrombar portas bosta nenhuma. As janelas do térreo tinham grades e a única janela alta disponível, que era o plano de invasão do Fabio, revelou-se de difícil escalada. Pra completar não tinha nenhuma escada ou algo semelhante no quintal.
Acabou que tivemos que arrombar uma porta. Foi um cagaço dos diabos o barulho que aquela porra fez. O cachorro se mecheu onde estava deitado e todos nós prendemos a respiração. Quando entramos na casa estávamos todos tensos.
- Galera, vamos sentar aqui no escuro, relaxar um pouco e ouvir os ruídos. ¿ eu estava tenso, muito tenso.
Todos sentaram enquanto eu fumei dois cigarros pra me acalmar. Jean foi o primeiro a se levantar e começar a trabalhar com seu spray. Primeiro fez a pichação delinqüente número um: cú. Depois foi escrevendo outras frases. ¿Toda propriedade é um roubo¿. ¿Estamos em território inimigo e o inimigo está em nós¿. ¿Na natureza não existem leis, apenas hábitos¿. Relaxei, pedi o spray emprestado e mandei ver: ¿Em mim também dói.¿
Então todos assumiram suas tarefas e damos início ao circo de horrores. Engraçado foi ver Vinicius, o homem da surpresa, só sentado nos olhando na penumbra com seu sorrisinho de Monalisa. Sergio acendeu uma vela pra iluminar e começou a jogar umas tintas na parede pra fazer uns fundos coloridos. Fabio saiu com seus poemas e fitinha coloridas pro quintal e eu comecei a desenhar umas charges toscas na parede com meu estojo de giz de cera de um e noventa e nove.
Jean esvaziou seu spray e ficou sentado com Vini curtindo o trabalho do Sergio que estava realmente ficando muito louco. Todos nós criticamos o meio artístico e suas afetação mas admiramos o trabalho do Sergio, o cara é bom. Ele já estava quase no fim quando ouvimos alguém bater palmas na frente da casa.
- Puta que o pariu! Quem será que é?
- Olha lá, rápido.
Vinicius rastejou teatralmente até a janela da frente e deu uma espiada discreta.
- É um carinha de moto, desses que fazem ronda nos bairros.
- Merda deve ter visto a vela, apaga essa porra Sergio!
Apagamos e nos escondemos todos na área de serviço perto da saída. Vini ficou de butica no cara da moto. Ele deçeu da moto, olhou no escuro primeiro, depois açendeu uma lanterna, iluminou e viu o cachorro dormindo. Apitou pra acordá-lo e todos nós quase tivemos ataques cardíacos simultâneos. Ufa, o viado não acordou, só que o ronda ficou desconfiadíssimo, sentou na moto e esperou um tempão pra ver se ouvia algo. Tava na cara que era hora de saírmos fora antes que as coisas se complicassem ainda mais.
- Vamos embora povo! ¿ chamei.
- Espera o cara sair.
Só que ele não saiu. Quer dizer, saiu e estacionou a moto na esquina próxima e montou campana no escurinho da sombra duma árvore.
- É... o cara não vai em bora tão cedo.
- Vamos embora! ¿ eu estava muito nervoso.
Sergio foi pé por pé e terminou sua genial obra no escuro mesmo enquanto fomos conferir o que Fabio estava aprontando no quintal. Fez um troço até que bem massa. Tinha umas árvores pequenas e ele fez uma autêntica decoração de natal com seus poemas em todas as árvores, de dia deve ter ficado esteticamente alucinante. Sergio voltou e fomos todos até o muro dos fundos pra saltar fora quando nos demos por conta que o Vini tinha sumido.
- Onde aquele viado se socou?
Sergio já estava saindo em sua procura quando o lazarento revelou sua tão misteriosa surpresa: um enorme clarão saindo de dentro da casa, o paunocu tinha tacado fogo em alguma coisa.
- Você incendiou a merda da casa seu bostinha!!!!
- Nada, só açendi a lareira com uma Revista Veja que encontrei no canto sala, essas revistas mereçeem, vamos embora.
- Seu mané, porque você fez isso?
- Bora! Não discute! Depois a gente conversa.
O guardião do bairro apitou, acelerou sua moto e veio rapidinho quando se ligou do fogo. Dessa vez o cachorro acordou com o barulho e avançou em nossa direção. O cara mais sem jeito do mundo chamado Sergio Augusto se amarrou pra conseguir pular o muro e levou uma senhora duma dentada na barriga da perna. Ainda bem que a calça jeans que estava usando era bem grossa e os dentes do cão não chegaram a furar a perna, mas deixou umas doloridas marcas de dentes. Quando pulamos o muro descobrimos que tínhamos dado um azar fudido, o terreno era um lamaçal infernal.
Chafurdamos feito uns fugitivos desesperados. Foi um verdadeiro recorde dos cem metros chafurdados.
- Que porra! Que zica do caralho!
Vinicius estava em êxtase por causa de sua fogueira idiota e ria feito um demente. Sentamos no outro lado quarteirão pra descansar e desbaratinar o cara da moto que iluminava o lamaçal com sua lanterna tentando nos localizar. Altos momentos de tensão, o décimo terceiro ataque não podia terminar mesmo bem. Se o treze fosse mesmo o número da sorte como o Zagalo diz tínhamos ganhado a copa da França. Cabalístico isso.
O dia já estava clareando quando saímos cabreiros nos esgueirando pelos cantos das ruas pra fugirmos do local. Enquanto esperávamos ouvimos sirenes da polícia, mas felizmente não fomos pegos, a manha foi esperar uma cara até a poeira baixar. Quando já estávamos relativamente longe corremos. Corremos muito até chegarmos numa lanchonete pra comer e beber pra poder voltar pra nossas bestas rotinas de criaturas sociais. Estávamos Exaustos, Sedentos & Famintos, apesar da descarga de adrenalina.
O tio da lanchonete estava desconfiadíssimo com nossa imundície e falamos a ele que estávamos saindo de uma festa.
- Passamos em Medicina na Federal, tio. O senhor não bota fé o quanto é difícil e o quanto estamos felizes.
Não gargalhávamos desta vez devido a estarmos podre, mas sorríamos em silêncio enquanto o lanche não chegava e no íntimo todos pensavam.
- Foi massa!!!
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::: posted by ARI ALMEIDA at 3:54 PM
Mande os autores ao inferno
Segunda-feira, Agosto 04, 2003 :::
Os Pobres Que Me Desculpem, Mas Beleza Custa Caro........Volta ao índice
(ataque doze)
Semana passada fomos a uma festa burguesa. Cada vez que vou num troço desses mais me convenço que burguês não sabe se divertir. Era uma festa de aniversário de uma colega de aula da Marília e os delinquentes foram em peso entrar de peru e comer e berber às custas dos ricos miseráveis.
Tinha gata pra caralho. Como diz o Eduf, às vezes dá vontade de desistir de destruir a burguesia, afinal elas rendem boas filhas. Tudo muito bonito. Tudo muito fashion, mas no final das contas ninguém dançou à vontade e mais uma vez: ninguém comeu ninguém. Fabio foi quem saiu mais revoltado.
- Rapaz, se nós tivéssemos ido num aniversário em Colombo, lá perto de casa, duvido que teríamos ficado sem agarrar ninguém.
- Mas eram gatas, ah isso eram.
- Gatas porque tem grana. Ser bonito custa caro, mano véio.
- É, acho que todas aquelas minas passaram a tarde toda no salão.
- E não repetem roupas nunca, jamais.
Estávamos voltando a pé, em seis pessoas se economiza dez reais na grana do latão, quando cruzamos com uma catadora de papelão pra lá de retardatária eu tive a inspiração.
- Galera, já sei de um troço massa pra gente fazer.
- Óia! Ari saindo ta tumba, o que é?
- Lembra dos meninos no Shopping? Lembra que o povo da internet caiu de pau em cima, dizendo que usamos a gurizada?
- Tá e daí?
- Daí que levamos um adulto ¿ e apontei pra catadora de papelão que já ia longe.
Ficaram pensando, em silêncio...
- E fazer o quê? Pagar um Mac Shit?
- Vocês são burros mesmo, ainda não se ligaram, baseado no que o Fabio falou, que beleza custa caro, poderemos dar uma de Xuxa, o antes e o depois, estão ligados agora?
Toparam. Toparam no ato. Levar uma catadora num salão de beleza fresco, todo metido. Foi massa porque pareceu que todo mundo se ligou na idéia ao mesmo tempo, sem ninguém falar nada. Vinicius saiu correndo atrás da catadora, demorou uns minutos e voltou correndo, quase sem fôlego.
- Marquei com ela. Perguntei como fazia. Pra achar ela. Pode ser ela. Né?
Ficou então combinado. Só que andando depois nos ligamos num detalhe: e a grana? Aquelas bostas daqueles salões frescos cobram uma fortuna. Foi um autêntico balde de água fria nos nossos planos, voltamos cabisbaixos o resto do percurso. Foi Jean quem salvou a pátria com um telefone no outro dia à tarde.
- Cara! Descobri um jeito de conseguirmos a grana.
- Que jeito?
- Surpresa, vou passar aí de moto pra pegar vocês.
Jean trabalha com entregas de moto e usou a moto do trampo pra nos buscar. Largou todos nós, um por um, na frente da PUC sem ninguém entender bosta nenhuma do que estava acontecendo.
- Olhem os calouros da facul cobrando pedágio.
Então esse era seu plano, fingir de calouro pra cobrar pedágio. Realmente, deu pra notar que em cinco minutos eles devem ter levantado uns cinco reais. Um negócio altamente rentável.
- É, só que precisamos de umas minas. ¿ Falou Vinicius, já tomando a iniciativa de ligar pra Marilia convocando as amigas mais caradura que ela tinha. Mais ou menos uma hora depois já estavamos todos a postos, camuflados e embarrados no cruzamento da Guabirotuba com a Av. Das Torres, nem muito longe, nem muito perto da PUC, perfeito.
Não foi tão fácil quanto imaginávamos. Muita gente nem olhava na nossa cara. É a crise. Levamos mais de três horas pra levantarmos os 120 Reais necessários. Voltamos pra casa cansados e torramos dez reais em chopes pra comemorarmos. Uma vez conseguida a grana tratamos de definir um dia massa pro ¿ataque¿. Tinha que ser num sábado, salão lotado, galera se enfeitando pra night... Foi Marilia quem deu o toque.
- Se é no sábado, acho melhor ligar antes pra marcar hora, até os salões mais fuleiros lotam no sábado.
Foi ela quem ligou. Marilia é uma verdadeira atriz, um dos grandes talentos esqueçidos nas periferias. Falou com um tom de voz absolutamente de madame. Quase nos rachamos de rir e ela tapando o bocal do telefone e nos xingando.
- Calem a boca seus bostinhas!
Depois foi Vinicius quem teve que se mexer. Era ele quem tinha o contato com a catadora de papelão. Saiu atrás dela no outro dia à tarde e quando anoiteceu apareceu com ela no prédio das kitinetes. Fabio pirou quando viu pela janela.
- Não boto fé que o Vini trouxe a mulher aqui!
Pirou tanto que viajou de bancar o estacinamento da corrocinha numa garagem a uma quadra dali. Foi cômico ver o funcionário da garagem sem saber o que dizer e acabar deixando estacionar ao lado de uma Mercedez preta. A mulher chamava-se Denise, era gente boa pra cacete e acabamos firmando uma baita amizade. Tinha cinco filhos e a menina mais velha cuidava da pirralhadazinha enquanto ela trabalhava.
- Rafael, o mais caçulinha, andou comigo na charrete dos três mês até um ano e meio, tá ficando em casa agora por causa daquela gripe que não cura, sabe? No inverno fica mais difícil.
Tomamos um lanche todos juntos e Jean acabou se emocionando e dando cinco motos de brinquedo de sua coleção pra ela dar de brinde pros pequenos. Nos despedimos com tudo combinado pro sábado. Sergio estava meio descrente.
- Eles podem não deixar entrar, vocês tão ligados que ela cheira mal pra cacete.
- Se não deixarem a gente se vinga.
- É, e dizer pra ela tomar banho antes é ridículo.
- Sim, só tô dizendo pra ficarem ligados, pode ser que os caras não deixem entrar.
Sábado à tarde estávamos todos ansiosos. Tínhamos dito pra Denise que ela não precisava passar em casa antes. Trabalharia demanhã, do jeito como sempre fazia, deixava a carroçinha estacionada perto das kits e pronto. Não precisava de frescura, tínhamos conversado sobre a razão daquilo tudo e ela concordava com a gente.
- Aquelas dondocas tem que me aceitar.
Fomos ao Shopping Curitiba a pé e animados, Jean ficou de nos encontrar lá. Denise estava feliz, orgulhosa de si & contava uma piada besta atrás da outra. Ela é uma grande figura, mas é fã do Ratinho e votou no filho dele nas últimas eleições.
Mal entramos no shopping e o povo já começou a olhar atravessado. Eu reparei, quando a gente cruzava pelas pessoas ninguém olhava na nossa cara, mas depois que passavam era só olhar pra trás e ver como ficcavam olhando, fazendo gestos e comentários maldosos com quem estava ao lado.
Sentamos tomar um café antes, pois estávamos quinze minutos adiantados e o Jean estava por chegar. É indignante ver que até a funcionária do café, ralé fudida como nós, nos esnobou. Trouxe o café e esqueceu o açúcar de propósito. O povo se ilude fácil com esse status podre. Fábio jurou vingança.
- Cara, a gente ainda tem que voltar aqui e aprontar uma feia com esses merdas.
- Calma, relaxa que agora estamos aqui pra outra coisa.
Estávamos terminando o café quando chegou o Jean com uma sacolinha se desculpando pelo atraso.
- O que é isso aí?
- Nada não, uma surpresinha pra depois do ataque.
Então fomos ao maldito salão. Marilia entrou antes, deu o nome Denise a funcionária falou que estava tudo pronto e que era só deitar no negócio de lavar o cabelo. Marilia então chamou Denise e ficamos olhando do lado de fora e posso te garantir: foi uma cena muito muito engraçada.
Todas, sem exceção, olharam pra nossa amiga de cara feia e torçendo o nariz. A funcionária que lavaria o cabelo ficou atônita, perdidaça, sem saber pra que lado ou pra quem olhar. Esqueci de dizer mas o cabelo de Denise era crespão e alto e duro e devia se erguer a uns vinte centímetros acima da cabeça.
Denise deitou-se a mulher começou a lavar o cabelo lentamente, parecia nervosa, parecia na verdade uma funcionária inexperiente em seu primeiro dia de trabalho. A outra que parecia ser a gerente aproximou-se de Marilia com uma prancheta com os horários marcados e perguntou com um ar de desdém:
- É pra fazer as mãos e os pés também?
- Sim, é pra fazer tudo, hoje será uma noite muito especial pra ela.
Afinal, estávamos com a grana, estávamos pagando aquela porra. Marilia ficou controlando e fiscalizando tudo, uma verdadeira pentelha, queria o trabalho bem feito.
Quando Denise sentou-se pra escovar o cabelo e a manicure e a pedicure e tudo mais, entramos todos no salão pra curtir mais de perto. Antes que alguém viesse nos perguntar algo Marilia adiantou-se.
- São nossos amigos, estão nos esperando.
Aceitaram a contragosto. O clima no salão era horrível, ninguém conversava nada e tinha três minas que ficavam se abanando pra demonstrar que não estavam gostando nem um pouco do mau cheiro da nova cliente. Não se preocuparem nem em disfarçar o preconceito.
A obra de arte no visual de Denise demorou pra caralho pra ficar pronta. O escovamento do cabelo foi uma coisa interminável. Os pés as funcionárias tiveram que lavar e escovar por completo e várias vezes, Marilia o tempo todo em cima, controlando. Nesse meio tempo entrou uma senhora esperando a vez, esperou cinco minutos e saiu resmungando que iria a outro salão mais bem frequentado. Que se foda ela.
Quando ficou pronto olhamos todos pra Denise. Apesar de 28 anos de sofrimento, dá pra dizer que ficou bonita. Todos nós a elogiamos e ficou toda boba, rindo à toa. Pagamos a conta e saímos sorridentes, deixando pra trás uma multidão de aliviados com nossa ausência.
Já estávamos na rua quando nos damos por conta da caixa do Jean com a surpresa pra depois do ataque. Ele tinha esqueçido no salão.
- Porra, deixa eu ligar lá pra ver se elas encontram.
Foi num orelhão e voltou se cagando de rir. Se torçia todo de tanto rir, não conseguia nem falar.
- O que foi cara?
- A caixa véio, tinha umas duzentas baratas dentro e um fundo falso, era só levantar que as baratas caíam. Caralho! Eu pedi pra mulher que atendeu o telefone pra guardar a caixa pra mim e foi foda, deu ouvir a gritaria do outro lado da linha!
Jean se superou. Caímos todos na gargalhada e se tem uma intervenção que pro resto de meus dias vou lembrar como bem sucedida, foi essa.
- Longa vida à Delinquencia Juvenil!!!!
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::: posted by ARI ALMEIDA at 2:33 PM
Mande os autores ao inferno
Sexta-feira, Agosto 01, 2003 :::
Na madrugada de quinta-feira pra sexta, na semana passada, aconteceu o primeiro ataque delinquente sincronizado em duas cidades diferentes: Curitiba e São Paulo. Organizamos a operação de modo que executássemos o plano no mesmo horário, duas da manhã, só pra ficar mais cabalístico.
O caos avança e os Distúrbios Cotidianos só tendem a aumentar.
Segue abaixo o relato ação dos Cangaçeiros de São Paulo nos caixas eletrônicos. Trata-se de um bando de delinquentes que usam pseudôninos de antigos heróis cangaçeiros. Realmente demais!!!!
...................
Relato dos cangaceiros de São Paulo.
Bom, nossa história foi um pouco diferente do pessoal de Curitiba. Combinado o ato e o horário místico de duas da manhã, resolvemos arranjar os preparativos. Tudo muito simples, precisávamos apenas de velas, uma galinha preta com
penas e sem cabeça, madeira, pregos e martelo.
Ficou decidido que a Maria Bonita compraria tudo, afinal, era a única, entre nós, que não trabalhava. Aparece, então, o primeiro problema, ela nunca tinha visto uma galinha morrer. Após o choque do açougueiro, um coreano que não falava absolutamente nada de português e precisava de um tradutor na loja, quem entrou em choque foi ela. Cinco e meia da tarde e ela me liga apavorada:
¿Antonio Silvino, eles tão matando ela na minha frente! Eu que escolhi ela, olhei nos olhos dela!¿
Nada melhor do que uma resposta encorajadora, nessa horas:
¿Se eu soubesse que você era tão fraca, eu mesmo resolveria o problema da galinha.¿
Problema resolvido, ela ficou mais nervosa do que desesperada e realizou o combinado. 1h30 da manhã: Tudo pronto pro ataque. Todos se reúnem do cangaço de SP e decidem crucificar a galinha na rua, lendo o texto em voz alta.
Segundo problema: Virgulino esqueceu-se que era o responsável pelos pregos e martelo, saiu para comprar junto com o Matias. Dá um tempo e recebo o telefonema de ambos:
¿Velho, problemas, não achamos a merda de um prego em nenhum lugar! Serve camisinha?¿
O mundo fica mudo.
¿Fazer o que? Arranja qualquer coisa e volta logo, olha o tempo!¿
Começa, então a crucificação. Eu e o Virgulino fazendo o trabalho sujo e lubrificado, a Maria lendo o texto e o Zé Baiano e o Matias olhando, tiveram a idéia de acender uma vela cada e ficar de cabeça baixa. Todos os carros parando para olhar o que acontecia! O pessoal que estava a pé mudava de calçada, ninguém chegava perto de medo!
Fantástico!
Entramos no carro do Matias, um carrão muito pala, todo filmado e fitas isolantes nas placas. O plano era o seguinte: O Virgulino forçava a porta já com duas velas pretas na mão, assim que conseguisse entrar, a Maria e o Zé entraria logo atrás, ela com o texto e ele com as demais velas. Dimas ficaria ao volante e eu colocaria a galinha em algum lugar bom.
Primeiro alvo: Uma agência na Av. Paulista com tantos caixas eletrônicos que seria quase impossível estar fechado, passei lá no dia anterior depois das 22h só para checar, sempre aberta. Bom, nesse dia, um mendigo dormia lá dentro, óbvio que, para não ser assaltado, trancou a porta por dentro com as coisas dele outras tralhas. Entrar era impossível, mas o Virgulino cabeça-dura queria que queria entrar lá, batendo na porta. Pedi pro Zé chamar o Virgulas, já que ele tava fazendo muito barulho o pessoal já estava estranhando.
Nisso, dentro do carro, eu e o motorista começávamos a ficar preocupados, já que havia um táxi parado em nossa frente que estranhou aquela movimentação no banco. O coitado já estava desesperado e quando os dois voltaram, ele queria sair de lá também. Deu a partida no seu táxi e tentava manobrar seu carro, a ré engasgou umas trezentas vezes, ele enfiou o carro na calçada, subindo na guia e a porcaria da ré não entrava. Nosso motorista desistiu de dirigir para ficar rindo, todo mundo não sabia se dava bronca no motorista ou se ria, afinal era deprimente o estado do taxista.
Bom, partimos para outra agência. Virgulino consegue entrar e o Zé com a Maria já acendem as velas, mas ainda na calçada. Eu saio do carro e pego a galinha do porta-malas.
Quando já estava todo mundo na calçada, o Virgulino sai do banco e fala pra gente:
¿Olha, meu amigo disse que não podemos acender nada lá dentro¿.
A Maria responde (mais preocupada em acender as velas do que com a frase):
¿Tudo bem, a gente acende aqui fora mesmo¿.
Eu olho pro Virgulino e falo:
¿Pessoal, vamos embora, aqui não dá¿.
E a Maria com o Zé:
¿Magina, vai aqui mesmo!¿
Eu:
¿Não, vamos embora, porra, olha o amigo do Virgulino!¿
Eram dois seguranças, com cara de quem odeia vela.
"Tudo bem, a gente vai embora, então¿.
Unanimidade.
Procuramos outros caixas, todos trancados. Desânimo geral. Eu:
¿Pessoal, vamos fazer o seguinte, então, pegamos as galinhas e deixamos do lado de fora, com a carta pregada na porta com cera de vela, então. Fazer o que, né?¿
¿Tudo bem, então, vamos tentar naquele ali¿. Fala o Zé.
Mesmo esquema, Virgulino sai do carro, tenta acender as velas.
¿Pelo menos tenta abrir a porta, só por desencargo¿, grito do carro.
Ele tenta e consegue!
A porcaria da última porta estava aberta!!
A galera invade tudo de uma vez só e acende todas as velas do pacote, eu coloco as galinhas do lado do caixa e prego o texto, com cera de vela, em cima do painel do caixa.
Perfeito, um caixa benzido e macabro, ao mesmo tempo! Operação concluída com sucesso!
Ficou muito loko o visual depois do caixa. Nisso o pessoal do lado de fora morrendo de medo, ninguém chegava perto daquele caixa! Primeiro por causa do carro pala do meu amigo, depois que a gente colocou tanta vela lá dentro que dava pra ver o cenário todo do lado de fora, com as galinhs e tudo mais!
Todos fomos pro bar comemorar, já era tarde mesmo, todo mundo iria acordar com sono pro trabalho, então, nada melhor do que emendar uma ressaca!
Realmente, Deus deve ser um vândalo.
::: posted by ARI ALMEIDA at 2:16 PM