Mande os autores ao inferno
Sexta-feira, Outubro 31, 2003 :::
Aí Galera de Delinqüentes!
Hoje tem tudo pra ser o pior dia da minha biografia. Estou mal, mal, bad, mal, bad, bad, bad. Tontura, febre, fraqueza e confusão mental (tá, eu sei que vocês vão dizer que confusão mental é normal em mim, mas dá um desconto pro dodói aqui).
A noite de ontem foi horrorosa. Tinha dois porcos espinhos fazendo sexo selvagem dentro do meu intestino. A cada meia hora eu levantava pra tomar soro caseiro e cagar, não sei se errei a dose ou se foi overdose mesmo, o que sei é que a porra da dor passou pro estômago e além de cagar (ou tentar, pois não saia mais nada) passei a vomitar. Isso até a madrugada chegar, pois depois bateu uma febre meio maluca e não sei se dormia ou desmaiava, e comecei a ter uns delírios/pesadelos horríveis. Aquele gordo peidão do ataque dos Cds me perseguia constantemente, uma coisa maluca, badtrip da pior espécie.
Lá pelas quatro da manhã resolvi abandonar o porão e sair à procura de um posto médico. A porra do posto só abriu 07:30 e quando chegou minha vez a moça perguntou pelo cartão do SUS. Cartão do SUS? Não tenho.
- Então o senhor tem que trazer um comprovante de residência que a gente faz um no ato.
Lá vai o manezão de volta pro porão pedir pra dona (que mora na parte de cima) se ela empresta uma conta de luz.
Lá vai o manezão de volta pro posto. Ainda por cima me bateu uma tontura fulminante e caí na calçada e cortei a têmpora esquerda. Sangrou pra cacete!!!
Nova fila, chega minha vez e a moça:
- Não está no seu nome.
Vou abreviar, tive que discutir com a responsável pelo posto e quando resolvemos a questão do cartão o médico tinha ido embora. Indicaram um outro posto no outro lado de Curitiba. Sem chances, não chegaria vivo lá. Só que tava tão mal que tive que pedir ajuda. Liguei a cobrar pro trampo do Jean e ele pediu o número do orelhão onde eu e estava e em quinze minutos retornou a ligação. Não era ele, era a Milene que tá namorando o Fabio.
- Minha vó é benzedera e mora na fazenda Rio Grande, eu vou contigo lá.
Lá vai o manezão de Ligeirinho pra Fazenda Rio Grande (cidade satélite de Curita, não é uma fazenda não). Chegando lá a velha constatou que eu tava mal mesmo. Grandes novidades! Só que ela reparou numas manchas na minha pele que nem eu tinha me ligado, achou que meus rins não estão funcionando direito e provavelmente tem algum vudú com o fígado também. Então me benzeu.
Confesso que é meio apavorante, foi a primeira vez que fui benzido. Ela enfiou uns pauzinhos no chão e fez tipo uma armação de barraca. Deu uma folha mim mascar e umas outras folhas pra colocar na minha barriga e nas costas. Deitei na ¿barraca¿ e juro que tive a sensação de que minha barriga estava aquecendo. A maldita folha que eu mascava era tão amarga que amorteceu toda a boca. A vó da Milene começou a fazer uns gestos estranhos com uma faca enferrujada e resmungar coisas. Não sei do resto porque ou desmaiei ou dormi. Logo depois Milene me acordou e me deixou aqui no trampo.
O filho de uma égua do meu chefe falou que o irmão dele é casado com uma médica e prometeu desenrolar uma consulta pra mim. Pedi pra ele esperar até a tardinha pra ver se eu melhoro, afinal aquela benzedura deve funcionar, o estômago já parou de doer um pouco. Mas o tarado do porco espinho continua trepando com a porca espinha, cada orgasmo que eles tem eu me contoço todo.
Porra! A porca espinha vai engravidar, caralho.
::: posted by ARI ALMEIDA at 12:46 PM
Mande os autores ao inferno
Quinta-feira, Outubro 30, 2003 :::
Um Dia a Diarréia te Arria
O mocó que encontrei no riacho do alto Boqueirão pra fugir dos tiros se revela, a cada dia que passa, uma péssima idéia. Não morri com um tiro, mas acho que vou morrer cagando.
Nas carreras, com o fôlego nas últimas e me arrastando pelo cano de esgoto respirando pela boca provavelmente comi alguma merda ou eufemísticamente dizendo, ingeri alguns zilhões de clorifórmios fecais.
Estou entrando no terceiro dia de caganeiras intensivas, já torrei quase todos os rolos de papel higiênico da firma, já terminei de ler o Flahbacks do Dr. Leary (não consigo cagar sem ler) e meu cú está virado num chuveiro desgovernado. A coitada da senhora genteboa que além de fazer ótimos pães caseiros é responsável pela limpeza do banheiro, já desistiu de manter aquela privada nos trincos e agora tenho uma privada só minha. Também me trouxe soro caseiro pra este nenêm delinquente aqui não focar desidratado.
Mas sabe o que mei deixou mais puto? É que me atrasei no trampo pq tive que descer do ônibus duas vezes pra cagar e não tinha banheiro por perto e teve que ser atrás do muro mesmo.
Imaginem que merda: Ari almeida morre cagando. Seria a manchete mais sonhada pelos Hipócritas do Império.
Agora me dêem licensa que vou cagar de novo...
::: posted by ARI ALMEIDA at 9:49 AM
Mande os autores ao inferno
Terça-feira, Outubro 28, 2003 :::
Aqui está: Em primeira mão e sem revisão, o ataque de ontem, que nos deu uma tremenda lição.
Os Anjos Delinquentes Do Bem & Seus Poemas Proibidos
(ataque vinte e sete)
Dizem que no Oriente os caras misturam poesia com música e que o efeito é uma verdadeira catarse coletiva. Aqui no Maravilhoso & Moderno & Civilizado Mundo Ocidental a poesia não tem essas regalias. Salvo gloriosas exceções tipo o hip-hop, o pancadão carioca, e os repentistas do sertão, poesia aqui nestes pagos é considerada um troco chato pra caralho. Coisa de acadêmico afetado, na maioria das vezes.
Desde o dia em que distribuímos poemas com estilingues que esquentamos nossas cabeças a procura de novas soluções. Sábado fui obrigado a trabalhar o dia inteiro, e em meio ao tédio e o marasmo recebi a ligação de um Sérgio Augusto animado, quase eufórico.
- Ari! pintei uns cartões e escrevi uns poemas que ficaram tão legais não podemos deixar parados aqui na kitnete.
- Não da pra distribuir cartões com estilingue.
- Tô ligado, tava pensando em outra coisa.
- Que coisa seu Monstro?
- Invadir casas, meu velho Ari, invadir casas.
- Você? O Rei dos Cagões falando isso? De onde saiu essa sua macheza toda?
- Vai te fuder! O que eu queria era que esses cartões se transformasse em Misteriosas & Enigmáticas surpresas.
- Explica melhor.
- Não, vem aqui na kit que eu te explico melhor.
O cara tava animado mesmo, cheguei lá e o cara tava numas de fazer as invasões naquela mesma noite. Jean & Fábio de mau, só colocavam defeitos em tudo.
- Tá, mas fala de uma vez do que se trata, o que tu quer fazer com esses cartões.
- Agente entra nas casas e abandona os cartões em lugares estratégicos tipo no meio de um livro, no bolso de uma roupa ou numa gaveta.
- A gente entra nas casas... olha a do cara, até parece que e façinho assim, melzinho na chupeta, a gente entra, deixa lá e pronto. Se, liga veio!
- Não vai ser a primeira vez...
- Tá, mas a gente tinha um método, tínhamos uma engenharia toda por trás.
Caímos todos na gargalhada e Sérgio acabou ficando meio invocado, disse que ele definiria os alvos e ele mesmo, bolaria todo o roteiro do ataque.
- Cara decidido!
- Olha que isso e raro entre poetas e artistas plásticos, hein?
Não deu nega, o cara sumiu o domingo inteiro. Voltou com um Mapinha Mandrake em mãos.
- Aqui esta! Tenho cartões pra quatro casas e escolhi seis, uma margem de erro de duas casas para o caso de pintar sujeira.
Analisamos cuidadosamente seu plano e chegamos à conclusão que sim, era possível. O monstro Viajão finalmente estava ficando metódico. Apesar de termos criticado sua idéia a principio, estávamos todos doidinhos pra fazer mais invasões. Fora a eficiência e poesia ilegal da ação a adrenalina e altamente recompensadora. Preparei uns papéis adesivos com Mensagens Discordianas copiadas do blog do Fong pra colar nas paredes.
Marcamos a parada pra segunda-feira à noite. O bairro que o monstro escolheu? Alto Boqueirão. "Voarei por toda a periferia". E tava uma noite nojenta: Fria, Nublada & com Vento. Fábio catou a última garrafa de vinho que tinha sobrado do último ataque e fomos bebendo aquela coisa caríssima pra aquecer os ânimos e por que não dizer? Criarmos um pouco mais de coragem.
O bairro era uma escuridão só. Esse tão alardeado urbanismo curitibano é uma tremenda fraude. Consiste apenas em esconder o que não deve ser visto. Fora o apartheid social violento que ele gera, mas esse é um assunto revoltante demais pra ser falado aqui. A questão é que nesse caso o descaso da Prefeitura Municipal de Curitiba nos foi útil. Sérgio era o maestro da vez.
- Pra termos acesso a primeira casa precisamos ir por aqui.
O cara estava orgulhoso de si, depois de troçentos ataques ele, O Mais Bundão, estava se sentindo um verdadeiro delinqüente: Ousado & Abusado.
Era um matagal do caralho cheio de Pega-pegas e Amores-de-sogra. Nada de lanternas, fomos no escuro mesmo pra minimizar as chances de sermos descobertos.
- Cara! Não tinha um caminho mais fácil?
- Não, tem que ser por aqui mesmo.
O matagal terminava numa cerca de madeira toda podre e dava num quintal cheio de tralhas e ervas daninhas. Pulamos todos e cada um tratou de encontrar um modo de entrar na casa. Alguns minutos depois Vinícius veio animado.
- Vocês não vão botar fé, mas a porta da cozinha está aberta.
É incrível como as pessoas fecham todas as portas da frente e se descuidam com as dos fundos. Como estava sendo perigosamente fácil, pedi aos outros que esperassem e entrei com Sérgio pra depositar os "presentes" nos locais apropriados.
Como eu já imaginava a casa não tinha nenhuma estante com nenhum livro que pudéssemos colocar no meio. Sérgio ficou analisando a sala e a cozinha enquanto fui dar uma geral no resto. Duas crianças dormiam candidamente com a porta do quarto aberta enquanto o que parecia ser o quarto do casal tinha sua porta fechada. Peguei um cartão colorido e depositei dentro da sandália da menininha. Sérgio colocou um cartão estilosamente em meio as flores do vaso da sala e um pregado na geladeira, junto aos imãs bregas que elas costumam ter.
Por último colei minha Mensagem Discordiana na parede:
¿Seja cauteloso com a bebida, ela pode te levar a atirar em políticos ¿ e ERRAR.¿
Em tempo recorde saímos fora com a primeira missão cumprida. A segunda casa foi bem mais foda, não tinha nenhuma porta de cozinha aberta. Mas tinha uma janela com possibilidades de arrombamento. Tudo o que precisávamos era de algo fino e comprido pra soltarmos o trinco.
O gambiarreiro Jean se dispôs a dar um jeito. Voltou até o quintal das tralhas e depois de longos minutos apareceu com uma varetinha de metal, e deu inicio as exaustivas tentativas. Tentou, tentou & tentou e passou a bola pro Fábio. Fábio também fracassou e depois de mais de meia hora tentando passou a missão pro Vini.
Vinicius bancou o ignorante e começou a dar pequenas batidas no trinco até que o pior aconteceu. A janela abriu mas a vareta caiu fazendo barulho. Todo mundo gelou. A macheza do Sérgio evaporou-se.
- Vamos embora galera! Vamos embora!
- Calma! Relaxa! Vamos ficar ouvindo.
Passaram-se longos minutos de tensão. Nenhum ruído. Aparentemente ninguém se ligou. Dessa vez foi Sergio & Vinicius, o homem que abriu a janela. Tinha gente pra caralho dormindo lá e também tinha uma estante com meia dúzia de livros, mas como provavelmente nenhum daqueles livros eram abertos a séculos escolheram outros lugares.
Num quarto tinha uma vovó dormindo e roncando. Ela merece, ganhou um lindo cartão.No meio de uma lista telefônica e outro glamourozamente pendurado numa iluminária. Minha mensagem: ¿Aquilo que não é proibido é obrigatório¿, ficou pregada na parede do banheiro.
Já estávamos impacientes quando os guris voltaram. Estavam estressados pra caralho por causa da lotação da casa.
- Vamos andando, rápido!
As próximas casas ficavam a alguns quarteirões distância e eram todas de madeira, bem simples. Sérgio confessou que estava nervoso demais e passou os cartões pra gente fazer o serviço. E não era fácil, a maioria das csas tinha cães e faziam uma zoada dos diabos. Depois de várias vistorias escolhemos uma verde. A porta era fechada por uma tramela, com um canivete Jean conseguiu abri-la facilmente. Já estávamos dentro quando nos damos por conta que num dos quartos tinha uma televisão ligada. Será que estavam acordados? Será que não? Antes que descobríssemos jogamos um cartão de qualquer jeito mesmo, em cima da mesa. Colei minha mensagem e tratamos de dar o fora dali logo. A Mensagem Discordiana da vez: ¿Dificuldades são como criança, elas só crescem se você as alimenta¿. Na hora de fechar a porta a filha da puta rangeu muito mais alto do que ousávamos imaginar que uma porta pudesse ranger. Um grito assombroso veio do quarto da TV
- Quem caralho que ta aí???
Os estrondos de passos pesados vindos do quarto foi a última coisa que ouvimos. Saímos correndo desenfreadamente até onde estava Sergio.
- O que foi? O que foi?
- Sujou! Sujou! Fuja lôcooooooo!!!
A merda é que tinham dois carros passando na rua, seria sujo se ele visse um bando de maloqueiro correndo pela riua em plena madrugada. Olhamos pros lados em total desespero, o dono da casa chegou na porta, acendeu a luz e nos viu. Puta que o pariu! Ele nos viu!! Jean deu um berro:
- Por ali, cara! Por ali!!!
Um córrego fedido era a única opção de fuga. Fui o primeiro a me jogar no esgoto e chafurdar na lama podre. Cara, o desespero foi grande. Estávamos nos achando muito românticos distribuindo poemas daquela maneira e não esperávamos por aquela reação. E não foi só aquilo, não. Eu não tinha dado nem dez passos quando ouvi um tiro. Caralho! O cara estava estava armado e estava correndo atrás, parecia disposto a nos perseguir no córrego mesmo. Na hora que ele deu o segundo tiro nós praticamente voávamos dentro do córrego, eu particularmente não senti a água nem o mau cheiro, era o mais puro instinto de sobrevivência em ação. Nem olhava pra trás, nem sabia se estavam todos bem.
Então todos os deuses do Universo fizeram uma força tarefa pra nos ajudar e construíram um bueiro de esgoto na lateral esquerda do córrego e me enfiei dentro chamando os outros. Mais tiros & mais tiros, o Alto Boqueirão em sua noite Bagdá. Felizmente todos conseguiram se enfiar ali. Rastejamos uns dez metros pra dentro daquele cano contra a correnteza. Eu estava sem fôlego, sou capaz de dizer que ontem devo comido merda, muito provavelmente. Quando o breu era total paramos pra descansar. Ficamos horas ali dentro, perdemos a noção de tempo. Sérgio, o maestro do ataque ficou desconsolado.
- Pô, que foda, que foda, que foda!!!
Quando nossos narizes recuperar a sensibilidade e caímos na real de onde estávamos saímos fora. Cagaço total. Nos embrenhamos por entre os arbustos e só respiramos sossegados quando já estávamos a quilômetros do local do crime. O resto dos cartões foram abandonados no esgoto mesmo, um triste fim pra eles, mas se pensar bem, um belo fim para eles.
Foi o maior susto da nossa carreira na Delinqüência, mas tem males que vem pra bem (ou vem de trem, como dizem os pessimistas) e Sérgio fez um belo verso/resenha
.
- Toda poesia merece um tiro, nem que seja um dia.
Legal, recuperou nosso humor e até damos umas risadas imaginando que o cara da arma não entendeu bosta nenhuma de nossos objetivos. Mas como ficou escrito com óleo queimado na grama da velha burguesa: ¿Embora você não tenha entendido nada, isso tudo é maravilhoso.
::: posted by ARI ALMEIDA at 1:07 PM
Mande os autores ao inferno
ONTEM À NOITE ROLOU ATAQUEEEEE!!!
Desta vez este delinquente que vos escreve não está com ressaca, mas sim com um sono dos diabos. E como hoje tinha uns dinheiros no bolso comprei pó de guaraná, extrato de guaraná, tomei café forte com conhaque e estou chapadão. Tem tanta guaraná nas minhas artérias que minhas mãos suam, não sei se o efeito do guaraná ou se da desgarga fulminante de adrenalina de ontem. Não sei, mas também não quero saber.
Aguarem, provavelmente ainda hoje estará aqui a narrativa daquela palhaçada de ontem.
abraços a todos.
Ari The Delinquen
::: posted by ARI ALMEIDA at 8:25 AM
Mande os autores ao inferno
Segunda-feira, Outubro 27, 2003 :::
The Day After
Pessoal, se lembro bem esse é o primeiro ataque onde a gente teve a chance de saber das reações da vítima. Na vez da invasão da casa da Jú até rolaram umas baixarias entre eles dois, só que a pedido deles, nada foi divulgado.
Só que desta vez é diferente. A Milene é gente boa pra caralho e pelo que tudo indica, Fabio agora é um homem comprometido. Ontem ela conheceu a gloriosa kitnete dos Delinquentes e passou uma resenha completa da reação da Madame Do Mal. Ela ficou absolutamente indignada e no ato telefonou pra polícia. Acontece que os deuses também são delinqüentes e parece que ela já é meio folclórica por chamar a polícia por qualquer bobagem. Os dois PMs que foram averiguar a ocorrÊncia disfarçaram um monte só que não conseguiram esconder que não levaram a sério a hipótese de a casa ter sido invadida por ladrões.
A tonga da velha não deu falta nem dos vinhos e nem dos queijos e como a princípio não ocorrera nenhum furto os policiais saíram de lá desconfiando de que se tratava de alguma sacanagem de algum sobrinho dela. Apesar dela morar sozinha o nosso ataque até que foi bem divulgado. Segundo Milene vários vizinhos e parentes foram chamados pra ver tudo na esperança de terem alguma pista pra descobrir quem foi. Óbvio que não chegaram a nenhuma conclusão. No domingo ela foi à missa levando algumas marmitas pra distribuir aos pobres (nisso fomos eficientes, ela olhará com outros olhos para os mendigos).
::: posted by ARI ALMEIDA at 12:27 PM
Mande os autores ao inferno
Sexta-feira, Outubro 24, 2003 :::
Pessoal, estou com uma ressaca lazarentas e com o resto de minhas forças consegui digitar o relato do ataque de ontem à noite. Não reparem se em soar confuso. Se a narrativa não ficou boa, pelo menos foi foi feita "no calor dos acontecimentos" ou seria "no inferno da ressaca"?
A Madame, Os Poodles, A Cegueira & O Castigo
(ataque vinte e seis)
O problema da burguesia não é o fedor. O problema da burguesia nem é a ânsia de riqueza. O que irrita na burguesia é a ostentação. O que me trinca o saco é que mesmo com a miséria que é suas vidas, iludem-se que são superiores e o pior, não desperdiçam uma única oportunidade de exercitar essa ilusão de superioridade.
Essa semana a dança do acaso me colocou diante duma situação dessas. Estava trabalhando, numas carreiras pra entregar uns documentos, almoçar e voltar pro trampo, pelas bandas do Batel. Então cruzei com uma mendiga. Odeio rótulos, chama-la de mendiga é matar a descrição. Era uma senhora com três crianças, todas com menos de cinco anos, uma no colo, uma que recém aprendeu a falar que alcançava as coisas e a maiorzinha espertinha, que ajudava a mãe a catar lixo.
Eram três menininhas e as três choravam. A iniciante na linguagem não tinha como esconder a sinceridade!
- Eu tô com fome!
Tive que reduzir o passo com aquilo tudo e então acabei vendo o que preferiria não ter visto. Vi sair pelo portão a dona da casa, madame padrão, a descrição dela deve ser o que aparece no Aurélio quando se procura por isso, com dois quilos de cosméticos e não-sei-que-lás no rosto e dois poodles. Odeio poodles. Nada contra animais. Admiro todos que defendem os direitos dos animais e todo mais, mas odeio poodles.
Com as crianças chorando e meio que sem saber o que fazer a senhora perguntou se a madame tinha alguma moeda.
- A senhora tem alguma prata pra me ajudar minha senhora?
Então a madame faz o infazível, ignora a mãe de três filhos e segue com seus poodles. Ignorou por completo. A mamãe olhou pra mim e sei lá se foi o fato de eu ter parado quando vi aquilo ou não, o que sei dizer é que ela teve um acesso de indignação, correu até a frente da madame e perguntou:
- Ôu! Eu estou aqui?! Não está me vendo não?
E não é que filha da puta continuou com sua cegueira? Nem os poodles deram bola. Aquilo me emputeçeu de uma maneira que nem que eu contasse até mil conseguiria me conformar. Intimei ela.
- A senhor está precisando de alguma coisa?
- Olha moço, o que o senhor puder ajudar...
Só tinha um ticket-refeição pra almoçar no centro, um vale-transporte e uns centavinhos que não fariam a menor diferença. Foda-se o almoço, apresentei o ticket.
Foi massa. Deu pra ver o brilho nos olhos dela.
- Muito obrigado, seu moço! Deus te abençoe! O senhor não sabe como é difícil. Tá vendo essa rua toda? Os lixos tão tudo cadeados.
Na mão ela tinha uma sacolinha de supermercado com alguns restos de comida.
- O que a senhora tem aí?
- Frango assado. Tava tudo aí no lixo da casa dessa senhora dos cachorros. O resto dos lixos tavam todos chaveados.
Peguei aqueles restos de frango e depois de esperar a senhora ir embora almoçar com suas crianças olhei pra casa da madame dos poodles. Tinha uma janela aberta do lado esquerdo. Analisei a distância e concluí que era possível. Peguei cocha por cocha, osso por osso dos restos de frango e mandei ver na janela. Já estava terminando quando ouvi alguém gritar no outro lado da rua e tive que saír correndo.
Não consegui engolir essa história direito. À noite contei pros piás na kitnete e não teve um que não ficasse revoltado. Vinicius se exaltava em sua fúria.
- Cara, precisamos matar essa velha!
- Uma morte lenta e dolorosa...
- É! Fazer picadinho de seus cachorros e fazê-la comer tudo, matar a lazarenta de overdose de poodles.
Jean foi o único a ficar quieto, com um estranho brilho no olhar.
- Já sei o que fazer.
- O quê, seu monstro?
- Vamos invadir a casa daquela filha de uma puta.
- Invadir? Mas é uma mansão brô, deve ter quinhentos tipos de alarmes e proteções.
- Calma! Nós não precisamos fazer as coisas na louca, de qualquer jeito.
- E o que Vossa Delinqüência sugere?
- A gente pega nossos uniformes de gari e finge estar trabalhando no quarteirão da casa pra analisar com calma todas as possibilidades de entrar lá.
Uma excelente idéia. Cada vez mais me convenço de que aqueles uniformes com logotipo da Prefeitura Municipal de Curitiba foram uma grande sacada. Os desempregados Fábio, Vinícius & Sérgio foram convocados para a missão, durante a semana à tarde. Quarta-feira eu estava nas masmorras de meu trabalho quando Fábio me liga entusiasmado.
- Ari do céu! Você não bota fé!!
- O que sua bixa?
- A velha tem uma empregada muito gostosa.
- Tá, mas e daí?
- Daí que Sérgio escreveu uns hai-kais apaixonados, entreguei a ela quando estava indo na padaria buscar o café da tarde pra patroa e ganhei a gata.
- Ganhou a gata??
- Só! Vamos sair tomar umas beras hoje à noite.
Não podia ser mais perfeito. Fábio descolou informações importantíssimas. A velha é viuva, tomas uma boletas pra dormir e desmaia na cama e nenhuma empregada agüentou trabalhar lá por mais de seis meses, tamanha a Mesquinhez & Arrogância da patroa. Saí do trampo na quarta crente que faríamos a invasão de noite. Fabro porém, pediu mais um dia para os preparativos & as investigações.
- Milene me falou que amanhã à tarde a patroa vai sair e me convidou para ir até lá.
- Dentro da casa? Sério?
- Bem isso mesmo, se pedíssemos a deus e fossemos atendidos não seria tão perfeito.
Traçamos então o mais perfeito plano de invasão de nossas carreira. Pelo menos era o que achávamos. Não que tivéssemos grandes facilidades, afinal todas as janelas e portas tinham grades, mas pelo menos tínhamos um ¿mapa¿ do território, sabíamos que não tinha alarme e ainda contaríamos com as instruções de Fábio, o especialista mor em definição de alvos.
Esperamos a meia noite e saímos a pé e em silêncio: Momentos de Concentração. Jogamos todo o material que utilizaríamos na mochila que Vini levava nas costas e seguimos Firmes & Confiantes. Sabíamos que a tarefa não seria nada fácil. O muro que tínhamos que pular ficava numa avenida movimentadíssima, mesmo de madrugada, e tivemos que nos separar uma quadra antes. Foi um por vez pular o muro, uma coisa estressante pra quem fica por último, como foi o meu caso. Saber que as possibilidades de alguém se ligar na parada depois de quatro neguinhos pularem o mesmo muro são altas é foda. Quando saltei vi que se tratava do quintal do único estabelecimento comercial do quarteirão. E era pequeno e era apenas o interlúdio entre dois grandes problemas.
O primeiro grande problema era atravessar o quintal da casa vizinha. Tudo iluminado, não tinha cachorros, mas a luz era muito forte mesmo. Sujo pra cacete. Colocamos nossas ¿tocas zapatistas¿ que guardamos desde a noite dos poemas nas vidraças e fomos um por vez de novo. Dessa vez fui o primeiro. Fui também o primeiro a encarar o jardim da megera.
Era bonitinho. Mas certamente ordinário. Eu sei que é foda, mas a culpa foi dela e naquele momento a velha era a encarnação do mal. Tínhamos que sacaneá-la. Os piás chegaram logo e Fábio foi logo dando os toques.
- Tão vendo aquele pé de manga ali? Temos que subir nele e saltar em cima do telhado.
Era o grande problema número dois. O único modo de entrar na casa era pelo telhado. Segundo Fábio tinha uma banheiro nos fundo, próximo do quarto da velha que tinha um alçapão que dava acesso ao sótão. Subir a árvore e saltar no telhado foi fácil, emprenho foi soltar as telhas pra entrar. Elas estavam muito bem presas e Jean, depois de demorar a chegar devido a uma misteriosa frase que escreveu com óleo queimado na grama, teve que arrancar um galho da árvore para alavancá-as. Como era de se esperar o sótão tava escuro pra cacete.
Quando acendemos a lanterna notamos que o finado marido era fã do Reader´s Digest, caixas e mais caixas da revista, mofadas e em estado de decomposição. O tampão de madeira foi fácil de abrir. Fábio então nos olhou com uma expressão grave.
- Piazada, agora é o momento mais importante. Vocês ficam aqui, eu vou primeiro e checo se as portas dos quartos delas estão fechadas. Se não tiverem tenho que fechar. Depois eu fecho a porta que tem na entrada do corredor dos quartos, se conseguir isso nenhuma das duas vai ouvir os barulhos, se fizermos algum. Aí eu volto e dou o toque pra vocês descerem e lembrem-se: tem dois cachorros no quarto da bruxa, nada de barulho!
Desceu e ficamos no aguardo. Não sei se o tempo se dilata nestas circunstâncias, mas a verdade é que passaram dois séculos até que ele voltasse.
- Foi foda, a porta rangia e levei dez minutos pra fechar cada uma, agora desçam!
Com todo o cuidado do Universo descemos e cada um tratou de pegar seu material de ataque. Jean estava morrendo de curiosidade de conhecer a despensa, geladeira e descobrir se tinha alguma adega. Vinícius foi no armário onde estavam as comidas dos poodles e encheu as sacolas de bilhetes com frases chupadas dos comentários de Rogério Coacho no blog dos Delinquentes: ¿Seus cachorros comem enquanto irmãos passam fome¿. "Esta comida foi desenvolvida para cachorros de todas as raças mas os donos que pensam como Hitler podem consumir sem contra-indicações". "Se não souber ler pergunte a sua arrogante dona". "Coma tudo crianças. Para não sobrar nada aos mendigos que reviram a lixeira". "Esta ração deixa o pêlo macio e o latido mais forte contra os pobres de sua rua."
Fábio ficou de butuca na porta do corredor pra ver se alguma das duas acordava e emitindo constantes pssssius. Eu e Sérgio nos encarregamos do resto. Sérgio colou bigodes e chifres adesivos nos retratos da parede. As paredes era de um azul de tonalidade forte e me desatamos a escrever frases com giz. ¿Os Mendigos Invisíveis Estiveram Aqui¿. ¿A senhora foi selecionada pra pagar os pecados da burguesia¿. ¿Tome cuidado com os Mendigos Invisíveis¿. ¿Dinheiro não pode comprar felicidade, mas pobreza não pode comprar nada¿.
Vinícius acabou primeiro, se juntou a nós e ficamos esperando Jean. Depois de alguns minutos ele apareceu carregando sacolas.
- Vinho, muitos vinhos e queijos, muitos queijos. Teremos festa na saída.
- Maaaassa!
- Calem a boca seus merdas! ¿ Fábio era o mais visivelmente estressado.
Pediu pra darmos um tempo, abriu a porta do corredor e foi escrever com giz na parede diante da porta do quarto da velha: ¿Não abra seus olhos Dona Jassira, a senhora não ira gostar do que vai ver¿. Imediatamente tratamos de sair fora, foi bem mais difícil subir de volta no sótão. Encaixamos as telhas de Mal & Porcamente saímos em fuga desesperada. Não sei porque, mas na hora de fugir a adrenalina sempre dispara. Nessas hora mal se consegue pensar, atravessamos todos juntos o quintal vizinho iluminado e em segundo estávamos na rua, gargalhando de nervosismo.
Corremos até uma praça próxima e quando nos jogamos na grama desatamos a rir.
- Cara! Imagina a cara da bruxa quando ver aquilo...
- Foda! Muito foda!!!
Abrimos os vinhos provavelmente caríssimos e devoramos os queijos. Já estava bêbado quando me liguei que nem tínhamos visto o que Jean escreveu com óleo queimado na grama.
- Fala cara, o que era?
- ¿A senhora não entendeu, mas isso é maravilhoso¿.
Quem passasse na rua ao longe provavelmente veria umas das mais loucas cenas desta metrópole, cinco malucos fazendo um pique-nique etílico nos confins da noite.
Realmente, isso é maravilhoso.
::: posted by ARI ALMEIDA at 12:58 PM
Mande os autores ao inferno
Bom dia doenteeees!
Aquela bruxa do mal teve o que mereçeu. Se os meus cálculos estiverem certos neste momento (09:15) ela já deve estar acordada tento acessos de fúria & indignação. O foda é que não dormi, bebemos um monte depois do ataque e admito: ainda estou meio bêbado. Não tô conseguindo nem me concentrar direiro. Café, café, café & mais café. Duro que estou, não pude comprar guaraná e sem esse pózinho mágico não consigo acordar.
Na hora que a bebedeira passar começarei a digitar o relato do ataque.
Espero pela compreensão de todos e espero também por digas de meus colegas de aventuras etílicas pra curar essa porra de porre o quanto antes possível.
Abraços do Ari O Vândalo O Delinquente & O Bebum.
::: posted by ARI ALMEIDA at 9:17 AM
Mande os autores ao inferno
Quinta-feira, Outubro 23, 2003 :::
Hoje é dia 23! Salve Discórdia!!! Fnord!
Embora ninguém tenha perguntado, o ataque que era pra rolar ontem foi adiado pra hoje. Quinta-feira à noite sempre foi a data oficial e em time que está ganhando não se meche. Não posso abrir o bico sobre nenhum detalhe a mais pq levei belos pitacos dos outros Delinquentes ontem à noite pq revelei algumas informações sobre o ataque. Aquela gurizada é meio paranóica, hehehe.
Provavelmente amanhã trarei boas notícias, do contrário, me levem cigarros na cadeia, viu pessoal?
::: posted by ARI ALMEIDA at 1:28 PM
Mande os autores ao inferno
Quarta-feira, Outubro 22, 2003 :::
JAMAIS SE LEVE A SÉRIO DEMAIS
::: posted by ARI ALMEIDA at 2:23 PM
Mande os autores ao inferno
NOTÍCIAS DO FRONT
A idéia era efetuarmos ontem nosso mais novo ataque.
Durante a tarde os Vadios Fábio & Vinicius vestiram nossos uniformes de gari e passaram a tarde toda "trabalhando" no quarteirão que abriga nosso alvo. Só que um fato inesperado fez com que adiássemos por um dia a operação, Fábio conseguiu contato com uma empregada da casa e ontem À noite foram beber juntos.
Altas facilidades, as chances de sucesso agora são altas, fizemos a ficha completa da "vítima".
Creio que amanhã teremos novidades por aqui.
Saudações subversas a todos! (como diria o Mestre Sassafrás)
Ari Almeida o Delinquente.
::: posted by ARI ALMEIDA at 9:46 AM
Mande os autores ao inferno
Terça-feira, Outubro 21, 2003 :::
Prezados Delinquentes Leitores Deste Brogue. Ontem uma madame da alta burguesia residente nas proximidades do Batel fez a cagada de comprar briga com os delinquentes. Tadinha dela. Provavelmente nesta noite ou na noite de amanhã a rica senhora terá uma bela surpresa.
Sei que a burguesia não merece tamanha manifestação artística que são nossos ataques, mas neste caso abriremos uma exceção. Ela não perde por esperar e pela empolgação minha e dos rapazes, ela não esperará muito.
Abraços a todos, Ari O Delinquente, Terrorista & Sem Noção
::: posted by ARI ALMEIDA at 10:00 AM
Mande os autores ao inferno
Sexta-feira, Outubro 17, 2003 :::
Nossa Vingança Sará Maligrina ou Fazer Feitiçaria É Brincar Com O Universo
(ataque vinte e cinco)
Uma estranha espécie de vudú abateu-se sobre mim nos últimos dias. A má fase no campeonato começou no dia em que Vinícius telefonou dizendo que estavam com três meses de aluguel atrasado e que se não pagassem em cinco dias seriam despejados. E os guris ainda tinham como agravante as constantes reclamações dos vizinhos por causa do som e das zuadas. Não somos aquilo que pode se chamar de sociáveis. Era a oportunidade de ouro para a imobiliária. Se não fizéssemos algo MESMO, estaríamos fudidos.
Quer dizer, quem estava fudido eram os piás, pois não moro com eles, mas mesmo assim me senti meio culpado. Más companhia, tá ligado? Doeu na alma. Tivemos que colocar nossos respectivos rabinhos entre nossas respectivas pernas e correr atrás de dinheiro. Salvem o capitalismo! Deixem ele se manter até sexta-feira que precisamos de dinheiro! Desnecessário dizer que foi foda. Não temos o dom natural para ganhar dinheiro.
Eu & Jean, que temos trampo, fornecemos momentos de glória a nossos chefes, que a muito sonhavam com uma chance de nos esnobar. Saímos de mãos abanando, mas rindo da babaquiçe daqueles malas. Sérgio quebrou a cara tentando vender em vão suas telas na Rua XV. Fábio tornou-se um VASP (Vagabundo Anônimo Sustentado pelos Pais) sem a mínima chance de conseguir troco com seus velhos.
A luz no fim do túnel, por incrível que pareça, acabou vindo do Vinícius. Ele toca violão e teclado e volta e meia faz uns bicos nuns barzinhos. Depois de tentar arrumar alguma coisa de última hora e não conseguir, resolveu acionar sua cara-de-pau. Tocar na rua e nos terminais de ônibus feito um pedinte.
Aí começaram a aparecer os primeiros reais e a gurizada começou a verdadeiramente se espertar. Cada um tratou de descolar coisas que pudessem vender. Resolvi fazer um sacrifício à causa, vender vários de meus já poucos livros, discos & revistas. Meu esforço foi recompensado por um e-mail. O Papa Fong da Cabala Discordiana dos Eremitas Onanistas Românticos nos daria uma força.
Genial! Fantástico! Conseguimos negociar, tínhamos grana e conseguimos nos safar por uns dias. Eles perderam e o sinal ficou aberto pra nós, que somos Delinquentes. Eles feriram Corações Delinqüentes, o que significa que isso não ficaria por isso mesmo, jamais.
Desde então nossa sede de vingança só aumentou. Na época em que estávamos negociando mesmo, fui junto com os piás e fiquei de butuca, analisando o ambiente. Notei que não tinha sensor de presença, me liguei nas janelas e anotei o nome de sete funcionários. Quem mandou usarem crachás?
O foda é que entre conseguir a grana que faltava e se recobrar do susto o tempo foi passando, e os ânimos se acalmando. Não tem como evitar, cada um à sua maneira, interpretou aquilo como uma lição, como um sinal. Acabou que foi sendo eu o que mais entrou numas. Me ilhei do resto do mundo e teci meu casulo, ser uma Metamorfose Ambulante requer esse tipo de trampo de vez em quando.
Até que no Sábado, um dia horroroso com Chuva Fina, Frio & Vento, os piás vieram me abduzir.
- Bora, véio! Vamos caçar os sapos pra lançar um feitiçocontra a imobiliária!
A aventura que estavam me propondo era ridícula. Caçar sapos nos esgotos mais fedidos da cidade. Saímos com sacos de supermercados na mão e andamos o sábado inteiro, nos molhamos inteiros e não encontramos um único sapo. Não que não tenhamos conseguido caçar, não vimos nenhum mesmo. Eu babava de indignação.
- Seus viados, vocês acham que vai ter algum sapo nesse esgoto fedido?
- As vezes tem...
- As vezes tem o caralho!
A idéia dos piás, pelo menos a princípio, era uma idéia de gerico. Desenrolar sapos e o diabo a quatro sem ter ao menos a mínima idéia do que fazer com aquilo tudo. Qual feitiço? Como? De que jeito?
Mas aquela palhaçada pelo menos me sacudiu um pouco. O toque final foi no fim de semana, dia da criança, que fomos visitar Denise, a catadora de papelão que levamos ao salão de beleza do shopping. Montamos uns bonecos e carrinhos de papelão e fomos fazer a festa com os filhos dela.
Fomos todos. Eu, Sérgio, Jean, Fábio, Vini & Marília. E posso dizer aprendemos mais com eles do que eles conosco. Aprendemos por exemplo a resolvermos o problema dos sapos. Eles moram em Pinhais e sacam de altos Açudes & Banhados para esse fim, caçar sapos.
Como se não bastasse nos ensinaram a técnica da lanterninha. Fizeram agente esperar a noite chegar pra caçar. Parecia que estávamos sendo iniciados num conhecimento secreto. A técnica consistia em mirar a luz nos olhos dos sapos, eles ficam hipnotizados e aí é só catá-los. E funciona que é um espetáculo, catamos treze. Eles ficaram numa bacia com água dentro de uma caixa de papelão na litnete por três dias.
O problema é que por mais que eu tivesse reparado que eles não tinham sensor de presença não fazíamos idéia de como invadir a maldita imobiliária. Jean de cara manifestou-se como o mais pé no chão.
- Invadir é foda, temos que torcer pra que tenha uma entrada pelos fundos. A porta da frente é que não dá pra arrombar.
- E tem mais, vai saber se o Ari não viajou e não se ligou dos alarmes ¿ Sérgio visivelmente não estava muito a fim da empreitada.
- Eu acho que não tem.
Na madrugada de quinta pra sexta saímos em missão impossível, carregando os sapos, um bonequinho vudú que Sérgio confeccionou, sete envelopes nominais para os funcionários, treze folhas de papel com a maldição escrita, mais umas velas & outros apetrechos.
Chegamos lá e apesar de ser no centro, a rua estava um deserto só. Damos a volta na quadra e o único jeito de entrar nas ¿entranhas¿ do quarteirão era pulando um muro, de três metros de altura. Não teve jeito, tinha que ser ele. Tive que subir nas costas do Sérgio e depois ajudar o Jean a subir, então em dois, puxamos o resto da turma.
A escuridão ali dentro era total, depois de acostumar a vista reparamos: Tratava-se de um corredor minúsculo de uma oficina de alfaiate, não levava a lugar algum. Pra seguir a jornada teríamos que pular um muro com aqueles cacos de vidro cimentados.
- Não dá nada, agente quebra tudo.
Jean nem vacilou e com uma pedra começou a bater nos vidros freneticamente. Fez picadinho deles. Fábio tirou a camisa, colocou por cima e pulamos todos. Chegamos na segunda fase da jornada e era pior ainda, o quintal de uma oficina de fogões ou coisa parecida. Cheia de tralhas. Sérgio, o cara mais desajeitado do Universo mais uma vez torceu o tornozelo.
- Aaaaaaaaaaaaai!
- Cala a boca seu merda.
- Pô, que foda!!
Nos esgueiramos por entre aquela montoeira de ferro velho e o terceiro muro pelo menos era mais fácil. Fácil em termos de altura, por que dava numa área de serviço de umas kitnetes estranhas. E tinha gente acordada nelas, gente brigando.
Aparentemente era a kit de um casal e a mina berrava:
- Não me interessa! Não tinha que ter falado bosta nenhuma!
Não tínhamos mais nenhum muro pra pular, a janela da imobiliária estava ali e tínhamos que fazer todo o serviço ali mesmo. A janela era daquelas tipo de banheiro e era impossível entrar por ela, teríamos que jogar tudo por ali. Na hora em que o cara começou a berrar de volta pra mina, Vinícius quebrou o vidro e abriu a janelinha. Tínhamos 20 centímetros pra enfiar tudo. A primeira coisa que fizemos foi enfiar os sapos. Coitados, a janela era alta e se estribuxaram no chão.
Imaginávamos que seria mais fácil. Então me liguei de que daquele jeito não faríamos nada decente.
- Cara! Vamos voltar pro outro lado do muro e dar um tempo pra analisar a situação.
Sentamos todos em cima das tralhas do ferro velho e ficamos meditando em silêncio. Ficamos um tempão todo mundo quieto. Matutando. Tentando esfriar a cabeça. Nossos pensamentos eram volta e meia interrompidos pelos berros do casal, que dava pra ouvir dali. Jean quebrou a inércia e começou a juntar uns ferrinhos e fios.
- Quê que cê tá fazendo, véio?
- Relaxa!
Remendou as paradas e fez uma vareta de uns três ou quatro metros de comprimento. Ficamos encantados com sua maestria e como que num passe de mágica acordamos o MacGyver da série Profissão Perigo que cada um trazia dentro de si.
Um troço fantástico. Cada um tratou de fazer uma gambiarra para aperfeiçoar a vareta. Vinícius começou a montar uma segunda enquanto eu, Sérgio & Fábio fizemos ¿ponteiras multitarefas¿. Chapinhas flexíveis presas com borrachas, coisa de mestre.
Pulamos o muro de volta e o lazarento do casal continuava brigando. Acabou facilitando as coisas, apesar de não termos mais podido contar com o Sérgio, que quis ficar acompanhando a discussão. Foi massa. Deu pra colocar o giz nas ponteiras, desenhar um pentagrama no chão. Com as duas varetas conseguimos acender as velas em torno do pentagrama. O boneco vudú mocamos num lugar difícil de achar, para aparecer só uns dias depois, pra deixar os caras mais cabreiros ainda.
Jean ajeitou um pincel com tinta vermelha e desenhou uns símbolos nada a ver apavorantes na parede. Era uma briga pra ver quem espiava pela janela, todos queria ver como estava ficando, estava um espetáculo a cena.
Sergio acabou sendo útil com sua curiosidade, garantindo nossa tranqüilidade.
- Ih, cara! Podem continuar tranqüilos, eles não estão nem aí pros sons de fora. O mundo pra eles não existe. E os outros vizinhos vão pensar que o barulho são eles que estão fazendo.
Por último largamos os envelopes pros funcionários e as treze folhas de papel esparramadas pelo chão com a seguinte mensagem chupada do Hakim Bey:
Esta empresa foi amaldiçoada por magia negra. A maldição foi realizada de acordo com rituais corretos. Esta empresa foi amaldiçoada porque tem oprimido a Imaginção e profanado o Sagrado Ócio & a Santa Vagabundagem, degradado as artes devido a estupidificação da vida cotidiana com o único objetivo de pagar suas Tachas de Aluguel Abusivas & seus Lucros Obscenos, além das mentiras pregadas através do Direito de Propriedade & o Arruinamento Estético promovido pelo pouco caso que dão a algo sagrado que é um lar...
Os funcionários desta empresa agora correm perigo. Nenhum indivíduo foi amaldiçoado, mas o local foi infectado com Má Sorte & Malignidade. Aqueles que não se ligareme não passarem a tratar os outrso com mais humanidade, irão gradualmente sofrer os efeitos desta feitiçaria. Desrtuir ou dar um fim em todos esses instrumentos de magia que foram deixados aqui não fará nenhum efeito. Eles já estiveram aqui e este lugar foi amaldiçoado. Recupere sua humanidade e revolte-se em nome da imaginação ¿ ou será considerado (sob o ponto vista deste feitiço) um inimigo das pessoas do bem.
Ainda ficamos uma cara sentados ali, Fumando & Bebendo & Cochichando & Acompanhando o desenrolar da briga do casal. E não é que eles se acertaram? O amor venceu. Altos sinais, sem sombra de dúvidas, o Universo está disposto a brincar com a gente quando se dá a devida atenção a ele. Fábio se folgou e escalou uma parede para ficar voyerizando os dois pra ver se rolava sexo. Quando foram pra cama fomos embora.
Fomos embora Cansados & Felizes, pois sendo do mal fomos do bem e, na boa, acho que fomos além do bem e do mal.
::: posted by ARI ALMEIDA at 2:01 PM
Mande os autores ao inferno
ia-ba-da-ba-dúúú!!!!
Estamos vingados!!!!
Ficamos acordados praticamente a noite inteira, Eufóricos & Felizes. Agora o corpo deste que vos escreve esté só está se mantendo aocrdado devido a uma dose cavalar de Cafeína & Guaraná.
Mas estou tão Animado & Satisfeito que acho que dentro de pouco tempo acabarei de digitar o relato. Não reparem se sair Confuso & Cheio de Erros. eu curto mesmo é assim, que o relato saia em cima do laço, logo depois de concretizado, parece que sai mais autêntico, com as lembranças ainda vivas na memória.
Aguardem.
Ari o Delinquente Feitiçeiro
::: posted by ARI ALMEIDA at 10:08 AM
Mande os autores ao inferno
Quinta-feira, Outubro 16, 2003 :::
A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM
É com muito orgulho & ansiedade que lhes comunico que hoje será o dia que marcará o retorno dos Delinquentes às suas atividades normais. Hoje à noite vai rolar o novo ataque!
Façam suas apostas e façam muita figa, mas muita figa mesmo, pois o negócio é arriscado.
::: posted by ARI ALMEIDA at 1:18 PM
Mande os autores ao inferno
Terça-feira, Outubro 14, 2003 :::
E A VIDA SE FEZ DE LOUCA (estranhas conspirações no ar) & o Universo Querendo Brincar
As coisas começaram a melhorar pro lado dos Delinquentes. Aguardem, que ainda nessa semana teremos novidades por aqui.
Se vc é Curitibano e trabalha no ramo imobiliário, acautele-se.
Se vc é Curitibano e trabalha no ramo imobiliário e é religioso, reze.
Se vc não é Curitibano e é leitor deste blog, não perderá por esperar.
URGENTE!!!
Uma galera ligadíssima de Belo Horizonte repetiu o ataque da Gurizada Big Mac Feliz.
Saquem essa clicando aqui.
E mais, acaba de estrear uma página exclusiva com Mensagens Discordianas.
Clique aqui e mergulhe na confusão!!!
Além, é claro, da fantástica Homepage Oficial da Cabala Discordiana dos Eremitas Onanistas Românticosque já está on line desde a semana passada e que meu Horroroso Baixo Astral não tinha me deixado lincar.
Tem também mais três links diferentes na nossa coluna da esquerda festiva. Linkania Já!!!!
::: posted by ARI ALMEIDA at 1:48 PM
Mande os autores ao inferno
Sexta-feira, Outubro 10, 2003 :::
Este blog está virando uma tapera. Sinceramente, acho que ele já cumpriu seu papel. Creio que está na hora de pendurar as chuteiras ou, no mínimo, dar uma tempo pra reavaliar os estado das coisas...
::: posted by ARI ALMEIDA at 5:19 PM
Mande os autores ao inferno
A Balada Da Nossa Geração
Somos Muitos & Faremos Muito Barulho
Ironia, cinismo e sarcasmo são nossas armas.
Somos Infantis, Mal Educados & Alienados, somos tudo o que o atual meio libertário mais odeia.
Nós escutamos o som alto sempre que isto nos convém. Achamos que se o vizinho velho morrer de brabo com a altura do som, é porque já era a hora dele.
Nós não bebemos água e não limpamos as unhas.
Nós não temos o costume de lavar as mãos antes das refeições, a menos que elas estejam sujas. E só nós mesmos temos condição de saber o que significa sujeira para nós.
Nós não temos carro, só pra pedir carona & roubamos o que temos vontade sempre que possível.
Queimamos Out-doors & Jogamos Merda nos bancos.
Somos Anti-éticos & Despudorados. Somos Rebeldes & Não temos causa alguma além de nos divertirmos e nos sentirmos livres.
Estamos pouco nos importando com o fato de estarmos destruindo uma propriedade privada. Isso é apenas vandalismo, nossa mais bela manifestação artística.
Ari Almeida, O Delinquente, Vândalo & Sem Noção.
::: posted by ARI ALMEIDA at 10:00 AM
Mande os autores ao inferno
Quarta-feira, Outubro 08, 2003 :::
Aqui está, sem mais delongas, o atrasadíssimo ataque da semana passada. Quero ver se não deixo mais ocorrer esse lapso de tempo entre a ação e a narração.
Merda & Ouro
(ataque vinte e quatro)
Nesta semana ouvimos o disco novo do mundo livre S/A onde o Fred Zeroquatro canta numa música ¿não existe guerra alguma, apesar de todo esse barulho é só o capital cruzando o mar¿ . A letra é pequena, mas deixou todos impressionados. Manda-se um pais como o Brasil à merda com um simples telefonema.
Capital Especulativo é uma coisa do diabo. Na boa, Eu queria que o cú dos especuladores pegasse fogo e o caminhão dos bombeiros tivesse cheio de gasolina . O problema é que eles estão longe, são invisíveis, são meros números numa conta corrente de um banco multinacional. As sombras desses invisíveis do mal são os bancos como os conhecemos.
Nos cabe então vandalizar os ícones dessa pouca-vergonha toda que estão ao nosso alcance, ou seja, as Agencias Bancarias de Curitiba.
- Tínhamos que fazer alguma coisa nos bancos que tivesse merda no meio. ¿ Vínicius sempre se anima quando o assunto é vandalizar bancos.
- Merda? O que você quer dizer com isso ? - A pergunta foi meio que geral, ninguém entendeu .
- Tínhamos que deixar uma grande quantidade de merda em um banco .
- É, dá pra meter merda naqueles envelopinhos do auto-atendimento .
- Dá também pra deixar sacos de merda nos lixos.
Aí a galera começou a viajar, o Bukowskiano Degenerado Fábio Samwise soltou essa:
- Podíamos comer feijoada com chucrute por uns três dias e fazer um atentados de peidos. Imagine nós todos peidando ao mesmo tempo.
Por fim concordamos que o ideal seria largar merda nas calçadas e acessos, bloqueando a entrada das pessoas. O plano ficou marcado, só que parecia que faltava um toque final que desse brilho a coisa toda. Um fator de diferenciação de um simples ato de vandalismo.
Passou-se uma era até que da lista de discussão dos Delinqüentes nasceu uma estrela dançarina. Alguém chamado Gustavo e com o nikname Anarki3a postou uma idéia maravilhosa que imediatamente apresentei pro pessoal .
- Lembram o que estávamos discutindo outro dia? Que os bancos são os ícones do mal ?
- Só...
- Pois é, já repararam que todos eles ostentam hipocritamente um belo jardim.
- Flores do mal.
- Imagina agora largar sal grosso ou óleo queimado naqueles jardins.
Fez-se então o tradicional silêncio após uma sacada de mestre. Aquelas caras pensativas e aqueles risos contidos.
- Era o que faltava.
- Temos que fazer isso.
Começamos então a aperfeiçoar a estratégia. Esquecemos o óleo queimado e optamos pelo sal grosso. Poderíamos atacar em uma noite de chuva, a água dissolveria o sal e os banqueiros teriam uma curiosa surpresa alguns dias depois.
Convencer o Rafael, amigo do Jean, a empenhar a picapezinha dele pra carregar bosta já foi difícil, agora carregar a tal bosta revelou-se uma encarnação do inferno.
E a merda optamos por de vaca , já que merda de gente é complicado de conseguir em grandes quantidades. Mais uns enfeites vandalìsticos. Um placa pra colocar na escada de acesso com o aviso: ¿passagem, somente se pisar na merda¿. Uma faixa pra esticar entre uma árvore e outra escrito com letras garrafais: ¿Este é um lugar do mal ¿. Os especialistas em alvos Fábio & Jean escolheram uma agência na Erasto Gaertner, no bairro do Bacacheri. Perfeitinha, jardim, escadas de acesso fácil de obstruir e lugar pra esticar a faixa.
A faixa e a placa doeram em nossos bolsos. Essa série de ataques minaram nossas finanças. Isso, convém lembrar, se passou dias antes da Imobiliária nos infernizar com a ameaça de despejo de nossa Sagrada Kitnete. Só tínhamos que esperar por uma noite chuvosa. Eu no cagaço de que minha gripe assassina voltasse.
Não precisamos esperar muito. Na Esquizofrenia Climática de Curitiba, noites chuvosas são normais.
Jean conseguiu umas capas de chuva pretas no trampo e com o Rafa, o veículo para transportar a carga fedida.
Achamos um sitio na Fazenda Rio Grande e convençemos seu dono a ceder o material. Tivemos que carregar a merda na entrada da cachoeira das vacas, de noite e na chuva. Foi muito empenho, o esterco ia até o meio da canela e o esquema era o seguinte: você escolhia um lugar, se posicionava e então afundava nos escrementos e então fazia uma força do caralho com a pá pra jogar até onde outro recolhia. Uma merda, literalmente. Dez mil banhos depois ainda fedíamos.
Carregamos tudo, cobrimos com uma lona e voltamos pra sagrada kitnete.Logo antes da meia noite a chuva apertou e decidimos que era a hora. Jean foi de carro com o Rafael e eu e os guris fomos na frente, de ônibus.
A Erasto é movimentada, mesmo na madrugada. Era uma operação complicada, o banco ainda por cima era muitíssimo bem iluminado. A vantagem era que com a chuva forte ninguém andava na rua, ainda mais numa hora daquelas. E os carros, quem estava dentro estava mais preocupado prestando atenção na pista. Mesmo assim tivemos que ficar eu & Sérgio de campana, cuidando o movimento e emitindo sinais quando necessário.
Maldita hora que topei essa tarefa. Era diferente de ficar alerta na periferia como nos outros ataques, num bairro escuro, silencioso e sossegado. Ali passavam carros, um a cada minuto e o trabalho era demorado. Somente ver os outros se mexerem me deixava ainda mais agoniado. Chovia tanto que parecia que não ia parar nunca. A impressão que se tinha era que a qualquer momento iria aparecer Noé, de arca, acenando pra gente, ¿e aí gurizada, não tem ninguém da espécie de vocês aqui dentro!¿
Fábio &Jean carregaram sacos com uma porrada de merda até perto de uns tonéis de lixo. Vinícius sumiu no meio do jardim analisando as possibilidades pra realizar suas sabotagens. Assim que descarregaram o material, Rafael sumiu com sua picape, não queria ter nada a ver com aquilo.
Quando os guris começaram a esparramar a merda eu já tava prestes a ter um ataque cardíaco. Minha vista já estava embaçada com a água da chuva e cada farol que brilhava na frente eu pensava que era de um carro que ia estacionar pra sacar um troco no caixa-eletrônico.
Jean & Fábio ainda se alugaram em aplainar com uma tabuazinha, queriam cimentar de fezes a entrada do Templo Monetário. Eu ali, no cagaço do perigo iminente e os dois, Viajando & Enrolando.
Não agüentei e fui correndo dar esporro.
- Seus pau no cú! Um desses carros podem parar e ferrar com tudo.
- Relaxa, Ari.
- O caralho que vou relaxar!!! Vamos trocar de função, vai lá cuidar o movimento Jean!
Fiquei no lugar do Jean e comecei a jogar merda feito um psicótico. Fábio ficou só rindo da minha paranóia, Vini que surgiu do nada pra me acalmar.
- Relaxa véio, tá limpeza, agente tem pra onde fugir no aperto. Tá vendo aqueles latões de lixo onde deixamos os sacos? É só correr pra lá e desaparecer na noite.
Desencanei e tratei de concluir a obra. Vinícius ficou só escondido atrás das moitas. Completamente invisível. Só dava pra ver o sal grosso voando em meio a chuva que ele jogava da moita onde estava escondido. Dessa vez admito, Vini foi o mais seguro de si dentre nós.
A chuva era tanta que tive que colocar uma camada grossa de estrume pra água não levar tudo para o esgoto. Enquanto fiquei ali, Fábio & Jean trataram de colocar a faixa. Ela seria armada num poste e numa palmeira.
O poste foi tranquilo de escalar, a palmeira foi bem mais foda. O aguaceiro fazia com que o tronco ficasse escorregadio feito sabão. Somos especialistas em escalar palmeiras, mas não daquele jeito. A solução foi chamarmos o Sérgio para que eu, que sou o mais magro e leve, subisse nas costas dele pra amarrar a corda da faixa.
Bem na hora que dei o último nó, uma luz de lanterna, vindo de dentro do banco, fez com que nosso mundo parasse. Tinha um vigilante lá dentro que provavelmente estava dormindo ou fazendo outra coisa o tempo inteiro e que agora estava fazendo sua ronda.
Correr, correr & correr. Essa é mesmo a nossa sina.
Sérgio O Mais Cagão simplesmente desatou-se a correr me jogando violentamente na grama salinizada. Quando consegui me levantar só vi os piás desaparecendo na esquina. Nem olhei pro vigilante e já tratei de correr pra salvar minha pele.
Minha fuga desesperada foi interrompida pelo pior tombo dos últimos tempos. Estava descendo a escada quando escorreguei e cai deitado, de corpo inteiro, em cima daquela merda toda. Não ficou uma partezinha sequer do meu corpo sem estar cagada.
Puta que o pariu!
Quando encontrei o resto da turma era uma gargalhada só. Se jogavam no chão e riam batendo pés e as mãos na calçada. De longe pareciam um bando de epilépticos tendo um ataque simultâneo.
- Para Ari! Minha barriga tá doendo.
Mandei todos tomar no cú e saí atrás de calhas pra me lavar. Fedíamos tanto que voltamos a pé pra casa, de modo que salvamos os ônibus de toda aquela fedentina.
Uma semana depois, passamos por lá pra dar uma olhada no efeito do sal e constatamos que acabamos por ajudar na geração de emprego. Dois jardineiros estavam trabalhando lá e a grama tinha sido toda substituída. Mais uma batalha vencida, mais um banco vandalisado.
Uma merda tudo isso.
Não é mesmo?
::: posted by ARI ALMEIDA at 10:46 AM
Mande os autores ao inferno
Queridos Leitores Delinquentes Desocupados & Internautas Em Horários De Expediente, dentro de alguns minutos vou postar aqui o ataque 24, já tá digitado, falta só corrigir.
Aguardem.
::: posted by ARI ALMEIDA at 8:20 AM
Mande os autores ao inferno
Terça-feira, Outubro 07, 2003 :::
Paaaaaarem as máquinas!
EIS QUE NASCE A PRIMEIRA GERAÇÃO PÓS-DELINQUÊNCIA!!!!
Imaginem os ataques que essa gurizada irá empreender daqui uns anos...
(e pensar que serei o coroa da vez)
::: posted by ARI ALMEIDA at 4:21 PM
Mande os autores ao inferno
O Trabalho Danifica O Homem (ou então, trabalhar é uma merda mesmo, ou melhor ainda, a vadiagem é extremamente prazeirosa)
Oi Galera!
A crise financeira se abateu sobre os Delinqüentes de uma maneira assustadora. A ameaça de despejo deixou todos em polvorosa, pois se
ela fosse levada a cabo simplesmente não teríamos pra onde ir pois em Curitiba a prefeitura não permite que se more em viadutos e o
movimento dos sem-teto está apenas engatinhando. Nossa dívida: setecentos reais, equivalentes a três meses de aluguel atrasado mais multas. Algo astronômico pra nossos parcos recursos.
Providências urgentes tiveram que ser tomadas.
Eu & Jean, que somos os únicos com trampo fixo demos com os burros n´água na hora de conseguirmos um adiantamento com nossos tão odiados chefes/senhorios. Ambos queimamos muitos filmes com faltas & atrasos nos últimos meses e não conseguimos extorquir nenhumzinho de nem nada nunca. Era a oportunidade que aqueles filhos da puta tinham pra se lavarem em cima de nós e não desperdiçaram. Meu chefe foi mais cruel, com requintes de crueldade aumentou minha carga horária e minhas responsabilidades. O coitado acreditou mesmo que desta forma estaria me aplicando uma lição.
Então começamos a tentar outras formas de angariar fundos.
Quem salvou o pátria MESMO foi uma alma caridosa chamada Papa Fong da Cabala Discordiana dos Eremitas Onanistas Românticos que nos emprestou grana pra pagarmos um mês de aluguel e assim prorrogar o despejo por uma semana. Semana esta que dedicaríamos a batalhar os outros dinheiros que faltavam.
Vinicius se empenhou em tocar violão em botecos e não conseguiu nada. Seu repertório é por demais fora dos padrões comerciais & populares. Os resultados só apareceram quando optou por chutar o pau do barraco e tocar na rua, feito pedinte mesmo e então, de moeda em moeda conseguiu uma média de 30 reais por dia e na sexta da semana passada acumulou exatos 142 reais. Ótimo, só que ainda faltavam trezentos.
Eu & Fabio conseguimos 50 reais vendendo alguns livros, discos e revistas nos sebos curitibanos e a grana que faltava conseguimos
completar sofridamente neste último fim de semana.
Foi Marília, namorada do Vini quem conseguiu um horrível porém lucrativo trampo no fim de semana: ajudarmos seu tio que tem um caminhão e faz mudanças. Nós três: eu, Fábio & Jean. Sergio saiu às ruas tentar vender seus quadros em vão. Nem aqui no blog ninguém se interessou e nem nas ruas.
Galera, fazer uma única mudança já é foda, agora imaginem CINCO mudanças em dois dias. Foi de lascar. Minhas mão estão todas
detonadas de bater nas peredes & portas carregandos geladeiras, máquinas de lavar e enormes sofás. Meu corpo inteiro dói até hoje. Como disse o Maguila um dia num programa de entrevistas: O trabalho danifica o homem.
Mas emfim, conseguimos os malditos setecentos reais e praticamente os jogamos na mesa do gerente da imobiliária. Agora é bola pra frente
que a delinquência é urgente.
Nada disso ficará por isso mesmo, tenham certeza disso. Esse caso acabou servindo de base para mais um plano de um novo ataque. Estamos nos preparando. Estamos recolhendo material e fazendo as investigações necessárias para levá-lo a cabo. Lançaremos uma terrível
maldição sobre aquela instituição imobiliária do mal. Se alguém aqui souber ou tenha lido a respeito de feitiços que entre em contato com a gente ou nos comentários ou por e-mail.
A delinquência não pode parar. Estou cabreiro que depois dessa o pessoal meio que perca um pouco o tesão, a "paudurescência" como costumo falar. Não sei se vocês repararam, mas estamos meio devagar. Até o ataque da semana passada ainda não consegui digitar. Faz horas que prometo: "hoje ou amanhã eu posto" e esse hoje ou amanhã não chega nunca. Estamos dando um tempo pra recobrar as energias. De minha parte essa afirmação é literal. Estou podre de cansado.
De momemento estamos quebrando a cabeça pra bolar ataques que não requeiram muito investimento financeiro. Num mundo dominado pela dependência financeira isso é quase impossível. Mas como somos realistas, exigiremos o impossível.
Agora é só esperar que a criatividade se manifeste. O problema é que estamos trabalhando muito e o trabalho é algo que mata a criatividade
humana. Que resto de criatividade pode se extrair de uma pessoa que é arrancada da cama as seis e meia da manhã, rala em ônibus lotados, se fode e engole sapos o dia inteiro e depois mais ônibus até o retorno ao lar?
Espero que vcs compreendam essa desaceleração e torçam pra que tudo não passe de um encasulamento pra que depois surja um novo e radiante inseto (porra, essa foi piegas).
Abraços a todos do Ari O Delinquente.
::: posted by ARI ALMEIDA at 10:31 AM
Mande os autores ao inferno
Quinta-feira, Outubro 02, 2003 :::
Que Os Deuses Nos Dêem Fígado (pois temos o planeta inteiro pela frente) E que Curem Esta Minha Maldita Ressaca
Ontem à noite foi inevitável que lembrássemos dos cento e cinquenta reais que achamos na rua naquela manhã após o teatrino do Interbairros 1. Na época nem nos passava pela cabeça que um dia estaríamos tão desesperados por este maldito papel. Resolvemos canonizar o local.
Sérgio pegou uma tábua e pitou a frase: ¿Aqui Nasceu Uma Estrela Dançarina¿ pra nós fixarmos no local. Com dois reais compramos dois litros da pinga mais vagabunda da praça e tomamos um porre homérico na calçada que um dia nos presenteou.
Mas o mais difícil eu fiz: vim trabalhar. Fundamentalista Sem Causa (que diabos quero dizer com isso?)
Se alguém souber de técnicas de feitiçaria que possam ser aplicadas a empresas, que entrem em contato com os Delinquentes através do e-mail: arialmeida2003@yahoo.com.br
Fica esse link prum texto muito bom do meu mestre Robert Anton Wilson
::: posted by ARI ALMEIDA at 9:16 AM
Mande os autores ao inferno
Quarta-feira, Outubro 01, 2003 :::
...E O ARTISTA SE PROSTITUI.
Pois é pessoal, devido essa tragédia que se abateu sobre nós e devido a absoluta impossibilidade de descolarmos uma grana emprestada, Sergio Augusto resolveu vender seus quatro trabalhos preferidos. Se alguém tiver algum interesse favor entrar em contato através do e-mail:
arialmeida2003@yahoo.com.br.
Eis as telas em questão:
TELA 1

TELA 2

TELA 3

TELA 4

O preço que ele quer eu considero uma ofensa, cinquenta reais. É de machucar corações subversivos mesmo.
Outro que está se prostituindo sou eu. Se alguém tiver afim de receber uma versão impressa dos relatos de nossos ataques pelo correio por módicos 5 Reais também é só entrar em contato via e-mail no mesmo endereço.
Só não estou morrendo de vergonha porque não tenho isso. Puta que o pariu, superar o capitalismo e vencer a dependência do dinheiro, depois dessa, será uma questão de honra pra nós.
PS.: Estou devendo pra vocês a postagem do ataque de número vinte e quatro que rolou na semana passada. Quero ver se hoje consigo digitar, mas tá foda, estamos todos envolvidos com essa porra de despejo iminente. Sem dúvidas, lançaremos uma maldição contra aquela imobiliária. Hoje somos nós que estamos fudidos, mas se depender dos Onipresentes Deuses Da Delinquencia Juvenil, amanhã serão eles.
::: posted by ARI ALMEIDA at 12:31 PM
Mande os autores ao inferno
Depois da Queda o Chute
Se os guris não pagarem hoje a imobiliária serão despejados da Sagrada Kitnete dos Delinquentes. São três meses de aluguel atrasados mais multas, no total o valor da dívida chega nas rais da obcenidade, setecentos paus. Jean & Vinicius estão se escabelando. sergio já foi de Mala & Cuia pra casa dos véios do Fábio em Colombo. Lá no meu porão não cabe nem um cachorro, quanto mais dois Delinquentes e suas respectivas tralhas.
Como se não bastasse isso tudo meu chefe está fazendo o pior dos terrorismos comigo. Além de ter me obrigado a trabalhar no fim de semana só está me arrumando missões impossíveis. Ontem fiquei até as 11:00 da noite neste calacouço de trabalhos forçados. Alguma satisfação ele deve sentir com isso. É uma merda, mas se perder esse meu trampo estarei fudido.
Toda a grana que torramos em nossos ataques estão agora fazendo falta. Achávamos que éramos imunes ao capital. Doce igenuidade. A realidade não está batendo na nossa porta:
A realidade está batendo na nossa cara.
::: posted by ARI ALMEIDA at 8:35 AM