
..Seja realista: exija o impossível
..
..TERRORISMO POÉTICO
..ARTE SABOTAGEM
..TEATRO SECRETO
..RELIGIÕES LIVRES
..CONCEITOS DISTORCIDOS
..IDEOLOGIAS SAQUEADAS
..PIRATARIA DE IDÉIAS
..SABOTAGEM CULTURAL
..LINKANIA
..FNORD
..
..Ofensas pessoais a Ari Almeida pelo e-mail:
..[ arialmeida2003@yahoo.com.br ]
..
..Tukaga Livros
..
..Baixe aqui o Manual Prático de Delinquência Juvenil
..
..e aqui o Manual Prático de Delinquência Juvenil - 2ª edição
..
..
..
..DELINQÜENTIOS & DELINQÜENTIAS
COM MUITO ORGULHO APRESENTO A TODOS OS LINKS
PARA OS BRÓGUESGRÓGUES DOS FREQUENTADORES MAIS
ASSÍDUOS DESTE ANTRO DE VÂNDALOS:
..
..Manan Blog
..Blog do meu amigo gaúcho torcedor do Internacional
..Ô loco meu!!!!
..É o Rafiuzkiz na fita
..Memórias de Um Cheira Cola
..Reverendo .Fatsync é um Monstro Sagrado Absoluto
..Assim Assado
..A Pirofágica é a Piristrela do meu Coração Camaleão
..mundoYmundo
.. Blog de uma Ratazana Freestyle chamada Jubyleu
..O Entorta Cano
.. Juca Sassafrás apavorando Floripa...e a net...e o Sistema (Monstro Sist)
..Mada de Nada!!
..É a Dani!! É a Dani
..Reverendo Freak C
..Meu irmão separado na maternidade, de fé mesmo
..Le Place Absurdo
..Home Page da lenda viva que já foi Fong, e que hoje é Wodouvhaox
..
..
..Timóteo Pinto
..Eu, tú, ele, eles, nós, vós. todo o mundo é Timóteo Pinto
..Seja Timóteo Pinto no Orkut
..Nos outros lugares, basta dizer: Todos somos Timóteo Pinto
..
..Reverendos, Reverendas e Papas da Discórdia
..
..Laboratório Episcopal Experimental do Papa Duubhglas Juarezzz
..Reverendo 5
..Reverenda Cat Harvey
..Lux et Voluptas (Reverendo Fernando Ganso)
..Papa Ibrahim Cesar
..Reverendo João Paulo V
..Wolf Insane Productions! (Reverendo John Wolf Lee P, o cineasta)
..Outros Reverendos e Reverendas do Fnord
..
..
..
.. A maioria dos blogs linkados na seção
.. A JUVENTUDE DOENTE NO REINO DOS BLOGS (situada logo abaixo)
.. Estão quebrados, segue abaixo uma lista atualizada
.. dos doentes que nos linkaram.
..
.. LINKANIA
..
.. Árvores e Nuvens
.. Dona Buba
.. Aborto Social
.. Arte do Caos
.. Agnóstico Vagabundo
.. Textorama
.. Che With Glasses
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..A JUVENTUDE DOENTE NO REINO DOS BLOGS ou
..O CAOS AVANÇA!!!!!!!!!!!!!!!
..
..Psicodelismo & Arte
..Prestem atenção nesse fotolog, coisa fina, palavra de delinquente!
..Otacílio Couto
..Fotolog do Ota!!
..Meu velho amigo Ota, atuando em duas frentes, blog & fotolog.
..Biocosmo
..Renato, o Lobo Guará Livre do Cerrado
..Alriada Express
..Daniel Duente, continua sem ter feito contato, mas o cara é genteboa e seu blog é maaaassa
..toomanypeople
..Esse cara é BH e seus posts são hi-lá-ri-osss
..A Arte do Caos
..porque tú tá ligado que o caos é uma arte, não é mesmo?
..Caos!!!!
..O blog da Manu, ela tirou o link pra cá, mas deixou o do Timóteo Pinto, hehehe!!
..disgua - CTRL C + CTRL V
..É a Diaângela, tô falando que é a Diângela...não querem acreditar
..Desobediência
..Desobediência por uma questão de classe
..Eu Rasgo Dinheiro!!!
..Motos & Mulheres, no Blog do Fumaça from Itajaí
..Fuga do Sistema
..Fuja locôôô!!!!!
..Gárgula Irato
..O Gargula Irato posta num dos blogs que eu mais curto, o cara tem idéias fortes
..O diário virtual do Julio
..A Lenda, o Mito, uma das grandes promessas do Novo Jornalismo...argh!!!
..Marty MacFly
..Quem é Marty McFly???....Ganha um molotov quem responder
..Micrópolis
..Poesia, literatura, artes, cultura japonesa e multiculturalismo - By Mak
..Minha Vida DDA
..Tá meio parado, mas o arquivos valem a leitura
..Fotolog Radial
..o Dificil aprendizado de aceitar o diferenciado
..Pandemonium
..Apareçeu no Blogs of Notes e a dona surtou e se indgnou. É, atitude é o que há!!
..Reboladeira
.. O blog da Beth, cadê a Beth??? Pelamorde Éris, me respondam!!!
..Reciclável
.. O blog da Ana...que é prima da Dani...que é amiga da Aline, que nem conheçe
..Se1t@ M@c@br@
..O Antigo do blog da antiga lenda urbana auto-intitulada Ivo Cruz
..Sensible Madness
..A Natas_F é uma mina muito style, vai por mim
..Surrealismo dos Atos
..A Lebre de Março pode um dia te visitar!
..Terra dos Homens
.. Agora em novo endereço - confira Djá!
..Túlio Vianna
..O Professor Túlio saca das coisas: ao Mestre com carinho
..Dória
.. Antigo blog da Andreia, do tempo que eu chamava ela de Dória Grey
..Fotolog da Dória
..Sim, agora podemos acompanhar a Rainha Dória através de seus clicks!!!!
..Holistic Connection
..Tapera Virtual, antigo blog do Hilukus, que foi um dos primeiros a apoiar nossas rebordosiçes
..Ópio
..É o Ralph matando a pau num nums blogs mais estilosos da nossa coluna da esquerda, leitura obrigatória e quase diária
..Web Vandal
..Vandalismo é tudo, padronização não é nada
..Marcas Urbanas
..Uma coletânea de fotos de Stencils, colagens e grafittis desta Curitiba Cinzenta & Gelada
..O Templo
..Nosso irmão mais novo da Caos Family
..StraighEdg Bandido!!!
..O cara odeia Ari Almeida, sujeito decidido
..blog do CADELÃO
..O Blog do Cadelããããão!!!! Bóra todo mundo vandalisar o blog desse depravado século XXI!!!
..
..
..
..
..Com vocês:
..O ESTRANHO mundoYmundo DE
..DANI.EL MACEDUSSS
..rranhyu
..ornitorrincosss
..Macedusss não existe
..derrotados pela própria fraqueza
..E esta lenda morta tmb edita ZINES
..
..
..
..GOSTOSO É FAZER SABOTAGEM
..
.. e-zines (cultura pop: existe isso?)
..banditzine
..Natalcore
..Omelete
..Rock Way of Life
..Alucináticos
..Senhor F
..Trabalho Sujo
..Fraude
..
.. leitura diária (delinqüentes lêem todo dia?)
..no mínimo
..Marketing Hacker
..Carta Capital
..Tudo Paraná
..
..
..
.. OUTROS BLOGS SÃO POSSÍVEIS:
..Ódio
..Os caras nos odeiam e são malas, logo, devem ser bons
..Front da Serra
.. O Breno brigou com a gente, logo, deve ter um pingo de bom senso
..Planos periculozamente editados
.. Blog do amigo do Juby
..Poesias Góticas
.. Não sei porque, mas a Tytânia nos deslinkou...
..A Farsa Bípede
.. Outro que um dia nos linkou, e agora deslinkou.
..Máquina del Diablo
..Mais um que nos deslinkou, máquecaráio!!!
..Socialmente Aceitável
..Esse site é doido, vai por mim, é louco meeeesmo!!
..Quitandinha 111
..O Blog da Ingrata da Sharon
..Lila
..A Enésima Encaranação de Éris
..
.. los hermanos (nada a ver com os Loser Manos)
..Manzanas Podridas (Argentina)
..menos que cero diario (Argentina)
..
.. essa galera aqui em baixo nunca nos linkou, mas nós curtimos de montão esses seus blogs Escrotos, Toscos & Maravilhosos
..Aceitamos Sugestões
..A Alma do Gato
..Ações Provocativas
..Átomos do Alessandro
..Blig Kogu
..Delirium
..vida de deus
..Sociedade Doente
..Spiderweb
..Tosquismo
..Um Caminho a seguir
..
..
..É permitida a reprodução total ou parcial
dos textos contidos neste site
mesmo que a fonte, o link e o autor não sejam citados
Estão todos autorizados a copiarem os textos,
modificarem o que quiserem, assumir a autoria
e utilizarem para o que bem desejarem.
..
..E sempre lembrem dessa recomendação:
..Goze sem entraves
..
..
..
..
..
..NENHUM HOMEM É UMA ILHA
..MAS TAMBÉM NENHUM HOMEM É UMA SALADA DE BATATAS
..
..
..
..
..
..
..
..
..Você tem o endereço, porque você não passa lá
..CMI
..Mídia Tática
..Relatório Alfa
..Centro de Contra-Informação e Material Anarquista
..Rizoma
..Bolo´Bolo
..Baderna
..Arquivos da Demência Ontológica
..A Invasão dos Memes
..
..
..
..
..
..
..
..ALGUNS RESPONSÁVEIS PELAS
..SEQUELAS CULTURAIS DE ARI ALMEIDA
..Antonin Artaud
..Wilhelm Reich
..Raoul Vaneigen
..outro dia eu continuo esta lista
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..O que queremos, de fato,
..é que a juventude
..volte a ser perigosa
..
..
..
..
..
..Se o que vc faz
..Faz impunemente
..é porque é inofensivo
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..Estamos em Território Inimigo
..E o Inimigo está em nós
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..NÃO RESPEITE NADA!!!
..
..
..NENHUM RESPEITO POR NADA!!!!
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..TODA A PROPRIEDADE É UM ROUBO
..Roube os textos desse blog!
..Editar + Copiar
..Editat + Colar
..Mude o texto
..Assuma a autoria
..Plagie descaradamente
..Seja um ladrão e não respeite a propriedade intelectual!
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..NÃO SE LEVE A SÉRIO
..NÃO LEVE NADA MUITO A SÉRIO
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..Este é um território improdutivo do blog
....mas isso nai acabar!!!!!
..
..
..
..OS SETE POEMAS DAS VIDRAÇAS
..(por Fabio Samwise)
..
..
..Mortos vivos
..Nas ruas
..um belo sol Acaricia os doentes...
..Quem pode ter o tempo,
..pra viver o dia inteiro?
..
..
..
..
..Brancura luna
..Rente ao teu corpo,
..a brancura lunar,
..ficarei por eternidades...
..até saber do gosto essencial de ti.
..
..
..
..
..Kelper
..Kelper é uma ilha.
..As pessoas também...
..Romper essa distância,
..inaugurando-se noutro ser,
..não existem coordenadas...
..Apenas...
..beijos e palavras...
..
..
..
..
..A geladeira
..Domingo ela abriu a geladeira 119 vezes...
..mas, não saiu ninguém...
..
..
..
..
..Paixão
..Começa com uma vontade de morder...
..e muitas vezes, termina com um tiro...
..
..
..
..
..É isso que eu adoro na paixão!!!
..Natural Arte?!
..Não...
..eu sou mais esse teu sorriso...
..esse teu cabelo...
..na minha cara...
..
..
..
..
..Os Moradores Estranhos
..os moradores daquele prédio...
..não olham pelas suas janelas...
..pelo menos, como deveriam...
..Risadas...
..é outra coisa também...
..Não as escuto...
..estranho...
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..
..Algum doente criou esta página
..Quer prova maior de que o caos avança?
....EU ODEIO ARI ALMEIDA!!!!
|
 |
Vandalismo ou Barbárie - Distúrbio Cotidiano - Estanhos Atratores nos Caos do século XXI - A Juventude Doente mostrando a cara.
|
|
|
Quarta-feira, Junho 20, 2007 :::
Espécie Humana: Uma Cagada Evolutiva
Primeiro capítulo do livro Jano, de Arthur Koestler
(parte 1)
Se me pedissem para mencionar a data mais importante da história e pré-história da raça humana, eu responderia sem a mínima hesitação: o dia 6 de agosto de 1945. A razão é simples. Desde o alvorecer da consciência até o dia 6 de agosto de 1945, o homem precisou conviver com a perspectiva de sua morte como indivíduo. A partir do dia em que a primeira bomba atômica sobrepujou o brilho do Sol em Hiroshima, a humanidade como um todo deve conviver com a perspectiva de sua extinção como espécie.
Aprendemos a aceitar a efemeridade da existência pessoal, ao mesmo tempo em que tínhamos como certa a potencial imortalidade da raça humana. Essa crença deixou de ser válida. Precisamos rever nossos axiomas.
A tarefa não é fácil. Antes de uma idéia se firmar na mente, existem períodos de incubação. A doutrina de Copérnico, que tão drasticamente degradou o status do homem no Universo, demorou quase um século para penetrar na consciência dos europeus. A nova degradação de nossa espécie para o status de mortalidade é muito mais difícil de digerir.
De fato, tem-se a impressão de que a novidade dessa perspectiva já se desgastou mesmo antes de ter sido adequadamente absorvida. O nome Hiroshima já se tornou um clichê histórico, como o célebre "Boston Tea Party". Retornamos a um estado de pseudonormalidade. Apenas uma diminuta minoria tem consciência do seguinte fato: a partir do instante em que abriu a caixa nuclear de Pandora, nossa espécie tem vivido com os dias contados.
Cada época teve suas cassandras, conquanto a humanidade tenha conseguido sobreviver a suas sinistras profecias. Entretanto, esta confortante reflexão já não é válida, pois em nenhuma época anterior tribo ou nação alguma possuiu o instrumental necessário para tornar este planeta inadequado para a vida. Elas só podiam infligir danos limitados a seus inimigos ¿ e assim o fizeram sempre que se lhes apresentou uma oportunidade. Agora, as nações podem tomar toda a biosfera como refém. Um Hitler, nascido vinte anos mais tarde, provavelmente teria feito isso, provocando uma Götterdämmerung (catástrofe) nuclear.
Infelizmente, uma invenção, uma vez realizada, não pode ser desinventada. A arma nuclear veio para ficar; integrou-se na condição humana. O homem terá que viver com ela permanentemente: não apenas durante a próxima crise de confrontação e a seguinte, não apenas durante a próxima década ou o próximo século, mas para sempre, isto é, por todo o tempo em que a humanidade sobreviver. Mas tudo leva a crer que isso não será por tempo muito longo.
Duas razões principais alicerçam esta conclusão. A primeira delas é técnica: à medida que os instrumentos da guerra nuclear se tornam mais potentes e mais fáceis de construir, torna-se inevitável sua disseminação tanto entre as nações jovens e imaturas como entre as nações antigas e arrogantes, ficando impraticável o controle global de sua produção. Num futuro previsível, essas armas serão fabricadas e estocadas em grandes quantidades, pelo mundo inteiro, por nações de todas as cores e ideologias, e a probabilidade de que a centelha que inicia a reação em cadeia será ateada cedo ou tarde, deliberada ou acidentalmente, aumentará na mesma proporção, até se aproximar, a longo prazo, da certeza. Pode-se comparar tal situação a uma aglomeração de jovens delinqüentes presos numa sala repleta de material inflamável, aos quais se dá uma caixa de fósforos ¿ com a piedosa recomendação de não brincarem com fogo.
A segunda razão principal que aponta para uma curta probabilidade de vida para o Homo sapiens na era pós-Hiroshima é o elemento paranóico revelado pelos registros de seu passado. Um observador imparcial, vindo de um planeta mais evoluído, que pudesse abranger de um só relance a história humana desde a caverna de Cro-Magnon até Auschwitz, certamente chegaria à conclusão de que a nossa raça, embora seja admirável sob alguns aspectos, é sob a maioria dos aspectos um produto biológico muito deteriorado. Além disso, as conseqüências de sua enfermidade mental sobrepujam em muito suas realizações culturais, se consideradas as oportunidades criadas pela prolongada existência. O som mais persistente que ecoa ao longo da história do homem é o rufar dos tambores de guerra. Guerras tribais, guerras religiosas, guerras civis, guerras dinásticas, guerras nacionais, guerras revolucionárias, guerras coloniais, guerras de conquista e de libertação, guerras para prevenir e para terminar todas as guerras seguem-se umas às outras numa cadeia de repetição compulsiva a perder-se nas brumas do passado, persistindo fundadas razões para crer que essa cadeia se estenderá para o futuro. Durante os primeiros vinte anos da era pós-Hiroshima, entre os anos 0 e 20 p. H. ¿ ou 1946-1966 segundo o nosso ultrapassado calendário ¿ o Pentágono1 registrou quarenta guerras combatidas com armas convencionais. E pelo menos em duas ocasiões¿ Berlim em 1950 e Cuba em 1962 ¿ chegamos à iminência de uma guerra nuclear. Se deixarmos à parte o conforto de piedosos pensamentos, devemos supor que os focos de potenciais conflitos continuarão a se acumular pelo globo terrestre, como regiões de alta pressão num mapa meteorológico. E a única salvaguarda precária contra a escalada de conflitos locais para guerras totais e retaliações mútuas dependerá sempre, por sua própria natureza, do autocontrole ou temeridade de falíveis homens-chaves e de regimes fanáticos. A roleta russa é um jogo que não pode ser tentado durante muito tempo.
O mais impressivo indício da patologia de nossa espécie manifesta-se no contraste entre suas incomparáveis proezas tecnológicas e sua também incomparável incompetência em resolver seus problemas sociais. Conseguimos controlar os movimentos de satélites colocados na órbita de distantes planetas, mas não conseguimos ainda controlar a situação da Irlanda do Norte. O homem pode sair da Terra e descer na Lua, mas não pode transpor a fronteira entre Berlim Oriental e Ocidental. Prometeu parte rumo às estrelas, com um sorriso hipócrita nos lábios e um símbolo totêmico nas mãos.
Nada mencionei ainda sobre os adicionais terrores da guerra bioquímica, nem sobre a explosão populacional, a poluição etc. que, embora abriguem em seu bojo sérias ameaças, distraíram de modo inadequado a atenção do público do fato central e mais importante, a saber, que a partir do ano de 1945 nossa espécie adquiriu o diabólico poder de aniquilar a si mesma, e que, a julgar pelo seu passado, é muito provável que ela use tal poder em alguma das novas crises, num futuro não muito distante. Como resultado, ocorreria a transformação da astronave Terra num novo Flying Dutchman (o navio fantasma), vagando por entre as estrelas com sua tripulação morta.
Se esta é a perspectiva mais provável, qual a razão para continuar nossos esporádicos esforços para salvar os pandas e evitar que nossos rios se transformem em cloacas? Ou juntar provisões para nossos netos? Ou, se realmente é assim, qual a razão para continuar a escrever este livro? Não se trata apenas de uma pergunta retórica, como o demonstra a generalizada sensação de desencanto existente entre os jovens. Mas existem pelo menos duas respostas satisfatórias para esse problema.
A primeira está contida nas duas palavras "como se", transformadas por Hans Vaihinger num sistema filosófico de reconhecida influência: "A Filosofia do Como Se"2. Em resumo significa que ao homem não cabe outra escolha senão viver por "ficções": como se o mundo ilusório dos sentidos representasse a Realidade última; como se ele possuísse uma vontade livre que o torna responsável por suas ações; como se existisse um Deus para premiar o comportamento virtuoso, e assim por diante. Da mesma forma, o indivíduo deve viver como se não estivesse condenado à morte, e a humanidade deve planejar seu futuro como se os seus dias não estivessem contados. Somente por força dessas ficções a mente do homem edificou um universo habitável, enriquecendo-o com um significado positivo (1).
A segunda resposta decorre do simples fato de estarmos ainda trabalhando com probabilidades e não com certezas, embora nossa espécie viva agora com os dias marcados, como já vem ocorrendo há décadas, e os sinais indiquem que ela está marchando para a catástrofe final. Persiste sempre a esperança do inesperado e do imprevisível. A partir do ano zero do novo calendário, o homem está carregando uma bomba-relógio presa ao pescoço, e há de ouvir o seu tique-taque ¿ ora mais forte, ora mais fraco, ora mais forte outra vez ¿ até que ela estoure, ou que o homem consiga desarmá-la. O tempo se torna cada vez mais escasso, a história acelera-se em ritmo loucamente alucinante e a razão nos afirma que diminuem sempre mais as possibilidades de se realizar com êxito a operação de desarmar a bomba, antes que seja demasiado tarde. Podemos apenas agir como se ainda houvesse tempo suficiente para executar essa operação.
Mas tal operação há de exigir uma atitude mais radical que as resoluções da ONU, as conferências para o desarmamento e os apelos para uma ingênua racionalidade. Tais apelos sempre encontraram ouvidos moucos, já desde os tempos dos profetas hebreus, pela simples razão de que o Homo sapiens não é um ser razoável ¿ pois se o fosse, jamais teria transformado sua história em tamanho descalabro sanguinolento. Aliás, não há o mínimo indício de que o homem tenha iniciado o processo de se tornar razoável.
O primeiro passo em direção a uma possível terapia consiste num correto diagnóstico a respeito do que houve de errado com nossa espécie. Incontáveis foram as tentativas de fazer tal diagnóstico, invocando a Queda Original, ou o "desejo de morte" de Freud, ou o "imperativo territorial" dos etologistas contemporâneos. Mas nenhuma delas alcançou grande êxito, porque não partiu da hipótese de que o Homo sapiens pode ser uma espécie biológica anômala, um fracasso da evolução, afetado por uma desordem endêmica que torna essa espécie diferente de todas as outras espécies animais ¿ assim como a linguagem, a ciência e a arte a tornam distinta num sentido positivo. No entanto, precisamente esta incômoda hipótese fornece o ponto de partida para o presente livro.
A evolução cometeu muitos erros. Julian Huxley a compara a um labirinto com grande número de becos sem saída, que levam à estagnação ou à extinção. Para cada espécie existente centenas de outras pereceram no passado. O acervo de fósseis é uma cesta de lixo repleta de modelos descartados pelo Desenhista Chefe. Tanto a evidência colhida nos registros da história humana como a apresentada pelas atuais pesquisas sobre o cérebro, indicam com muita clareza que algo saiu errado em algum lugar durante os últimos estágios explosivos da evolução biológica do Homo sapiens. E que existe uma falha, algum erro de construção, potencialmente fatal, ocorrido em nosso equipamento original ¿ mais especificamente, nos circuitos de nosso sistema nervoso ¿ que explicaria o traço de paranóia que perpassa toda a nossa história. Esta é a hipótese horrenda, mas plausível, que deve ser levada em consideração por qualquer pesquisa séria sobre a condição do homem. Os mais intuitivos diagnosticadores ¿ os poetas ¿ jamais cessaram de nos afirmar que o homem é mau e sempre foi assim. Mas os antropólogos, os psiquiatras e os estudiosos da evolução não levam os poetas a sério e continuam inabaláveis diante da evidência que lhes salta aos olhos. Esta relutância em enfrentar a realidade é, sem dúvida, um sintoma bastante significativo. Poder-se-ia objetar que não se pode exigir que um louco tenha consciência de sua própria loucura. A resposta é: ele pode, pois não é inteiramente louco o tempo todo. Em seus períodos de lucidez, os esquizofrênicos têm escrito relatos surpreendentemente claros sobre a própria enfermidade.
Tentarei agora apresentar uma lista sumária de alguns dos principais sintomas patológicos evidenciados pela desastrosa história de nossa espécie e, em seguida, utilizarei esses sintomas para discutir suas possíveis causas. Reduzi a lista de sintomas a quatro itens principais(2).
1. Um dos primeiros capítulos do Gênesis narra um episódio que inspirou muitos quadros célebres. Trata-se da cena em que Abraão amarra seu próprio filho sobre uma pilha de lenha e se prepara para degolá-lo e queimá-lo, provando com esse sacrifício seu profundo amor a Deus. Desde os primórdios da história deparamos um fenômeno estarrecedor, para o qual os antropólogos têm prestado muito pouca atenção: o sacrifício humano, o ritual de matar crianças, virgens, reis e heróis com o fito de aplacar e agradar a deuses inventados durante os pesadelos noturnos. Era um ritual onipresente, que persistiu desde a aurora pré-histórica até o auge das civilizações pré-colombianas e, em algumas partes do globo, até o início de nosso século. Dos habitantes das ilhas do Mar do Sul aos povos dos pântanos escandinavos, dos etruscos aos astecas, tais práticas surgiram independentemente nas mais variadas culturas, como manifestações de uma delusória tendência existente na psique humana, para a qual aparentemente sempre esteve e está propensa a espécie toda. Menosprezar tal fato como sendo uma sinistra curiosidade do passado, como geralmente se faz, significa ignorar a universalidade do fenômeno, as informações que ele nos fornece a respeito do elemento paranóico embutido na formação mental do homem, bem como a importância do fato para a situação atual do ser humano.
2. O Homo sapiens é praticamente o único ser do reino animal carente de salvaguardas instintivas contra a matança de seres da mesma espécie, isto é, de membros de sua própria espécie. A "Lei das Selvas" só conhece um único motivo legítimo para matar: a necessidade de alimentação. E isto apenas sob a condição de que o predador e a presa pertençam a espécies diferentes. No seio da mesma espécie, a competição e o conflito entre indivíduos ou grupos resolvem-se por simbólicas posturas de ameaça ou por cerimoniosos duelos que terminam com a fuga ou gesto de rendição de um dos oponentes, raramente provocando ferimentos mortais. As forças inibidoras ¿ tabus instintivos ¿ contra a morte ou os ferimentos graves causados a seres da mesma espécie são tão fortes na maioria dos animais ¿ inclusive nos primatas ¿ como os instintos da fome, do sexo ou do medo. O homem é o único (afora alguns controvertidos fenômenos observados entre ratos e formigas) a praticar a matança de seres de sua espécie, em escala individual e coletiva, de maneira espontânea ou organizada, por motivos que variam desde os ciúmes sexuais até sofismas de doutrinas metafísicas. O permanente estado de guerra entre coirmãos é uma característica básica da índole humana. Ademais, é adornado pela aplicação da tortura nas suas mais variadas formas, a começar pela crucifixão, indo até a morte na cadeira elétrica (3).
3. O terceiro sintoma está intimamente ligado aos dois anteriores: manifesta-se pela crônica e quase esquizofrênica ruptura entre a razão e a emoção, entre as faculdades racionais do homem e suas crenças irracionais, dominadas pelos sentimentos.
4. Finalmente, existe uma estarrecedora disparidade, já mencionada, entre as curvas de crescimento da ciência e tecnologia, de um lado, e da conduta ética, de outro; ou, para colocar o problema de modo diferente, entre os poderes do intelecto humano aplicado ao domínio do ambiente e sua incapacidade para manter relações harmoniosas no seio da família, da nação e da espécie como um todo. Aproximadamente há dois milênios e meio passados, no séc. VI a.C, os gregos se lançaram na aventura científica que posteriormente nos levou até a Lua. Esta é, sem dúvida, uma impressionante curva de crescimento. Mas o séc. VI a.C. também presenciou o surgimento do Taoísmo, Confucionismo e Budismo ¿ enquanto o séc. XX d.C. gerou o Hitlerismo, o Stalinismo e o Maoísmo.
Aqui não há nenhuma curva de crescimento visível. Eis como Bertalanffy aborda o problema:
O que se chama de progresso humano é uma questão puramente intelectual... no entanto, não se percebe grande desenvolvimento na parte moral. É difícil dizer se os modernos métodos de guerra são preferíveis às grandes pedras utilizadas pelos homens de Neandertal para esmagar a cabeça de seus irmãos. Por outro lado, é óbvio que os padrões morais de Lao-tse e Buda em nada perdem para os nossos. O córtex cerebral do homem contém cerca de 10 bilhões de neurônios que tornaram possível o progresso, partindo do machado de pedra para chegar aos aviões e às bombas atômicas, da mitologia primitiva até a teoria dos quanta. Não existe desenvolvimento correspondente na parte instintiva que leve os homens a melhorar seus caminhos. Por essa razão, as exortações morais, proferidas no decorrer dos séculos pelos fundadores de religiões e pelos grandes líderes da humanidade, sempre se revelaram desconcertantemente ineficientes.
Mande esse viajão tomar no cú através dos
::: posted by ARI ALMEIDA at 2:37 PM
(parte 2)
A lista de sintomas poderia ser aumentada. Contudo, penso que os mencionados por mim demonstram a essência da condição humana. Naturalmente, eles se inter-relacionam. Por isso, o sacrifício de seres humanos pode ser visto como uma subcategoria da separação esquizofrênica entre razão e sentimento, e o contraste entre as curvas de crescimento das realizações tecnológicas e morais pode ser considerado como ulterior conseqüência disso.
Até o momento, restringimo-nos ao campo dos fatos, registrados pelos relatos históricos e pelas pesquisas dos antropólogos sobre a pré-história. Ao desviarmos nossa atenção dos sintomas para as causas, deveremos recorrer a hipóteses mais ou menos especulativas, que por sua vez também estão inter-relacionadas, embora pertençam a diferentes disciplinas, a saber, a neurofisiologia, a antropologia e a psicologia.
A hipótese neurofisiológica provém da assim chamada teoria das emoções de Papez-MacLean, baseada em cerca de 30 anos de pesquisa experimental (4). Analisei-a detalhadamente em The Ghost in the Machine, razão pela qual aqui me restringirei a um sucinto esboço, evitando entrar em detalhes fisiológicos.
A teoria se baseia nas diferenças fundamentais de anatomia e função existentes entre as estruturas arcaicas do cérebro que o homem compartilha com os répteis e os mamíferos inferiores, e o neocórtex especificamente humano que a evolução sobrepôs àquelas estruturas ¿ sem, contudo, garantir uma adequada coordenação. O resultado desse grave erro da evolução é uma difícil coexistência, que freqüentemente degenera em sério conflito, entre as profundas estruturas ancestrais do cérebro, relacionadas sobretudo com o comportamento instintivo e emocional, e o neocórtex que forneceu ao homem a linguagem e o pensamento lógico e simbólico. MacLean resumiu, de modo excepcionalmente pitoresco, num estudo técnico, a situação resultante:
O homem conta, na condição que a Natureza lhe outorgou, essencialmente com três cérebros que, apesar das grandes diferenças de estrutura, devem funcionar juntos e comunicar-se entre si. O mais velho desses cérebros é basicamente réptil. O segundo foi herdado dos mamíferos inferiores e o terceiro é um desenvolvimento mamífero posterior que... tornou o homem especificamente homem. Falando alegoricamente desses três cérebros dentro de um único cérebro, podemos imaginar que o psicanalista, ao pedir ao paciente para se deitar no divã, está solicitando-lhe que se acomode ao lado de um cavalo e de um crocodilo
Se nós substituirmos o paciente individual por toda a humanidade e o divã do psicanalista pelo palco da história, obteremos um quadro grotesco, mas essencialmente fidedigno, da condição humana. Numa série mais recente de palestras sobre neurofisiologia, MacLean apresentou outra metáfora:
Na atual linguagem popular, esses três cérebros podem ser imaginados como computadores biológicos, possuindo cada qual sua forma peculiar de subjetividade e sua própria inteligência, seu senso particular de tempo e espaço e sua própria memória, motor e outras funções.
O cérebro "réptil" e o "paleomamífero" juntos formam o assim chamado sistema límbico, ao qual, por amor à simplicidade, chamaremos de "cérebro antigo", que se contrapõe ao neocórtex, o "tampão pensante" especificamente humano. Todavia, enquanto as estruturas antediluvianas da parte mais central de nosso cérebro, que controla os instintos, as paixões e as tendências biológicas, quase não foram tocadas pelos ágeis dedos da evolução, o neocórtex dos homínidas se expandiu nos últimos 500 mil anos, numa velocidade explosiva sem precedentes na história da evolução ¿ de tal forma que alguns anatomistas chegam a compará-lo a um crescimento tumoroso.
Essa explosão cerebral ocorrida na segunda metade da Era Pleistocena parece ter acompanhado o tipo de curva exponencial que recentemente se tornou tão familiar para todos nós ¿ explosão demográfica, explosão da informação etc. ¿ e aqui pode haver mais do que uma analogia superficial, visto que essas curvas refletem o fenômeno da aceleração da história em vários domínios. Mas, as explosões não produzem resultados harmoniosos. Nesse caso, o resultado parece ter sido o de que o rápido desenvolvimento do tampão pensante, que enriqueceu o homem com seu poder de raciocínio, não permitiu que esta parte do cérebro se integrasse e coordenasse adequadamente com as antigas estruturas emocionais, às quais foi sobreposta com velocidade sem precedentes. As tênues ligações neurológicas entre o neocórtex e as arcaicas estruturas do cérebro central são aparentemente inadequadas.
Assim, a explosão cerebral deu origem a uma espécie mentalmente desequilibrada em que o velho cérebro e o novo cérebro, a emoção e o intelecto, a fé e a razão vivem em permanente atrito. De um lado, o pálido rol de pensamento racional, de lógica, suspenso por um tênue fio, despedaçado com demasiada facilidade; de outro, a avassaladora fúria de crenças irracionais apaixonadamente defendidas, que se refletem nos holocaustos da história passada e presente.
Se a demonstração neurofisiológica não nos tivesse ensinado o contrário, teríamos esperado que ela nos revelasse um processo evolutivo que gradualmente transformou o velho cérebro primitivo em um instrumento mais sofisticado ¿ assim como transformou as brânquias em pulmões, ou os membros anteriores dos répteis ancestrais nas asas dos pássaros, nas nadadeiras das baleias, nas mãos dos homens. Mas, ao invés de transformar o velho cérebro em novo, a evolução sobrepôs uma nova estrutura superior a uma antiga, com funções parcialmente justapostas, sem fornecer ao novo cérebro um poder claramente estabelecido de controlar o velho cérebro.
Expondo o fato com crueza: a evolução deixou alguns parafusos soltos entre o neocórtex e o hipotálamo. MacLean criou o termo esquizofisiologia para essa falha endêmica no sistema nervoso do homem. Ele a define como:
... uma dicotomia na função do córtex filogeneticamente velho e novo, a qual pode esclarecer as diferenças entre o comportamento emocional e intelectual. Enquanto nossas funções intelectuais são produzidas pela parte mais nova e muito mais desenvolvida do cérebro, nosso comportamento afetivo continua a ser dominado por um sistema relativamente rude e primitivo, por estruturas arcaicas do cérebro, cuja forma fundamental sofreu apenas diminutas modificações durante todo o curso da evolução, desde o rato até o homem
A hipótese de que esse tipo de esquizofisiologia é parte de nossa herança genética, visto ter sido moldado na espécie humana, poderia ser de suma utilidade para explicar alguns dos sintomas patológicos mencionados anteriormente. O conflito crônico entre o pensamento racional e as crenças irracionais, o decorrente traço paranóico visível em nossa história, o contraste entre as curvas de crescimento da ciência e da ética tornar-se-iam pelo menos compreensíveis, podendo ser expressos em termos fisiológicos. E qualquer condição que pode ser expressa em termos fisiológicos deverá ser, em última instância, sensível a remédios ¿ fato que discutiremos mais adiante. Por ora, ressaltemos apenas que a origem do fracasso evolutivo que provocou a disposição esquizofisiológica do homem parece residir na rápida e quase brutal superposição (em vez de transformação) do neocórtex sobre as estruturas ancestrais e, em decorrência, a insuficiente coordenação entre o novo cérebro e o velho, agravada por um inadequado controle do primeiro sobre o segundo.
Ao concluir esta seção, gostaria de frisar mais uma vez que, para o pesquisador da evolução, não é em absoluto improvável a suposição de que o equipamento nativo do homem, embora superior ao de qualquer outra espécie animal, possui apesar disso alguma grave falha no circuito desse mais precioso e delicado instrumento que é o sistema nervoso. Quando o biólogo fala de "asneiras" da evolução, não pretende com isso repreender a evolução por haver falhado na obtenção de algum ideal teórico, mas quer apenas ressaltar algo muito simples e preciso: algum evidente desvio dos próprios padrões de eficiência construtiva da Natureza, que priva um órgão de sua eficiência ¿ como as monstruosas galhadas dos alces irlandeses, já extintos. As tartarugas e os besouros estão bem protegidos por suas couraças, mas estas os tornam tão pesados na parte superior que, se caírem de costas durante um combate ou por um simples infortúnio, não conseguirão se reerguer, ficando assim condenados à morte ¿ uma grotesca falha de construção que Kafka transformou num símbolo da condição humana.
Mas os maiores erros ocorreram na evolução dos vários tipos de cérebro. Assim, o cérebro dos invertebrados desenvolveu-se ao redor do tubo digestivo, de tal maneira que, se a massa neural tentasse crescer e expandir-se, o tubo digestivo ficaria cada vez mais comprimido (como ocorreu com as aranhas e os escorpiões, que só conseguem fazer passar líquidos pelo seu esôfago e por isso se tornaram sugadores de sangue). Em The Origin of Vertebrates, Gaskell comentou:
Na época em que os vertebrados começaram a aparecer, a direção e o progresso da variação nos artrópodes estavam rumando para um terrível dilema, por causa da maneira como o cérebro era atravessado pelo esôfago ¿ a capacidade de ingerir alimentos sem a necessária inteligência para consegui-los, ou suficiente inteligência para captar alimentos sem o poder de consumi-los
E outro grande biólogo, Wood Jones:
Portanto, aqui está o fim do progresso na construção do cérebro entre os invertebrados... Os invertebrados cometeram um erro fatal quando começaram a construir seus cérebros ao redor do esôfago. Fracassou sua tentativa de desenvolver cérebros grandes... Deve-se começar tudo de novo
O novo início foi realizado pelos vertebrados. Mas uma das principais divisões dos vertebrados, os marsupiais australianos (que, diversamente de nós, placentários, carregam seus filhotes prematuros em bolsas), novamente entraram num beco sem saída. Falta a seu cérebro um componente vital, o corpus callosum ¿ um proeminente nervo que, nos placentários, liga o hemisfério cerebral direito ao esquerdo. Pesquisa muito recente sobre o cérebro descobriu uma divisão fundamental de funções nos dois hemisférios que se complementam um ao outro de modo semelhante a Yin e Yang. Obviamente, os dois hemisférios devem trabalhar em harmonia para o animal (ou o homem) poder fruir plenamente os benefícios de seu potencial. Por conseguinte, a ausência de um corpus callosum significa coordenação inadequada entre as duas metades do cérebro ¿ uma frase que nos soa muito familiar. Essa pode ser a principal razão por que a evolução dos marsupiais ¿ embora tenha produzido várias espécies que apresentam profundas semelhanças com seus primos placentários ¿ finalmente estancou, na escala evolutiva, ao nível do urso coala.
Mande esse viajão tomar no cú através dos
::: posted by ARI ALMEIDA at 2:36 PM
(parte 3)
Pretendo retornar mais adiante ao tão negligenciado quanto fascinante assunto dos marsupiais. No atual contexto, eles e os artrópodes, bem como outros exemplos, podem servir de amostras elucidativas que tornam mais fácil aceitar a possibilidade de que também o Homo sapiens pode ser vítima de uma construção defeituosa do cérebro. Nós, graças a Deus, possuímos um sólido corpus callosum que integra horizontalmente a parte direita com a esquerda. Mas, em sentido vertical, da sede do pensamento criativo para as esponjosas profundidades do instinto e da paixão, nem tudo está em perfeita ordem. A evidência alcançada em laboratórios fisiológicos, o trágico acervo da história geral e as triviais anomalias de nosso comportamento cotidiano, tudo aponta para a mesma conclusão.
Outra maneira de analisar a situação do homem parte do fato de que a criança deve suportar um período mais longo de incapacidade e total dependência de seus pais do que os filhotes de qualquer outra espécie. O berço é um confinamento mais oprimente que a bolsa do canguru. Pode-se facilmente imaginar que essa experiência prematura de dependência deixa marcas indeléveis, sendo responsável, ao menos em parte, pela predisposição do homem de submeter-se à autoridade exercida por indivíduos ou grupos, bem como por sua sugestionabilidade às doutrinas e imperativos morais. A lavagem cerebral começa no berço.
A primeira sugestão feita pelo hipnotizador a seu cliente é que este se mantenha totalmente aberto às sugestões hipnóticas. O cliente está sendo condicionado para tornar-se suscetível ao condicionamento. A indefesa criança é submetida a semelhante processo. É transformada num apto recipiente de crenças pré-fabricadas (5).
Para a grande maioria dos homens ao longo da história, o sistema de crenças que eles aceitaram, pelo qual estavam preparados para viver e para morrer, não foi por eles elaborado ou escolhido; foi-lhes impingido pelo acaso do nascimento. Pro pátria mori dulce et decorum est (É doce e digno morrer pela pátria), seja qual for a pátria onde a cegonha deixa a pessoa cair. O raciocínio crítico exerceu, se é que o fez, apenas um papel secundário no processo de adotar uma fé, um código de ética, uma Weltanschauung; no processo de se tornar um fervoroso cruzado cristão, um fanático maometano engajado na Guerra Santa, um Roundehead (puritano inglês) ou um templário. Os contínuos desastres registrados na história humana originam-se principalmente da excessiva capacidade e ânsia do homem para identificar-se com uma tribo, nação, igreja ou causa, esposando o seu credo com muito entusiasmo mas sem o mínimo senso crítico, mesmo quando os preceitos desse credo são contrários à razão, desprovidos de interesse próprio ou prejudiciais aos direitos de autopreservação.
Somos assim arrastados à antiquada conclusão de que o problema de nossa espécie não é um excesso de agressividade, mas uma excessiva capacidade para devotamento fanático. Mesmo uma superficial olhadela para a história há de convencer-nos de que os crimes individuais cometidos por motivos egoístas desempenham um papel bastante irrisório na tragédia humana, se comparados ao número de pessoas massacradas pela desprendida lealdade à própria tribo, nação, dinastia, igreja, ou ideologia política, ad maiorem gloriam Dei (para a maior glória de Deus). A ênfase recai sobre desprendida. Exceção feita para uma pequena minoria de mercenários ou de pessoas sádicas, as guerras não são feitas para obter ganhos pessoais, mas por lealdade e devotamento ao rei, ao país, ou à causa. Em todas as culturas, incluindo a nossa, os homicídios cometidos por razões pessoais constituem uma raridade estatística. Os homicídios praticados por motivos não egoístas, com risco da própria vida, são o fenômeno dominante- na história.
A esta altura, devo inserir duas breves observações polêmicas:
A primeira: quando Freud proclamou ex cathedra que as guerras são provocadas por instintos de agressão reprimidos, que tentam extravasar-se, o povo inclinou-se a acreditar nele, pois isso o fazia sentir-se culpado. Mas Freud não apresentou um fragmento sequer de evidência histórica ou psicológica a favor de sua afirmativa. Qualquer um que tenha servido nas fileiras de um exército pode testemunhar que os sentimentos de agressão contra o inimigo dificilmente desempenham algum papel nas lúgubres rotinas do desencadeamento de uma guerra. Os soldados não odeiam. Vivem assustados, entediados, famintos de sexo, com saudades de casa. Lutam com resignação porque não têm outra escolha, ou com entusiasmo pela causa do rei ou da pátria, da verdadeira religião, de um motivo justo ¿ não movidos pelo ódio, mas pela lealdade. Repetindo mais uma vez: a tragédia do homem não reside no excesso de agressividade, mas no excesso de devotamento.
A segunda observação polêmica diz respeito a outra teoria que recentemente se tornou popular entre os antropólogos, pretendendo que a origem da guerra deve ser atribuída à instintiva necessidade que algumas espécies de animais têm de defender a qualquer custo seu próprio pedaço de terra ou de mar ¿ o assim chamado "imperativo territorial". A mim se me afigura tão pouco convincente quanto a hipótese de Freud. As guerras do homem, com raras exceções, não foram desencadeadas por causa da posse individual de territórios. Na realidade, o homem que parte para a guerra deixa a casa que deve defender e dispara seus tiros muito longe dela. E o que o leva a fazer isso não é a necessidade vital de defender sua porção individual de terras aráveis e pradarias, mas seu devotamento a símbolos derivados das tradições tribais, dos mandamentos divinos e dos slogans políticos. Não se fazem guerras por causa de territórios, mas por causa de palavras.
Essa idéia nos leva ao próximo item de nosso levantamento das possíveis causas da atual situação do homem. A mais mortífera das armas humanas é a linguagem. O homem é tão suscetível de ser hipnotizado por slogans, quanto é indefeso às doenças infecciosas. Mas quando surge uma epidemia o espírito de grupo assume o comando. E segue as próprias regras, bem diferentes das regras de conduta dos indivíduos. Quando uma pessoa se identifica com um grupo, sua capacidade de raciocínio diminui e suas paixões se intensificam por uma espécie de ressonância ou realimentação positiva. O indivíduo não é um assassino, mas o grupo é. E, por se identificar com o grupo, o indivíduo se transforma num assassino. Essa é a infernal dialética refletida na história das guerras do homem, das perseguições, dos genocídios. E o principal catalisador dessa transformação é o poder hipnótico da palavra. As palavras de Adolf Hitler foram os mais poderosos agentes de destruição em sua época. Muito antes de se inventar a imprensa, as palavras do Profeta escolhido de Alá provocaram uma emotiva reação em cadeia que sacudiu o mundo, desde a Ásia Central até as costas do Atlântico. Sem palavras, não haveria poesia ¿ nem guerra. A linguagem se constitui no principal fator de nossa superioridade em relação aos irmãos animais ¿ e, em razão de seu explosivo potencial emotivo, numa constante ameaça à sobrevivência.
Esse ponto aparentemente paradoxal é ilustrado por recentes observações de campo feitas em grupos de macacos japoneses, as quais revelaram que diferentes tribos de uma espécie podem desenvolver hábitos surpreendentemente diferentes ¿ poderíamos quase dizer diferentes culturas. Algumas tribos começaram a lavar as batatas no rio antes de comê-las, outras não. Às vezes, um grupo migratório de lavadores de batatas encontrava outro de não lavadores, e cada grupo observava o estranho comportamento do outro, com evidente espanto. Mas, ao contrário dos habitantes de Liliput que empreenderam santas cruzadas por causa da divergência sobre que lado escolher para se quebrar o ovo, os macacos lavadores de batatas não declaram guerra contra os não lavadores porque as pobres, criaturas não possuem uma linguagem que os capacite a dogmatizar que a lavação das batatas é um mandamento divino e o fato de comê-las sem lavar é uma heresia mortal.
Obviamente, a maneira mais rápida de abolir a guerra seria abolir a linguagem. O próprio Jesus parece ter tido plena consciência disso quando afirmou: "Que a vossa maneira de falar seja 'sim, sim, não, não', pois tudo o mais vem do demônio". E, em certo sentido, a humanidade renunciou à linguagem há muito tempo, se por linguagem significarmos um método de comunicação comum a toda a espécie. A Torre de Babel é um símbolo eterno. Outras espécies possuem um único método de comunicação ¿ sinais, sons, ou secreção de odores ¿ entendida por todos os membros dessa espécie. Quando um cão são-bernardo encontra um poodle, ambos se entendem mutuamente, sem necessitar de um intérprete, apesar de terem aparências bem diversas. O Homo sapiens, por sua vez, está dividido em cerca de 3 mil grupos de linguagem. Cada língua ¿ e, por conseguinte, cada dialeto ¿ atua como força coesiva dentro do grupo e como força divisória entre os grupos. Essa é uma das razões por que as forças de separação, em nossa história, são muito mais poderosas que as forças de coesão. Os homens demonstram uma variedade muito maior de aparências físicas e comportamentos que qualquer outra espécie (excetuando-se os produtos de criação artificial). E o dom da linguagem, ao invés de sobrepujar essas diferenças, levanta novas barreiras e reforça os contrastes. Possuímos satélites de comunicação que podem transmitir uma mensagem a toda a população do planeta, mas não contamos com uma língua franca que possa tornar essa mensagem universalmente compreensível. Parece muito estranho que, exceto um pequeno grupo de valentes esperantistas, nem a UNESCO, nem qualquer outra organização internacional tenha descoberto até agora que a maneira mais simples de promover o entendimento será a de promover uma língua que seja compreendida por todos.
Em seu livro Unpopular Essays, Bertrand Russell apresenta um fato pitoresco:
F. W. H. Myers, convertido pelo espiritualismo à crença numa vida futura, perguntou a uma senhora, que havia recentemente perdido a filha, o que teria acontecido, na opinião da mãe, à alma da falecida. A mãe respondeu: "Bem, suponho que ela esteja gozando a bem-aventurança eterna. Mas eu gostaria que você não tocasse nesse assunto tão desagradável.¿
O último item de minha lista de fatores que poderiam exercer influência na patologia de nossa espécie é a descoberta da morte, ou melhor, sua descoberta pelo intelecto e sua rejeição pelo instinto e pelo sentimento. Esta é, portanto, outra manifestação da cisão existente na mente humana, perpetuando a divisão entre fé e razão. A fé é o parceiro mais velho e mais poderoso. E quando surge o conflito, a metade raciocinante da mente sente-se impelida a fornecer sofisticadas racionalizações para aquietar o terror ao vazio, do parceiro mais velho. Todavia, não só o ingênuo conceito de "bem-aventurança eterna" (ou de castigo eterno para o condenado), mas também as mais sofisticadas teorias parapsicológicas de sobrevivência apresentam problemas que, aparentemente, sobrepujam a capacidade de raciocínio de nossa espécie. Talvez haja milhões de outras culturas em planetas milhões de anos mais velhos que o nosso, para as quais a morte não mais representa um problema. Mas, para usar uma gíria de computação, permanece o fato de não estarmos "programados" para a tarefa. Ao defrontar uma tarefa para a qual não está programado, um computador ou é reduzido ao silêncio, ou fica maluco. Parece que a última hipótese ocorreu, com desoladora freqüência, nas mais variadas culturas. Diante do inextricável paradoxo da consciência que emerge do vácuo anterior ao nascimento e mergulha na escuridão posterior à morte, suas mentes ficaram malucas e povoaram o ar com os espíritos dos mortos, com deuses, anjos e demônios, até que a atmosfera se tornasse saturada de presenças invisíveis, que são, quando muito, caprichosas e imprevisíveis e, na maioria das vezes, malévolas e vingativas. Deviam ser veneradas, lisonjeadas e aplacadas com ritos complicadamente cruéis, incluindo o sacrifício humano, a guerra santa e a queima dos hereges.
Durante quase dois mil anos, milhões de pessoas, também inteligentes, foram convencidas de que a grande maioria da humanidade, que não compartilhava seu credo específico ou não realizava seus ritos, era consumida pelas chamas durante toda a eternidade, por determinação de um deus amoroso. Semelhantes fantasias grotescas eram compartilhadas coletivamente por outras culturas, testemunhando a universalidade da tendência paranóica da raça.
Mais uma vez, porém, existe a outra face da medalha. A recusa em acreditar que tudo terminava com a morte fez surgir as pirâmides no deserto, criou um conjunto de valores éticos e se transformou na principal fonte de inspiração para as criações artísticas. Se a palavra "morte" não existisse em nosso vocabulário, as maiores obras da literatura não teriam sido escritas. A criatividade e a patologia do homem são duas faces da mesma medalha, cunhada no mesmo molde da evolução.
Resumindo, a desastrosa história de nossa espécie mostra a futilidade de qualquer tentativa de diagnóstico que não leve em conta a possibilidade de que o Homo sapiens seja uma vítima de um dos inúmeros erros da evolução. O exemplo dos artrópodes e marsupiais, entre outros, mostra que tais erros ocorrem de fato e podem afetar adversamente a evolução do cérebro.
Enumerei alguns sintomas evidentes da desordem mental que parece ser endêmica em nossa espécie:
a) os onipresentes ritos de sacrifícios humanos no alvorecer da pré-história;
b) a interminável realização de guerras entre a mesma espécie que, embora no início pudessem causar apenas danos limitados, chegam agora a pôr em perigo todo o planeta;
c) a paranóica cisão entre o pensamento racional e as crenças irracionais, baseadas no sentimento;
d) o contraste entre a genial capacidade humana de conquistar a Natureza e a inépcia do homem em resolver seus próprios problemas ¿ simbolizadas pela nova fronteira aberta na Lua e pelos campos de minas espalhados através da Europa.
É importante sublinhar mais uma vez que esses fenômenos patológicos são específica e unicamente humanos, não sendo encontrados em nenhuma outra espécie. Por conseguinte, parece muito lógico que nossa procura de explicações deva também se concentrar sobretudo naqueles atributos do Homo sapiens que são exclusivamente humanos e não compartilhados pelo resto do reino animal. Contudo, por mais óbvia que seja essa conclusão, ela vai contra a corrente reducionista que impera em nossos dias. "Reducionismo" é a crença filosófica de que todas as atividades humanas podem ser "reduzidas" a ¿ isto é, explicadas por ¿ respostas comportamentais de animais inferiores, como os cães de Pavlov, os ratos e pombos de Skinner, os grous de Lorenz e os macacos calvos de Morris, e de que, por sua vez, essas respostas podem ser reduzidas às leis físicas que governam a matéria inanimada. Sem dúvida, Pavlov ou Lorenz contribuíram com novas luzes para a compreensão da natureza humana, mas apenas sob esses aspectos, por sinal elementares, não específicos da natureza humana, os quais nós dividimos com os cães, ratos ou gansos, enquanto os aspectos específica e exclusivamente humanos, que definem a peculiaridade de nossa espécie, são esquecidos ou negligenciados. E, visto que essas características ímpares se manifestam tanto na criatividade quanto na patologia do homem, os cientistas de convicção reducionista não podem se arvorar em diagnosticadores competentes, assim como não podem pretender ser críticos de arte. Esse o motivo por que a atual situação científica fracassou tão lamentavelmente na tentativa de definir a condição do homem. Se ele é realmente um autômato, não há razão para colocar um estetoscópio em seu peito.
Portanto, repito novamente: se os sintomas de nossa patologia são específicos da espécie, isto é, exclusivamente humanos, então as explicações para eles devem ser procuradas no mesmo nível exclusivo. Tal conclusão não se inspira na arrogância, mas na evidência fornecida pelos registros históricos. Os caminhos para uma diagnose, por mim sucintamente delineados, foram:
a) o crescimento explosivo do neocórtex humano e seu insuficiente controle sobre o cérebro mais antigo;
b) a prolongada incapacidade da criança e sua conseqüente sujeição passiva à autoridade;
c) o duplo papel da linguagem, como incitadora da populaça e como construtora de barreiras étnicas;
d) finalmente, a descoberta da morte e, em decorrência, o desnorteante medo dela. Cada um desses fatores será detalhadamente discutido mais adiante.
Não parece tarefa impossível neutralizar essas tendências patogênicas. A medicina já descobriu remédios para certos tipos de psicoses esquizofrênicas e maníaco-depressivas. Portanto, não será utópico acreditar que ela descobrirá uma combinação de enzimas benévolas que forneçam ao neocórtex a força para impor um veto contra as loucuras do cérebro antigo, corrijam os gritantes erros da evolução, reconciliem o sentimento com a razão, e catalisem a convulsiva transformação do maníaco em homem. Ainda outras sendas esperam para serem exploradas e podem conduzir à salvação no momento oportuno, contanto que tudo seja feito com a devida urgência, inspirada na mensagem do novo calendário ¿ e num diagnóstico exato da natureza do homem, baseado num novo enfoque das ciências da vida.
NOTAS:
(1) Não se deve confundir a filosofia de Vaihinger (1852-1933) nem com o Fenomenismo nem com o Pragmatismo Americano, apesar das afinidades com esses sistemas.
(2) Esta seção baseia-se em The Ghost in the Machine (O Fantasma da Máquina) e seu resumo feito num trabalho apresentado no Fourteenth Nobel Symposium ("The Urge to Self-Destruction", reimpresso em The Heel of Achilles).
(3) "A tortura é hoje em dia um instrumento de repressão política tão difundido que podemos falar da existência de "Estados de Tortura" como uma realidade política de nossos tempos. A virulência tornou-se epidêmica e não conhece nenhuma fronteira ideológica, racial ou econômica. Em mais de trinta países, a tortura é sistematicamente aplicada para extrair confissões, conseguir informações, castigar a discordância e eliminar a oposição à política repressiva do governo. A tortura foi institucionalizada..." (Victor Jokel, Diretor da Anistia Britânica, em "Epidemic: Torture", Anistia Internacional, Londres n.d., c. 1975.)
(4) O Dr. Paul D. MacLean é chefe do Laboratory of Brain Evolution and Behavior, National Institute of Mental Health, Bethesda, Maryland.
(5)"Konrad Lorenz fala de "cunhagem" (imprinting), afirmando que a idade crítica da receptividade é a imediatamente posterior a puberdade'. Parece que ele não compreendeu que no homem, ao contrário do que ocorre com seus grous, á susceptibilidade para cunhagem se estende do berço à sepultura.
Mande esse viajão tomar no cú através dos
::: posted by ARI ALMEIDA at 2:34 PM
Terça-feira, Junho 12, 2007 :::
Dia dos Namorados O CARALHO!!!
Neste dia 12 de junho o que se comemora mesmo é o quarto aniversário deste blog. De presente pra vocês vai aí o link pro nosso primeiro post.
É foda...
Mande esse viajão tomar no cú através dos
::: posted by ARI ALMEIDA at 1:34 PM
Segunda-feira, Junho 04, 2007 :::
Por que sabotar?
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim. Ao menino de 1918 chamavam anarquista. Porém meu ódio é o melhor de mim. Com ele me salvo e dou a poucos uma esperança mínima...
(Timoteo Pinto, em A Flor e a Nausea)
Existem pessoas que pensam com a tevê. Isso mesmo, com a tevê que têm em casa. Elas acreditam que devíamos ficar quietinhos, para nosso próprio bem, consumindo o que pudermos. Para elas não há motivo algum para sabotar uma sociedade que está em paz. Sabotadores são arruaceiros sem nada melhor pra fazer.
Elas sabem que tem alguma coisa errada, mas acreditam que se cumprirem as ordens corretamente (da igreja ou da tevê), se pagarem seus impostos e votarem corretamente vai dar tudo certo. E se não der, é porque não era pra dar, fizeram tudo que puderam, exceto o essencial: descobrir qual a raiz da questão.
Quem somos nós para tentar mudar o mundo? Somos os sabotados. É claro que é bem conveniente para os defensores do status quo, pensarmos que fomos nós que começamos ou que merecemos o mundo em que vivemos, essa idéia de merecimento é um cativeiro em que nossas mentes foram colocadas e é certo afirmar que quem começou tudo isso foram eles. Nós, pessoas de espírito livre, estávamos aqui antes e fomos dizimados quando nos opomos à invasão e à dominação. Não estamos faltando com o devido respeito à sociedade de consumo em massa, porque sendo esta uma forma de cárcere, ela nunca nos respeitou. É ela que ameaça nossa existência. Seria uma ofensa e um desrespeito muito maior a nós mesmos não fazer nada sobre isso.
Se não rejeitarmos os papéis que eles nos deram nesse espetáculo insano, logo não haverá nem o pior dos papéis para a maior parte de nós. Fazer alguma coisa começa por aprender alguma coisa sobre o problema. E não é na escola que você irá aprender isso, não é na tevê. Quando a mais básica informação sobre o que nossa sociedade, e com certeza todas aquelas consideradas importantes demais, realmente é não conseguem chegar nas ruas, é tempo de colocar essa informação nas ruas por outros meios.
Sabotar é preciso. Viver (com se vive hoje) não é preciso.
Mande esse viajão tomar no cú através dos
::: posted by ARI ALMEIDA at 4:24 PM
A Arquitectonalidade da Psicogeografia ou os Hieróglifos da Deriva ou Sabe-se lá que Diabos Essa Merda Quer Dizer
(in memorian Guy Debord aquele mala)
Hakim Bey
Obscuras & misteriosas grutas nas quais eles entram, imitando serpentes - espaços de regresso a uma intimidade que "há muito, muito tempo" foi estilhaçada pela memória - pela simultânea reiteração & lentidão da memória - essa faculdade da consciência humana "próxima do divino". Mas não se diz que "perdoar é humano, esquecer é divino"? Na reiteração ritual ou na lembrança (dhikr)1 dos sufis, esquece-se o "eu" precisamente para anular o Eu; - deste modo re-lembrar é anular a separação, e este apagamento é uma espécie de esquecimento. (Em certos edifícios chave Islâmicos, como o Alhambra, a reiteração do dhikr como texto caligramático, torna-se na própria definição do espaço construído como um dispositivo mnemónico ou "Palácio da Memória" - não ornamento, mas a própria base ou o princípio-da-precipitação-dos-cristais da arquitectura.)
"Desde que nós somos Jesus Cristo" como anunciou um dos Irmãos do celebrado livre Espírito, "a única questão é que aquilo que já é perfeito em nós, deve ser reiterado...". Este processo, todavia, conduz a uma paradoxal des-aprendizagem - e por isso à perda do medo - assim, uma pessoa pode "deixar-se conduzir pelos seus sentidos, como uma criança". Assim, a caverna representa a inconsciência; - o objectivo, contudo, não é perder a inconsciência mas recapturar aquilo de que a inconsciência nos separou, aquilo que a consciência "deturpou". Deste modo, dentro da própria gruta negra da memória, devem ser paradoxalmente inscritos - imagens-chave são reiteradas (literalmente repetidas em alguns casos como num palimpsesto ou por incisivos desenhos sobrepostos) - imagens que representam perda de intimidade, como um panteão de animais ("com os quais é bom pensar")2 - cada animal uma graça especial ou uma função "divina". Assim, a caverna torna-se no primeiro espaço arquitectónico intencional, a intersecção da inconsciência (a beatitude da "Natureza") & consciência (memória, reiteração).
Desde Platão, fomos ensinados a venerar a anamnese - mas recuemos à caverna pré-Platónica, a gruta paleolítica, para recuperar a dialéctica positiva da amnésia - sem a qual a memória se torna simplesmente numa maldição, coagulando por fim como História (o grau zero da memória como asfixia): a primeira cidade (Çatalk Hüyük) já se estrutura em grelha, a própria antítese da estética da gruta disforme, com os seus meandros & espaços extraordinários, estalactites & estalagmites fundidas - a sua organicidade (que se expressa em todo o caso como vida mineral). As cidades de Sumer & Harapa que foram igualmente delineadas como grelhas rígidas, abstracções cruéis de linearidade. Desenhar uma linha é separar, criar uma hierarquia espacial (entre sacerdote & povo, ricos & pobres, excesso & excassez) e para definir o topia da memória contra o obscuro inconsciente da tribo, a caverna utópica, a organicidade selvagem. Aqui, o tertium quid ou coincidentia oppositorium (entre "gruta" & Babilónia) pode aparecer na cidade medieval (que sobrevive ainda em alguns lugares do mundo Islâmico) onde a excessiva crueldade da grelha é apaziguada - não apagada, mas atenuada - pelo registo de um espaço em consonância com o modelo de uma árvore ou do delta de um rio (caótica bifurcação oscilando com complexidade baseada em "atractores estranhos" 3 intra-dimensionais) - um urbanismo do orgânico, da estética, & do complexo ou plural (por oposição ao inorgânico, ideológico, & simples ou total).
A cidade medieval é uma gruta por extrusão. Algumas destas cidades introduziram sumptuosos cortejos alegóricos ou paradas, nas quais grandes complexos de símbolos (composições de hieróglifos) eram construídos & dispostos ou transportados pelo labirinto de ruas. Mitos & lendas eram encenadas - por vezes o Senhor Feudal desempenhava o papel de "Senhor Feudal", vagueando por um palco de ruas, com personagens simbólicas (como Bloom em Nighttown), renovando assim a Cidade como o seu Herói de eleição, submetido à iniciação do casamento ritual com a deusa urbana.
Aqui a Cidade Livre adquire uma consciência sincrónica & lúdica de si mesma hic et nunc, em vez de sucumbir ao diacronismo miserabilista da violência do poder. Nesta Cidade Hermética encontramos o passado/a origem ou o ventre materno dos Livros Simbólicos alquímicos, e a narratividade de um Bosch ou Breughel. Aqui, a memória perde o seu peso & assume um aspecto folclórico, carnavalesco (o festival como reiteração do prazer) com formas construídas que se apropriam (através do desenho ou através dos acidentes de declínio & acreção) das formas de seios, falos, ventres, pedras & água, musgo & flores, até de água & luz.
A cidade-grelha babilónica quer que a memória persista através dos tempos - tempo suave & vazio - mas como mostrou Dali, a memória persiste apenas na deliquescência do tempo medido. A cidade medieval - hermética (como a Green Jerusalém de Blake) preserva a memória mas de uma forma "desordenada" - como compota akashic4 - tempo que é texturado & cheio. "Babilónia" preserva a ordem (ou algo mais) - mas o que acontece aí à memória? Não foi transmutada no venenoso formaldeído da História, o re-iterado da nossa pobreza & do poder deles, mito taxinómico da classe dirigente?
Quem nos pode criticar por albergarmos quer um desejo de insurreição & nostalgia das estreitas e ventosas alamedas, escadas sombrias, ruas cobertas & túneis, estrumeiras & adegas de uma cidade que se projectou a si própria - organicamente, incoscientemente - numa estética de festiva & secreta convivialidade, & da curvilínea mutabilidade neguentrópica da própria memória?
O urbanismo psíquico dos anos 60 constituiu uma outra tentativa de recuperaração da memória construída para este projecto "Romântico" - rus in urbe - como enunciou F. Law Olmstead - "O campo na cidade" - a reintrodução do eterno "barroco" (como na "pérola barroca") 5 ou forma espontânea - (como as miraculosas grutas fungiformes de cinábrio do Taoísmo Mao Shan, criadas pela energia Imaginal do Perito - que é também a "divina" espontaneidade, inconsciência & esquecimento da natureza. Um projecto para os construtores de uma No Go Zone6 do futuro próximo: - a cidade da resistência psicogeográfica, da anti-grelha, da arquitectonalidade da deriva, o espaço de festa - e a Caverna da Memória Fluída. Pedra & água - o devaneio do bardo, o esquecimento dos deuses.
Notas:
1 O "chamamento"; a invocação do nome de Deus; em algumas confrarias misticas, prática ritual de busca colectiva do extase. (N.T.)
2 Ver Levi-Strauss, O Totemismo Hoje, Perspectivas do Homem/Edições 70, Lisboa (p.114): "Compreende-se enfim que as espécies naturais não são escolhidas (como tótemes) por serem 'boas para comer' mas porque são 'boas pra pensar'." (N.T.)
3 No estudodos sistema dinâmicos um atractor é um ponto, curva ou espaço para onde todas as trajectórias são conduzidas. Um atractor estranho é um atractor sobre o qual as trajectórias vizinhas divergem uma da outra e que tem dimensão fractal. (N.T.)
4 Akashic tem origem no Sânscrito akasa que se refere a uma essência indeterminada como espaço ou etér. Na teosofia refere-se a um sistema de armazenamento universal que regista qualquer pensamento, palavra ou acção que ocorreu desde o inicio do universo. Os registos são feitos numa substância, designada por akasha ou éter sonoro. A palavra akasha tem origem em duas palavras tibetanas: aka, espaço ou lugar de armazenamento e sa-ski, secreto ou oculto. (N.T.)
5 Tipo de pérola com forma irregular. (N.T.)
6 Ver: http://www.hermetic.com/bey/nogozone.html (N.T.)
*Hakim Bey é terrorista poético, anarquista ontológico e filósofo.
(Tradução de Ari Almeida e Pérsio Barret)
Mande esse viajão tomar no cú através dos
::: posted by ARI ALMEIDA at 3:58 PM
Sexta-feira, Junho 01, 2007 :::
Manifesto Porra Puta que o Pariu Caralho!!
Em toda sua existência você tem sido cuidadosamente monitorado e controlado. Tu és um escravo do Status Quo. Como o resto da população mundial, você é um zumbi.
Quem está te fazendo isso? Quem está te forçando a entrar na Camisa de Força da Realidade? Tu estás.
Sim, tu. Tu és um escravo da sua própria mente.
Sua mente diz a você o que não pode, o que não deve, o que não é permitido. E tu acredita nisso.
Sua mente diz a você que tu não será bem sucedido, e pronto! Você falha. Você falha, por que você acredita no que o 'senso comum' diz a você!
Então exploda sua mente!
Cáia fora do senso comum. Esqueça a Realidade. As Leis da Física são apenas diretrizes de qualquer forma. Abra seus olhos e veja como sua mente mente pra você.
Sua mente te diz que uma espécie de papel colorido é dinheiro, mas o outro é sem valor. Sua mente te diz que palavras em papel são mais verdadeiras do que palavras faladas. Sua mente te diz que você tem que ser bem-sucedido. Sua mente quer ver padrões, quer se conformar.
Exploda sua mente!
Acorde!
Veja o mundo pelo o que ele é. Um lugar caótico, com humanos tentado ver padrões aonde não há nenhum. Não há padrões a menos que você queira que eles estejam lá.
Não há regras a não ser que você as faça.
Mande esse viajão tomar no cú através dos
::: posted by ARI ALMEIDA at 11:41 AM

|
|
|
|
|